Da histeria na diabolização à necessidade em silenciar as vozes discordantes -Reflexões sobre a atual cacofonia em torno da guerra na Ucrânia – Introdução, por Júlio Marques Mota


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Introdução

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 5 de Julho de 2022

 

A guerra continua em crescendo e com ela uma diabolização consequente, igualmente em crescendo, de Putin, como se este seja verdadeiramente o único mau desta horrorosa fita que é um verdadeiro atentado contra a Humanidade.

É neste contexto que organizei uma pequena série de textos tendo como temática central o Mundo dos assassinos atuais da nossa memória, para parafrasear o título de um livro de Pierre Vidal-Naquet, e constituída pelos seguintes artigos:

  1. 1989-2001: O longo fim-de-semana Perdido pela América, por Walter Shapiro, The New Republic.
  2. As milícias de ultradireita da Ucrânia estão a desafiar o governo para um confronto, por Joshua Cohen, Washington Post.
  3. Violência por grupos ultranacionalistas ucranianos contra pessoas suspeitas de separatismo, por OFPRA (França).
  4. O regresso dos assassinos da memória, por Régis de Castelnau.
  5. Mais uma guerra entre demasiadas no Planeta Terra, por Rajan Menon, TomDispatch.
  6. A História julgará os Estados Unidos e os seus aliados, por John J. Mearsheimer.

 

Neste conjunto de textos, no fundo, defendem-se posições em nada diferentes daquelas que temos vindo a defender desde Fevereiro ou fornecem-nos dados que confirmam o bem fundamentado das teses por nós defendidas.

O primeiro deles, tomando como ponto de partida a queda do muro de Berlim refere-se à década perdida nos Estados Unidos com Bill Clinton e, no contexto que nos interessa, o da cacofonia em torno da guerra na Ucrânia, fala-nos menos do que ele fez – o avanço da NATO para Leste e o forçar a transição rápida para o capitalismo selvagem da Europa de Leste – e mais do que ele não fez – a obrigação de ajudar a democratização do bloco Leste. Pelo que fez e pelo que não fez, Clinton abriu o caminho à situação que temos atualmente. Nada mais que isso.

O segundo e terceiro textos falam-nos do que foi feito depois do golpe de Estado fabricado em Washington e apoiado pela União Europeia na Ucrânia, o que resultou depois do que aconteceu na Praça Maidan, em Fevereiro de 2014.

O quarto texto fala-nos do negacionismo que existe hoje em relação às ações a que se referem os segundo e terceiro textos, ou seja, os Ocidentais tentam branquear a realidade política da Ucrânia, apresentando-a como um país candidato à integração, e o mais rápido possível, na União Europeia. Com efeito, o artigo 49.º do Tratado da União Europeia diz-nos: “qualquer Estado europeu que respeite os valores referidos no Artigo 2.º e esteja comprometido em promovê-los poderá candidatar-se a tornar-se membro da União”. Esses valores incluem a liberdade, a democracia e o Estado de direito. Depois de lermos os artigos 2 e 3, situados no tempo em 2018, em que nos mostram que estes valores a que se refere o Artigo 49 sistematicamente não são respeitados na Ucrânia, o artigo de Régis Castelnau, de junho de 2022, mostra-nos criticamente o esforço das autoridades europeias em apagar das nossas consciências o que de grave se tem passado na Ucrânia quanto ao desrespeito pela Democracia. Daí a classificação de Régis Castelnau ao afirmar que desta forma devemos considerar os dirigentes europeus como autênticos assassinos da nossa memória.

O quinto texto, tem a característica de não se colocar perante as realidades expostas nos textos anteriores e, assim, coloca-se no mesmo plano que aqueles que me criticam: há um país invasor e um país invadido. Vale a pena lê-lo e apesar disso chega-se à mesma conclusão de que temos defendido: é necessário negociar a paz e urgentemente.

Mas o branqueamento do que foi e é a Ucrânia politicamente leva-nos ao sexto texto e o seu título é bem esclarecedor da conclusão a que se chega: “A História irá julgar os Estados Unidos e os seus aliados”. Um texto que tem a assinatura de John J. Mearsheimer, hoje um dos cientistas mais importantes nos Estados Unidos no campo das relações internacionais e da escola do realismo político. Em conclusão, diz-nos ele:

Conclusão

Em termos simples, o conflito em curso na Ucrânia é uma catástrofe colossal, o que, como observei no início desta minha intervenção, obrigará pessoas de todo o mundo a procurar as suas causas. Aqueles que acreditam em factos e lógica descobrirão rapidamente que os Estados Unidos e os seus aliados são os principais responsáveis por este descarrilamento do nosso comboio comum. A decisão tomada em Abril de 2008 sobre a adesão da Ucrânia e da Geórgia à NATO estava destinada a conduzir a um conflito com a Rússia. A administração Bush foi o principal arquiteto desta escolha fatídica, mas as administrações Obama, Trump e Biden intensificaram e agravaram esta política em cada curva, e os aliados da América seguiram obedientemente Washington. Apesar do facto de os líderes russos terem deixado bem claro que a adesão da Ucrânia à NATO significaria cruzar as “linhas vermelhas mais contrastantes” da Rússia, os Estados Unidos recusaram-se a aceitar as profundas preocupações da Rússia em matéria de segurança e, em vez disso, moveram-se incansavelmente para transformar a Ucrânia num bastião ocidental na fronteira com a Rússia.

A trágica verdade é que se o Ocidente não tivesse procurado expandir a NATO para a Ucrânia, é improvável que hoje em dia tivesse havido uma guerra na Ucrânia, e a Crimeia ainda faria muito provavelmente parte da Ucrânia. De facto, Washington desempenhou um papel central na condução da Ucrânia para o caminho da destruição. A história condenará severamente os Estados Unidos e os seus aliados pela sua política estúpida em relação à Ucrânia.” Fim de citação.

 

A procura da paz, a diplomacia como arma contra a guerra, não é o caminho que os políticos ocidentais têm seguido, pelo menos os europeus que com a destruição em massa ao pé da porta, seguem os interesses dos Estados Unidos, o grande fabricante dos instrumentos de morte e que desde há trinta anos tem estado sempre em guerra como se seja a guerra que alimenta a sua economia, sendo certo que alimenta o seu poder no mundo.

O que me impressiona aqui é o que nos dizem tanto o texto número 2 como o texto número 3 sobre a realidade da Ucrânia, escritos em 2018, face à recuperação que é feita agora pelos valetes de Biden que querem à força integrar a Ucrânia na União Europeia. E vejamos porquê:

  1. O texto 2 descrevendo a força das organizações nazis ou para-nazis na Ucrânia é um texto escrito por Joshua Cohen e publicado pelo Washington Post, que hoje poderemos considerar como um dos porta-vozes do governo Biden. Ora, Joshua Cohen foi um alto funcionário de USAID responsável pela gestão de projetos de reformas económicas na ex-União Soviética
  2. O texto 3 é publicado pelo Office Français de Protection des Réfugiés et Apatrides que descreve a violência organizada que é praticada pelas forças militares e paramilitares que reinam na Ucrânia. Nem em Portugal a PIDE atingia tamanha selvajaria.

A grande pergunta a colocar aqui é a seguinte: como é possível que os media e os governos ocidentais passem a “ignorar” o que sabiam desde há muito tempo? O que nestes textos está escrito é uma verdadeira viagem ao mundo do horror. Ora, esta pergunta leva-nos a uma outra tão importante quanto esta: como é que foi possível chegar aqui, a esta tragédia que se abateu sobre a Europa e sobre o Mundo? Se não se tiver consciência de que existem causas desde há muitos anos, e que têm que ver com muito do que aconteceu depois do desmoronar da antiga União Soviética, da expansão da NATO para Leste e das receitas aplicadas pelo chamado Ocidente sobre a Europa de Leste, caminharemos na senda da diabolização e por cada dia que passa o caminho de acesso à paz é cada vez mais estreito. Será que se quer mesmo fechar este caminho? Já não digo nada pois já se chega ao ponto do que nos conta Regis de Castelnau:

Há, contudo, um ponto estranho que merece ser desenvolvido: o da negação da importância da corrente ultranacionalista, ou mesmo neonazi existente na Ucrânia, e do seu peso na vida política do país. Porque estamos a assistir à negação de um facto óbvio que foi reconhecido há apenas alguns meses por aqueles que hoje nos garantem que tudo está bem e que é apenas folclore. O que é inacreditável é que esta propaganda conduz a um verdadeiro negacionismo que diz respeito, desculpem o trocadilho, aos genocídios da Segunda Guerra Mundial! O paroxismo foi alcançado no início do mês durante as comemorações do desembarque dos Aliados na Normandia, quando a imprensa publicou na primeira página uma foto da cerimónia oficial onde se podia ver a bandeira ucraniana desfraldada no meio das bandeiras Aliadas na praia, saudada no céu por uma patrulha francesa.

A 6 de Junho de 1944, havia de facto ucranianos a combater na costa da Normandia, mas eles estavam no exército nazi e opunham-se ao avanço das forças aliadas. Pois é de facto uma questão de negacionismo, uma vez que nesse mesmo mês de Junho de 1944, aqueles que hoje são homenageados na Ucrânia e apresentados como heróis oficiais, estiveram lá ao lado dos nazis para levar a cabo os massacres de judeus e polacos. Se entendermos corretamente, o negacionismo do Holocausto é como o colesterol ou os caçadores, há um bom e um mau. E o fim que justifica os meios, a negação em apoio da Ucrânia, seria um bom negacionismo?” Fim de citação.

Tudo dito, tudo serve para branquear o que resultou da Praça Maidan, como se ilustra com esta comemoração, onde até a mentira pura e simples é utilizada e se chega assim ao desprezo pela memória daqueles que morreram na luta contra o nazismo.

Agora, a televisão dá-me uma outra notícia curiosa: os “ucranianos de Kiev” têm muito mais respeito pelos russos mortos do que os russos pelos “ucranianos de Kiev” vivos. Acreditam nisso?

Aos que lerem esta minha introdução à série e que farão parte dos me criticam e acusam de putinista, trumpista, Lepenista e até de nazi, peço que pensem no que esses textos nos dizem e se questionem sobre quem é que afinal estará do lado certo da História, eles ou eu. E digo-o por uma razão muito simples, desde o princípio desta guerra que apelo ao não branqueamento do que nos trouxe até aqui, ao não branqueamento das forças que organizam esta orquestração à escala mundial e que tornaram possível esta horrível realidade e sem falar do que podemos esperar com estas gentes, com estas forças, no futuro que nos aguarda já para amanhã.

 

Do que podemos esperar desta nossa classe política tivemos há dias dois bons indicadores: a cimeira da NATO e o Fórum do Banco Central Europeu em Sintra.

  1. Cimeira da NATO

Passei dois dias incómodos em torno de textos incómodos. Comecei antes por ficar baralhado com a intervenção de António Costa em torno das despesas militares. Como é que é possível que alguém que posso ser considerado como profundamente socialista – conheço-o pessoalmente mesmo que ele não se lembre de mim -, me venha argumentar que as despesas militares “usufruem” de um multiplicador de rendimento excecional, igual a 3. Dito de outra maneira, se gastarmos 100 euros em metralhadoras obtemos um rendimento adicional, par além das metralhadoras, de 200 unidades de PIB. Em nenhum outro sítio do país, do mundo se terá um multiplicador deste tipo. Desta forma, como nenhum outro setor da economia tem um tal efeito de ampliação do rendimento, poderíamos abater o Serviço Nacional de Saúde e deslocar todos os seus recursos financeiros para a produção de metralhadoras de ponta. O paradoxo seria: quanto mais for o seu poder mortífero mais a metralhadora é tecnicamente avançada e quanto mais avançada é maior é o seu poder multiplicador de rendimento, mais ricos ficamos em investir em metralhadoras avançadas. Esta é a consequência lógica da afirmação de António Costa.

Dir-me-ão, mas isto é um paradoxo. Responderei, no mundo dos políticos de hoje, um mundo às avessas do mundo das pessoas comuns, tudo é possível. E dou-vos um exemplo, expresso por um humorista relativamente a Bill Clinton. Bill Clinton, com alguns anos de atraso face a François Mitterrand fez a grande viragem neoliberal nos USA, reformando o Estado Providência em 1996. Vejamos como Jules Feiffer capturou a essência desta posição de Bill Clinton: “Estou moralmente perturbado com o projeto de reforma do Estado Providência porque este projeto castiga os fracos… que, pensando bem, não votam, enquanto todos os que se ressentem, votam! Por isso, é melhor que eu me contenha e assine o projeto de lei da reforma do Estado Providência. Porque, se eu não for reeleito, quem é vai defender os pobres?

Para ser reeleito, Clinton sente que precisa de virar à direita e por isso pune os pobres com um conjunto de reformas que lhes são desfavoráveis, desprotege-os, penaliza-os, mas se não for eleito quem é que os vai defender? Ninguém, por isso precisa de ser eleito, mas para ser eleito precisa de punir os pobres, para assim os poder defender! No mundo neoliberal de hoje podemos dizer que em política todos os paradoxos são possíveis. Tal como este exemplo de António Costa, nada diferente do de Clinton.

Uma argumentação destas quando Portugal está a romper pelas costuras, na educação, na saúde, no trabalho, nos transportes, em qualquer setor de que se fale, quando se começa a sentir um descontentamento generalizado, quando se irá assistir a um período de greves sucessivas, o investir, e massivamente, em armas só pode ser tomado como um paradoxo. Ou não é assim? Para esta leitura de António Costa sobre o relevo das armas na “multiplicação” do PIB só vejo uma explicação possível. Será que António Costa está a concorrer para Secretário-Geral da NATO, uma vez que o cargo ocupado pelo economista neoliberal Jens Stoltenberg fica vago em setembro de 2022? Será?

Repare-se empurraram-nos para a austeridade e vem-nos António Costa “mostrar” que a saída para os amanhãs que cantam será então a produção de armamento de ponta, com um multiplicador keynesiano igual a 3! É demais, para não dizermos que andamos num mundo completamente às avessas em que os socialistas se assumem como falcões da guerra. Já tivemos um exemplo com António Vitorino a candidatar-se para Secretário-Geral da NATO. Será que agora iremos ter António Costa a concorrer para o mesmo cargo! Ver-se-á em setembro.

Estamos a ver o filme, estamos numa guerra quando ainda não saímos da pandemia Covid, estamos com disfuncionamento dos mercados globais e das suas cadeias de abastecimento, estamos à beira de uma crise alimentar de proporções incalculáveis para dadas regiões do mundo,  e agora vêm-nos empurrar para a militarização das economias e casa onde começa a faltar o pão todos começam a ralhar, e com razão. Os distúrbios sociais serão pois uma consequência.

Sobre este tema noticiava o Expresso:

Sobre o contexto da multiplicação por oito das forças da NATO em alta prontidão – que vão passar de 40 mil para 300 mil – também não se compromete com um aumento na mesma proporção. Antes de mais, Portugal espera “que o comando da NATO faça uma precisão da distribuição das capacidades necessárias para a contribuição” portuguesa, enfatizou o PM, que referiu depois que “já aumentámos este ano a nossa participação em Forças Nacionais Destacadas, designadamente no âmbito na NATO, com forte presença na Roménia. E continuaremos a acompanhar esse reforço”.

No entanto, aumentar “oito vezes” o número de tropas em prontidão “no conjunto global, não quer dizer que cada país aumente oito vezes a suas disponibilidades”, disse António Costa aos jornalistas. “Participaremos de forma adequada ao que são as nossas circunstâncias.” Fim de citação

E qual vai ser o objetivo deste aumento? Ouçamos Carlos Matos Gomes:

“O documento que saiu da cimeira da NATO de Madrid coloca a questão central da definição do “Ocidente”, que é a referência à entidade ao serviço de cujos interesse a aliança militar age; e dos valores ocidentais, aquilo que constitui o núcleo que identifica e distingue os ocidentais dos outros grandes grupos políticos, militares e económicos.

Contém uma frase decisiva, que os líderes europeus deviam esclarecer. O comunicado salienta enfaticamente: “as ambições e políticas coercitivas da República Popular da China desafiam nossos interesses, segurança e valores”.

(…)

Por fim, quando o seráfico secretário-geral da NATO fala em ameaças ao Ocidente resultantes da invasão russa da Ucrânia está a ludibriar os cidadãos europeus, que não têm que ser instruídos em análises de situações de combate. O exército russo está desde Fevereiro a tentar conquistar uma faixa de cerca de 150 quilómetros num movimento para ocidente. A Rússia dispõe de muito limitada capacidade de projeção de forças a grande distância, tem muito poucos porta-aviões, por exemplo, que são o sistema típico de forças atacantes e dos impérios globais — caso da Inglaterra até à II Guerra Mundial.

É evidente para qualquer oficial de estado-maior, mesmo de uma pequena unidade, que as Forças Armadas russas não têm capacidade para construir e colocar em movimento um rolo compressor que passe sobre a Polónia, a Alemanha, a França, a Espanha e chegue ao Atlântico!

A política da NATO saída da cimeira de Madrid, com o pomposo título de “Novo Conceito Estratégico” assenta nesta falaciosa premissa!

O que os líderes europeus se comprometeram foi a aumentar as despesas para pagar armas dos EUA, da Austrália, da Nova Zelândia, do Japão contra a China!”. Fim de citação.

 

  1. Fórum do BCE em Sintra

Por fim, fico a saber, a partir das informações da Associated Press News, que Lagarde e Powell se preparam para combater a inflação, de origem não clássica, por deficiências múltiplas do lado da oferta, pelos métodos mais clássicos, pelo aumento das taxas de juro. Informa-nos o jornal Observador quanto às declarações de Lagarde no Fórum do BCE em Sintra:

A inflação na zona euro “está indesejavelmente elevada” e o banco central irá agir de “forma determinada e sustentada” contra a subida dos preços, garantiu esta terça-feira Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE). Em Sintra, para o Fórum anual do BCE, Lagarde diz que o banco central está disponível para “ir tão longe quanto for necessário” para baixar a taxa de inflação para níveis mais próximos do objetivo de médio prazo de 2%.

É um “grande desafio” que a taxa de inflação esteja em níveis elevados – mais de 8% –, sobretudo porque o BCE reconhece que o ritmo de subida dos preços vai continuar elevado “por algum tempo”. Christine Lagarde diz que o BCE irá avançar de forma “gradual” mas sempre “com a opção de agir de forma mais decisiva se houver alguma deterioração das expectativas de inflação no médio prazo, especialmente se houver sinais de uma desancoragem das expectativas de inflação“.

O BCE confirma que planeia aumentar as taxas de juro no próximo dia 21 de julho, o que será a primeira subida das taxas de juro na zona euro desde 2011 – deverá ser uma primeira subida de apenas 25 pontos base (um quarto de ponto percentual). Também se antecipa que em setembro poderá vir outro aumento e Christine Lagarde volta a admitir que “a dimensão do aumento de setembro poderá ser maior, se for necessário“.

Podemos acrescentar no que diz respeito à política monetária restritiva que as afirmações de Powell não foram mais animadoras. Com efeito, este afirmou:

Temos uma inflação elevada já há mais de um ano“, disse Powell. “Seria uma má gestão do risco assumir apenas que essas expectativas de inflação a longo prazo permanecerão ancoradas indefinidamente face a uma inflação persistentemente elevada. Portanto, não estamos a fazer isso”.

“Haverá o risco de irmos longe demais? Certamente que há um risco, mas eu não concordaria que é o maior risco para a economia… O maior erro a cometer, digamos assim, seria não conseguir restaurar a estabilidade dos preços”.

E acrescentou: “não há nenhuma garantia de que se possa controlar a inflação e preservar os empregos”.

Questionado sobre a possibilidade de o Fed poder ir demasiado longe na sua política monetária restritiva, Powell na quarta-feira fez eco de um ponto que ele apresentou no testemunho feito no Congresso na semana passada: Há resultados piores do que uma recessão, disse ele.

Vale a pena lembrar que as pressões sobre os preços a que estamos a assistir agora só surgiram relativamente recentemente, em comparação com os preços elevados que prevaleceram durante mais de uma década, nos anos 70 e 80. Powell quer evitar isso a todo o custo, e deixou claro na quarta-feira que alguma dor – mesmo uma recessão – é um resultado que o Fed está disposto a aceitar.” (Ver as declarações de Powell aqui e aqui ]

Não quero comentar por aqui as declarações acima reproduzidas, direi apenas que o que o BCE e o FED preparam é mais uma vez uma política de austeridade, um retorno aos anos 80 de Tatcher e Reagan, e isto com uma guerra em cima da mesa, com uma crise Covid ainda por terminar e com o enorme disfuncionamento dos mercados globais e das suas cadeias de abastecimento. Sobre a Cimeira de Sintra diz-nos Bill Mitchell:

Ao aumentarem os custos de empréstimo, estes podem ser capazes de influenciar a procura, mas nada farão para influenciar as ruturas de navegação, os encerramentos de fábricas, o aumento das vagas de trabalhadores doentes da Covid, a invasão russa, e [o comportamento anticompetitivo] da OPEP.

Não há resposta dos banqueiros centrais a esta anomalia a não ser voltar ao guião [de há muito tempo escrito].

  1. A inflação deve ser a nossa prioridade.
  2. As expectativas inflacionistas podem sair do nosso controlo e tornarem-se autorrealizáveis.
  3. A única ferramenta de que dispomos é conduzir a economia para a recessão, induzir a pobreza crescente, etc.
  4. Mas não comentaremos os aumentos salariais obscenos dos Diretores Executivos das empresas que são relatados todos os dias na imprensa financeira.” Fim de citação.

 

Nos seus resultados, estes dois eventos, NATO e Fórum do BCE, não estarão pois desligados entre si e nem relativamente a tudo o resto. Mais importante que o emprego é a inflação e com a política monetária restritiva anunciada tudo aponta para mais precariedade, mais canhões, menos manteiga, menos Estado Providência e uma Europa que se quer armada até aos dentes. Mais armas e mais tropas significam deslocação de recursos da produção socialmente útil para a produção socialmente inútil, o que acoplado a aumentos de taxas de juro, significam créditos mais caros, significam peso da dívida pública mais elevado, significam aumento da dívida pública, significam cortes orçamentais para lhe dar resposta, significam diminuição do peso do Estado na esfera social, onde já escasseia, significam o retorno a uma forte austeridade de onde cabalmente ainda não tínhamos saído. Dirão, a culpa é dos russos.

É pois visível que a diabolização de Putin dá jeito, os pobres e as classes médias pagarão, como sempre, a fatura porque a classe política, essa, ficará protegida, pensa ela, dos conflitos sociais, porque dirá sempre que a culpa dos disfuncionamentos económicos e sociais é, afinal, dos russos e não do modelo económico utilizado. Até nisso, a diabolização de Putin e o branqueamento das responsabilidades do Ocidente nesta tragédia, afinal, são mesmo uma necessidade do sistema. Na verdade, Putin, faz sempre jeito, fez jeito a Obama para explicar porque é que a sua Secretária de Estado, Hillary Clinton, perdeu as eleições contra Trump, fez jeito a Trump quando este perdeu as eleições contra Biden, faz jeito agora para se poder continuar com a máquina de guerra instalada nos Estados Unidos. E para isso é necessário branquear as razões que nos trouxeram até esta dramática situação, daí o forte investimento na diabolização e em fazer esquecer o que é inconveniente. E silenciar as declarações do Papa faz parte da panóplia de ferramentas para abafar a sua inconveniência

E é tudo.

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