Espuma dos dias – Para além da guerra na Ucrânia — “Zugzwang”. Por Alastair Crooke

Seleção e tradução de Francisco Tavares

16 m de leitura

Zugzwang (*)

(*) Termo do xadrez, situação em que um jogador tem de fazer um movimento, mas cada jogada possível só irá agravar a sua situação.

 Por Alastair Crooke

Publicado por em 20 de Junho de 2022 (original aqui)

 

 

O futuro da Europa parece sombrio. É agora pressionada pela sua própria imposição de sanções, e o consequente pico nos preços das mercadorias. A UE está a arrastar-se, num estado de atordoamento.

A autodestruição ocidental – um puzzle desafiando qualquer explicação causal – continua. Os exemplos em que a política é prosseguida com aparente indiferença a qualquer coisa que se assemelhe a uma reflexão rigorosa, tornaram-se tão extremos que provocaram que um antigo chefe militar britânico (e antigo chefe das forças da NATO no Afeganistão), Lord Richards, sussurrasse que a relação entre estratégia e qualquer sincronização de fins está irremediavelmente quebrada no Ocidente.

O Ocidente prossegue uma “estratégia” do tipo “vamos ver como corre”, ou por outras palavras, nenhuma estratégia real, sustenta Richards. Muitos diriam que um culto de imagem positiva, implacável e sem limites, tem asfixiado as principais faculdades críticas. Como é que o Ocidente, inundado de ‘think-tanks’, invariavelmente se engana tanto? Porque é que memes fáceis e ilusões, fazendo-se passar por geopolítica, não sejam questionados? O cumprimento das narrativas oficiais e dominantes é tudo. É desconcertante observar isto tornar-se rotina, sem o aparente conhecimento dos riscos que isso implica.

O epicentro fundamental do aumento da instabilidade geopolítica actual é o estado da economia ocidental: As autoridades foram tão complacentes – de tal modo que a inflação nunca iria perturbar as águas da economia americana baseada na moeda de reserva – que a recessão cíclica foi assumida como tendo sido “erradicada”; nunca mais mancharia a esfera do consumidor (eleitoral), graças a uma “vacina” de impressão monetária; e de qualquer modo, a dívida galopante “não tem importância”.

Esta visão fácil assumiu que o “estatuto de reserva” em, ou de, si mesmo erradicou a inflação – enquanto que para o mundo exterior, foi sempre o sistema petrodólar que obrigou o mundo inteiro a comprar dólares para financiar as suas necessidades; foi a inundação de bens de consumo chineses baratos; e foram as fontes de energia baratas disponibilizadas à indústria ocidental pela Rússia e pelos Estados do Golfo, que mantiveram a inflação à distância.

Os gastos do governo ocidental “dispararam em direção à lua” na sequência da crise de 2008, e simplesmente explodiram durante os confinamentos do Covid, e depois – num episódio de visão geoestratégica deteriorada – essa energia barata e outros recursos vitais que sustentavam a produtividade económica foram descuidadamente sancionados, e até ameaçados com uma proibição.

Os portadores de óculos de Transição de Energia cor de rosa recusaram-se simplesmente a reconhecer que um EROI (retorno energético da energia investida – para extrair aquela dada energia) superior a um múltiplo de 7 é necessário para que a sociedade moderna funcione.

Observamos agora as consequências: Inflação galopante, e o Ocidente a cambalear em todo o mundo à procura de alternativas baratas que não “dêem cabo da barraca”. Infelizmente, elas são escassas. Qual é a implicação geopolítica? Numa palavra, a extrema fragilidade sistémica. Isto já alterou totalmente a política interna dos EUA. Contudo, nem os aumentos das taxas de juro, nem a destruição da procura (através da queda dos valores dos activos) irão curar a inflação estrutural. Os economistas ocidentais continuam obcecados com os efeitos monetários sobre a procura, em detrimento do reconhecimento das consequências de levar um martelo de guerra comercial a um sistema de rede complexo.

A dor social será imensa. Muitos americanos já estão a ter de comprar a sua comida em cartões de crédito quase esgotados, e isto só irá piorar. No entanto, o dilema é mais profundo. O modelo económico “anglo” de Adam Smith e Maynard Keynes – o sistema de consumo alimentado pela dívida, sobreposto a uma superestrutura hiper-financiada – estripou as economias reais. O consumo supera a produção e o fornecimento de coisas. Estruturalmente, cada vez há menos emprego bem remunerado, à medida que a economia real faz menos, deslocada por uma efémera bolha de marketing.

Mas, o que fazer com os 20% da população que já não são economicamente necessários nesta economia atenuada?

Não era esta falha estrutural eminentemente previsível? Deveria ter sido; a crise financeira de 2008, que quase fez cair o sistema, foi uma chamada de atenção. A miopia voltou a prevalecer; as prensas de impressão de dinheiro rodopiaram.

E a Europa, graças à sua alegre, mas autodestrutiva, sanção da energia e dos recursos russos, está a criar uma catástrofe inflacionista semelhante (ou pior). É agora demasiado evidente que a UE não fez nenhuma diligência devida antes de sancionar a Rússia. O potencial revés foi simplesmente posto de lado numa bruma de Net Zero e de fanfarronice ideológica. Do mesmo modo, a Europa atirou-se para o conflito militar na Ucrânia, mais uma vez sem o cuidado de definir os seus objectivos estratégicos ou os meios para um fim – levado por uma onda panglossiana de entusiasmo pela “causa” ucraniana.

A inflação aqui na Europa já está bem dentro dos dois dígitos. No entanto, sem um só rubor, Lagarde do BCE afirma: “Temos a inflação sob controlo”. Continuaremos a crescer em 2022, e o crescimento irá acelerar em 2023 e 2024. Estratégia? Fins sincronizados? Os seus pontos de discussão estavam apenas afastados de toda a realidade.

Contudo, este evento do BCE tem um significado geopolítico importante. Com o Fed a aumentar as taxas de juro nos EUA, o BCE está a ser exposto ao não ter instrumentos credíveis para fazer frente à subida em espiral das taxas da dívida soberana europeia, afastando-se de qualquer aparência de convergência. Começou uma crise da dívida soberana europeia; pior ainda, é provável que alguma dívida soberana se converta em pária e sem ofertas.

Só para ser claro, a aceleração da crise inflacionista na Europa mina as posições políticas de quase todos os políticos importantes da zona euro, uma vez que eles irão encontrar verdadeira ira popular; uma vez que a inflação devora a classe média; e os preços elevados da energia corroem os lucros das empresas.

Há ainda mais nesta impotência do BCE – um significado mais profundo: O Fed está a aumentar as taxas de juro – consciente de que está “muito atrás da curva” – para ter um impacto significativo na inflação (durante a era Volcker, a taxa dos Fundos do Fed Funds atingiu os 20%).

Os aumentos do Fed colocam a questão se o BCE tem outros objectivos em mente, para além da inflação norte-americana: Será que Powell ficaria infeliz por ver o BCE e a Zona Euro a afundarem-se em crise? Possivelmente não. As trapalhadas do mercado do Eurodólar (offshore europeu) e as políticas de taxas do BCE têm estado efectivamente a atar as mãos de Powell.

Agora o Fed está a agir independentemente – e no interesse americano em primeiro lugar – e o BCE está em apuros. Terá de seguir o exemplo e aumentar as taxas. O Fed é propriedade dos grandes bancos comerciais de Nova Iorque. Estes últimos sabem que o “conjunto” Davos-Bruxelas aspira a passar, quando possível, para uma moeda digital única do Banco Central Europeu – uma mudança que representaria um desenvolvimento ameaçando o próprio modelo de negócio dos grandes bancos americanos. (Talvez não seja coincidência, portanto, que as moedas digitais estejam a colapsar amplamente no mesmo momento).

Michael Every do Robobank escreve: “Se os EUA perderem o poder do dólar como garantia global – para mercadorias como garantia – então a sua economia e mercados [americanos] seguir-se-ão em breve [com o poder a esgotar-se de forma semelhante]”.

“Talvez essa lógica não se sustente, mas um Fed de linha dura hoje sugere que sim”. O facto de Powell ter dito em Março que “é possível ter mais do que uma moeda de reserva” é certamente um piscar de olho a esta tendência, com a Rússia a ligar o rublo a um ourograma, e a energia ao rublo.

Por conseguinte, os Grandes Bancos dos EUA, com Powell como porta-voz, estão a vingar-se de ‘Davos’, e a deixar Lagarde balançar ao vento. Eles estão a colocar os interesses financeiros americanos em primeiro lugar. Esta é uma enorme mudança em relação à era dos Acordos de Plaza [1].

A questão? A questão é que a zona euro da UE foi – por insistência alemã – construída como um apêndice do dólar. Agora o Fed está concentrado em travar o deslizamento em direcção às mercadorias como garantia global. E a Europa, com as suas predilecções ‘Davosnianas’, está a ser atirada para debaixo do autocarro. Os dólares alavancados no sistema Eurodólar estão “a regressar a casa”.

Haverá um futuro para a zona euro, dada a sua conhecida incapacidade de reforma?

Notavelmente, todas estas mudanças tectónicas, derivam no seu âmago, da saga da Ucrânia – e do abraço do Ocidente à guerra financeira de espectro total contra a Rússia. Assim, o epicentro da fragilidade financeira ocidental converge com o epicentro do conflito ucraniano, que se desenrola agora como um lento desastre político de combustão lenta tanto para a Europa como para os EUA. Com os fogos inflacionistas nas suas economias já acesos, os EUA não poderiam ter escolhido um momento pior para experimentar um boicote a tudo o que é russo.

O significado geopolítico da convergência das finanças com os militares reside no progressivo “andar para trás” dos objectivos ocidentais (supostamente estratégicos).

Primeiro, era impor uma humilhante derrota militar a Putin. Depois, enfraquecer militarmente a Rússia, de modo a que nunca mais pudesse repetir a sua “operação especial” em qualquer outra parte da Europa. Depois, passou a limitar o sucesso militar russo aos Donbass, depois a Kherson e Zaporizhzhia, também. Depois, tornou-se simplesmente uma narrativa de continuação do desgaste contra as forças russas durante os próximos meses, para infligir danos à Rússia.

Recentemente, passou a ser que as forças ucranianas têm de continuar a luta a fim de terem uma palavra a dizer em qualquer ‘acordo’ de paz, e talvez para ‘salvar’ Odessa também. Hoje, diz-se que só Kiev pode tomar a dolorosa decisão sobre que perda soberana de território pode “suportar” – a bem da paz.

É realmente o ‘fim do jogo‘. Agora é tudo é um jogo de culpas. A Rússia imporá as suas próprias condições à Ucrânia através da colocação de factos militares no terreno.

A importância estratégica disto ainda não foi percebido totalmente: Foram, evidentemente, os líderes ocidentais que fizeram uma grande jogada ao afirmar que, sem a humilhação dolorosa e a derrota militar de Putin, a ordem liberal baseada em regras estava terminada.

Claro que, para demonstrar ao mundo que o Ocidente não perdeu totalmente a sua coragem, a Equipa Biden continua a irritar a China sobre Taiwan. Na recente conferência de segurança de Shangri-la, Zelensky (sem dúvida falando a um público ocidental) insistiu que os países asiáticos “perderiam”, caso esperassem pelo desenrolar da crise, para agirem em nome de Taiwan. Para ‘ganhar’, a comunidade internacional deve “agir de forma preventiva – não aquela que vem depois do início da guerra”, disse Zelensky.

Os chineses, compreensivelmente, ficaram furiosos e seguiu-se uma reunião atribulada entre o Secretário Austin e o General Wei. Mas qual é exactamente o objectivo estratégico de provocar a China de forma tão implacável – quais são as tácticas mais vastas implícitas nesta estratégia?

Depois, há o Irão. Após oito rondas de negociações, parece que os EUA se afastam silenciosamente de um acordo da JCPOA, um passo que sugere que os EUA estão prontos a aceitar o Irão como um “estado nuclear limiar” – uma perspectiva considerada não tão marcadamente ameaçadora ou imediata, a ponto de justificar as despesas do capital dos EUA, ou o desvio da limitada “largura de banda” da atenção da Casa Branca de questões mais prementes.

Mas depois tudo mudou rapidamente: a AIEA censurou o Irão, com este último a desligar 27 câmaras de vigilância da AIEA em resposta. Israel relançou a sua campanha de assassinato de cientistas iranianos, e recentemente atravessou as linhas vermelhas no seu bombardeamento do aeroporto de Damasco. Israel está claramente a pressionar fortemente o Ocidente para encurralar o Irão.

Mas – “Estamos à deriva”, disse o antigo enviado dos EUA Aaron David Miller; “Esperando que o Irão não empurre o envelope nuclear; Israel não fará algo realmente grande; e o Irão e os seus procuradores não matam muitos americanos no Iraque ou noutros lugares”. Mais uma vez, é Miller que o diz, mas poderia ter sido o “Isso não é estratégia” de Lord Richards.

No entanto, a guerra da Ucrânia tem uma importância estratégica para os EUA e Israel – mesmo que Miller ainda não a veja. Pois, se a nova ‘doutrina’ da Ucrânia é que Kiev deve fazer concessões dolorosas de território pela paz, então o que é apropriado para o ganso ucraniano, deve ser assim para o ‘ganso’ israelita.

Evidentemente, as ondulações estratégicas que emanam do epicentro da Ucrânia espalharam-se muito mais para além – para o Sul Global, para o subcontinente indiano, e para além dele.

Mas será que esta análise, até agora, não é míope, não é também deficiente? Não faltará uma peça ao puzzle estratégico? Ao longo de todo o precedente tem sido o tema do desdém dos governos ocidentais em empenharem-se na devida diligência, combinado com uma complexa fixação cultural com a coesão e total singularidade do seu discurso – este último não permitindo que qualquer “alteridade” penetre nas suas” narrativas-chave.

Será o mesmo verdade em relação à Rússia e à China? Não, não é.

Portanto, voltamo-nos para os objectivos estratégicos da Rússia: A redefinição da arquitectura de segurança global, e o recuo da NATO por detrás das linhas de 1997. Mas quais poderão ser os seus meios para este fim ambicioso?

Bem, vamos demos a volta ao telescópio, e olhemos a partir do outro extremo. O Ocidente tem sido claramente infligido com grave miopia no que respeita às suas próprias contradições e falhas internas, preferindo concentrar-se apenas nas dos outros.

Sabemos, contudo, que tanto a China como a Rússia estudaram o sistema financeiro e económico ocidental e identificaram as suas contradições estruturais. Disseram-no. Têm-nas deixado claras (a partir do século XIX). É frequentemente feita uma analogia ao judo no que diz respeito à capacidade do Presidente Putin de utilizar a maior força física de um adversário contra ele mesmo, de modo a derrubá-lo.

Não será provável que a Rússia e a China tenham igualmente percebido os indubitáveis músculos económicos do Ocidente, mas também tenham percebido a probabilidade de poderem aumentar em demasia a sua suposta força superior; e que essa sobre-extensão possa ser o meio de “atirá-lo”? Talvez tenha sido apenas uma questão de esperar que estas contradições económicas amadurecessem para a desordem?

O futuro da Europa parece sombrio. É agora pressionada pela sua própria imposição de sanções, e o consequente pico nos preços das mercadorias. Além disso, a UE está ligada por uma rigidez institucional tão grave que a sua grande estrutura não consegue avançar nem recuar. Ela está a arrastar-se, num estado de atordoamento.

Como pode a Europa salvar-se a si própria? Rompendo estrategicamente com Washington, e fazendo um acordo com a Rússia? Ou então, encontra-se “atirada” pela “musculatura” das suas próprias “sanções”? Há que dar-lhe tempo. Eventualmente, acabará por ser entendida como a solução.

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Nota

[1] N.T. Plaza Accord: foi um acordo conjunto assinado a 22 de Setembro de 1985, no Hotel Plaza em Nova Iorque, entre a França, Alemanha Ocidental, Japão, Reino Unido e Estados Unidos, para desvalorizar o dólar americano em relação ao franco francês, o marco alemão, o iene japonês e a libra esterlina britânica, intervindo nos mercados cambiais. O dólar americano depreciou-se significativamente desde a altura do acordo até ser substituído pelo Acordo do Louvre em 1987. Alguns comentadores pensam que o Acordo Plaza contribuiu para a bolha de preços dos activos japoneses do final dos anos 80. (Ver Wikipedia aqui)

 


O autor: Alastair Crooke [1949-] Ex-diplomata britânico, fundador e diretor do Fórum de Conflitos, uma organização que advoga o compromisso entre o Islão político e o Ocidente. Anteriormente, era uma figura de destaque tanto na inteligência britânica (MI6) como na diplomacia da União Europeia. Era espião do Governo britânico, mas reformou-se pouco depois de se casar. Crooke foi conselheiro para o Médio Oriente de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia (PESC) de 1997 a 2003, facilitou uma série de desescaladas da violência e de retiradas militares nos Territórios Palestinianos com movimentos islamistas de 2000 a 2003 e esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade em Belém. Foi membro do Comité Mitchell para as causas da Segunda Intifada em 2000. Realizou reuniões clandestinas com a liderança do Hamas em Junho de 2002. É um defensor activo do envolvimento com o Hamas, ao qual se referiu como “Resistentes ou Combatentes da Resistência”. É autor do livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution. Tem um Master of Arts em Política e Economia pela Universidade de St. Andrews (Escócia).

 

 

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