A UCRÂNIA IRÁ ADQUIRIR AOS EUA REACTORES NUCLEARES E OUTROS SERVIÇOS DO MESMO RAMO? – por ANTÓNIO REDOL

 

Consulta à Westinghouse para encomenda de novos grupos nucleares.

Segundo a publicação World Nuclear News de 22 de Junho, realizou-se uma reunião por vídeo-conferência entre o Presidente Petro Kotin da empresa ucraniana Energoatom – a qual possui as centrais nucleares (15 grupos nucleares) de construção soviética – com o vice-Presidente da Westinghouse Elias Gedeon para analisar a cooperação entre as duas entidades.

Num acordo realizado em Setembro de 2021, a Energoatom mostrou a intenção de adquirir entre 5 e 9 novos reactores nucleares àquela empresa fabricante de tais equipamentos. Além dessa questão, foi analisado o apoio da empresa estadunidense à entidade reguladora da energia nuclear da Ucrânia, a instalação de um Engineering and Technical Centre dirigido pela Westinghouse e do fornecimento do urânio enriquecido, o qual até meados de 2021 era totalmente fornecido pela Rússia; depois fornecido pela Rússia e pela Westinghouse.

Apenas a partir do dia 24 de Junho de 2022 a Energoatom deixou de ter cooperação com a Rússia, nomeadamente quanto ao fornecimento de urânio enriquecido. Provavelmente já adquiriu o combustível para a próxima recarga e talvez uma reserva, o que lhe dará para cerca de 3 anos.

A Westinghouse Electric Co e a indústria francesa  

A Westinghouse Electric Co é uma velha fabricante de equipamento nuclear, tem espalhados pelo mundo muitas dezenas de reactores saídos das suas oficinas, entre os quais os da conhecida dos portugueses central de Almaraz, perto da nossa fronteira com a Espanha. E outras centrais espanholas.

São reactores do tipo PWR (Pressurized Water Reactor), isto é, de “água sob pressâo”. Foram inicialmente desenvolvidos para equipar submarinos nucleares e, depois, foram utilizados, com uma potência muito mais elevada, para produzir energia eléctrica. Existem outros tipos de reactores, com menor expansão, alguns já abandonados.

Com a grande diminuição das encomendas de grupos nucleares nos EUA, na Europa e noutras regiões nos anos 80 e 90, com os enormes aumentos de custos dos reactores como resultado das exigências de segurança – em virtude de numerosos acidentes em que se verificou disseminação no ambiente de produtos radioactivos, do acidente de Chernobyl em 1986 -, a Westinghouse Electric Co e outros fabricantes entraram em muito difícil situação financeira.

Acrescente-se as ocorrências que se verificaram nos reactores nucleares deste fabricante, em que os chamados geradores de vapor (steam generators) começaram a apresentar fissuras nas suas tubagens em aços especiais, com passagem de elementos altamente radioactivos do chamado circuito primário, que traz água e vapor de água a alta temperatura do núcleo do reactor, para o chamado circuito secundário, o qual leva o vapor de água à turbina, onde a energia eléctrica é produzida. Isto é, o vapor que chegava à turbina vinha contaminado com produtos altamente radioactivos. Nos geradores de vapor, normalmente 3 por reactor, realiza-se a permutação do calor entre os dois circuitos. A água com produtos radioactivos acabava por se derramar também no solo do edifício do reactor, atingindo quem lá trabalhava.

A Westinghouse teve de substituir os geradores de vapor em numerosos reactores. Cada um deste conjunto de equipamentos, essenciais num reactor, custava cerca de 10% do alto custo de um reactor. Foi um prejuízo enorme para a empresa.

Com as diferentes situações descritas a Westinghouse Electric Co entrou numa situação de grave crise financeira.

A propósito, diga-se que entraram em falência várias empresas de energia eléctrica dos EUA, devido aos enormes aumentos de custos, muitos reactores nucleares não chegaram ao fim de construção e outros que estavam em serviço foram encerrados devido aos altos custos de manutenção e de substituição de equipamento. Em muitos casos reactores estiveram parados durante longos períodos, às vezes alguns anos, devido a exigências das autoridades fiscalizadoras em resultado de incidentes ou acidentes ocorridos, outras vezes por pressões das populações vizinhas das centrais, outras devido a avarias graves dos equipamentos ou a prolongamentos dos trabalhos de manutenção. Em equipamentos com tão elevados investimentos, paragens tão prolongadas são fatais para a sua rendibilidade.

Em 2006, a Toshiba adquiriu a Westinghouse Electric Co, mas, na sequência do acidente de Fukushima no Japão em 2011 a empresa entrou em situação de falência em 2017 e a Toshiba vendeu-a em 2018.

No Japão, a Toshiba e a Mitsubishi, que construíam reactores nucleares, entraram em situação muito difícil com o cancelamento do programa nuclear do país depois de Fukushima.

Para se aquilatar como caíram drasticamente as encomendas, recorda-se que, nos EUA, estas caíram de três dezenas por ano em 1970 para zero no final dessa década e que em França caíram de cinco para uma a partir de 1982. Nos EUA, entre 1953 e 2008, dos 253 reactores encomendados, cerca de metade foram cancelados. A energia nuclear é considerada nos EUA o maior fiasco industrial da história do país.

Na URSS e nos países de Leste a construção continuou, mas aí sabe-se como as opiniões públicas não tiveram acesso à informação sobre os acidentes ocorridos e os perigos da utilização desta forma de energia.

Todas estas e outras situações de grandes dificuldades para a indústria nuclear fizeram que muitos países e empresas desistissem desta opção com excepção de França. Neste país, o fabricante de reactores, a Framatone, passou também por grandes dificuldades e só não faliu devido ao apoio do governo e da empresa de energia elétrica, a Electricité de France (EDF), que continuou a garantir a viabilidade da empresa com a encomenda de 4 a 5 rectores por ano, número excessivo para o aumento de consumo francês.

A Framatome trabalhava inicialmente com licenças da Westinghouse, que tinha participação no seu capital, mas que depois vendeu. Hoje, a Framatome – que chegou a ser designada por Areva NP, uma secção do grupo Areva – é possuída pela EDF, maioritariamente, e pela Mitsubishi.

Como resultado desse intenso programa de construção, a EDF começou a exportar energia eléctrica para vários países europeus, incluindo Portugal, a muito baixo preço, para que os grupos nucleares não tivessem de parar. Como se vê, tudo isto era o “mercado a funcionar”, que a União Europeia exige a quem não tem poder suficiente, mas não se aplica a todos. Já agora, informar que a empresa fabricante de turbinas, a Alstom, e as de alternadores, não tinham de se submeter aos concursos internacionais para fornecer a EDF, exigidos a outras empresas como a EDP. Também a parte de construção civil, que constitui uma fracção importante do investimento num grupo nuclear, era entregue apenas a empresas francesas.

O crescimento exponencial do custo dos reactores nucleares

Para se perceber como foi o grande crescimento dos custos de um grupo nuclear, importa saber que entre 1967 e 1980 o custo de um grupo de cerca de 1.000 MW passou de US$ 100/kW para US$1.030/kW. Pesou a inflação, mas, principalmente, as cada vez mais exigentes medidas de segurança em resultado dos inúmeros incidentes e acidentes que se verificaram, com especial relevância para o que aconteceu em Browns Ferry em 1975 e Three Mile Island em 1979 – com parcial fusão do núcleo. Desses incidentes e acidentes nem todos vieram a público, pois a indústria nuclear é muito pouco transparente; em muitas empresas os trabalhadores quando se reformam são obrigados a assinar uma declaração de confidencialidade, que os obriga a não darem qualquer informação sobre os problemas da empresa; a EDP, que não tem centrais nucleares, tem exigido o mesmo em certos sectores chave.

Em 1982, o custo já era de US$1320/kW a US$1850/kW, segundo a Agência Internacional de Energia Atómica, dependendo do local e das condições de licenciamento. Naquele período 1967-1980, a quantidade de aço, de cimento e cabos elétricos duplicou ou triplicou e a de mão de obra quadruplicou.

Hoje, com a grande quebra de construção de novas centrais que a partir de então se verificou, é mais difícil saber o custo, mas andará à volta de US$10.000/kW.

A construção de uma central dura à volta de 10-13 anos, no mínimo – cerca de 6 anos nos anos 70 – acontecendo que durante a construção o seu custo tem aumentado duas a três vezes em casos conhecidos, como recentemente na Finlândia.

Portanto, um grupo nuclear aumentou exponencialmente de custo, sendo muito difícil saber hoje o valor, mesmo aproximado, dado que a informação é rara e pouco credível.

Todavia, um grupo nuclear de cerca de 1.000 MW (1 MW = 1.000 kW) deve custar, pelo menos, entre 10 – 12 mil milhões de euros, valores que algumas publicações referem, embora sem explicarem muito bem se, por exemplo, incluem os encargos com a primeira carga de combustível, os encargos financeiros durante a construção e uma percentagem para imprevistos, a qual, muitas vezes inclui o pagamento de “luvas”.

O investimento numa central nuclear com um ou com vários grupos sempre foi muito elevado, a que só entidades com grande capacidade financeira se podiam abalançar. Por exemplo, a atrás citada central de Almaraz, com dois grupos de cerca de 900 MW cada, é propriedade de três empresas de energia eléctrica espanholas: Iberdrola, Endesa e Únion Fenosa,

A Ucrânia e a União Europeia

É estranho que a Ucrânia, que quer pertencer à União Europeia, não dê preferência à empresa francesa de fabrico de grupos nucleares, a Framatome, e às empresas europeias de produção de urânio enriquecido. A França também tem uma boa tradição na investigação nuclear, podendo garantir o atrás referido centro de engenharia e também consultadoria no licenciamento e fiscalização de centrais.

Depois de tirarem aos franceses o fornecimento de submarinos nucleares à Austrália, os EUA tiram-lhes agora o fornecimento de centrais nucleares.

A França, desde o início do Séc. XX dedicou grande atenção à Química da radioactividade, primeiro com Henri Becquerel e, depois, com Marie e Pierre Curie, Irene e Frédéric-Joliot, sendo ambos os casais contemplados com Prémios Nobel da Química.

O Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) concentrou a investigação neste domínio, tendo ali trabalhado o físico português Manuel Valadares, o primeiro português a trabalhar com a radioactividade e que chegou a dirigir este centro. Em 1973, foi fundado o Comissariat à l’Énergie Atomique, agora Comissariat à l’Énergie Atomique et aux Énergies Alternatives, que realizou a investigação nuclear, incluindo no que respeita ao programa nuclear militar. A maior parte das tecnologias aplicadas na construção de grupos nucleares (inicialmente os reactores a urânio natural/gás/grafite, depois abandonados), e no chamado ciclo do combustível (urânio, seu enriquecimento, reprocessamento do combustível irradiado ou, seja, tratamento dos produtos radioactivos da reacção nuclear extraídos do núcleo do reactor – nomeadamente o plutónio para as bombas) foram neste centro investigadas e adaptadas para produção industrial.

Na sua instalação de Saclay foram realizadas inúmeras acções de formação de técnicos nucleares de muitos países. Dezenas de técnicos nucleares portugueses fizeram ali a sua formação.

Uma empresa, a Areva NC (antiga Cogema), produz os elementos de combustível, sendo o urânio enriquecido em instalações suas. Anteriormente tinha existido a Eurodif, onde participaram vários países europeus e o Irão. Também o Reino Unido, a Holanda e a Alemanha têm hoje unidades industriais de enriquecimento de urânio (a empresa Urenco nas suas várias instalações; também nos EUA). Não confundir estas unidades de grande dimensão com pequenas unidades que existem em vários países, como o Irão.

Existe uma unidade de reprocessamento de combustível em La Hague. Todavia, a França, como todos os outros países que recorrem à energia nuclear, não resolveu o grave problema do armazenamento seguro dos resíduos altamente radioactivos das centrais com período de semivida de 20.000-30.000 anos.

A França é o país do mundo com maior percentagem de energia elétrica produzida por via nuclear, cerca de 80%. Ao contrário dos EUA e doutros países, nunca estancou completamente o programa de construção de reactores e centrais. No entanto, também em França se verificaram muitos incidentes e acidentes que a autoridade de licenciamento e fiscalizadora, a Autorité de Sûreté Nucleaire (ASN), sempre evitou que viessem a público, mas que acabaram por ser conhecidos mais tarde por inconfidências de trabalhadores das centrais. Mas o mesmo sucedeu noutros países.

Não se entende por que razão a Ucrânia, se quer pertencer à União Europeia e se quer continuar a recorrer à energia nuclear – em vez de enveredar pelas energias renováveis, hoje muito competitivas, segundo vários estudos conduzindo a um custo do kWh inferior ao da via nuclear, sem os elevadíssimos custos e riscos da via nuclear -, porque não recorre à colaboração de um país europeu, preferindo os EUA?

Por outro lado, não se percebe que a Ucrânia queira continuar numa via que ainda há pouco tempo a sua propaganda de guerra dizia estar a fazer perigar a sua população e a de outros países europeus devido à ofensiva russa junto das suas centrais (ver o nosso texto “A Guerra na Ucrânia, a Comunicação Social e as Centrais Nucleares”). É verdade que as novas centrais só poderão entrar em serviço, no mínimo, dentro de 10-13 anos, mas não se diz que a guerra vai durar anos e que a vizinhança da Rússia será sempre um grande perigo? Claro que o governo ucraniano sabe que aquilo que disse não tinha qualquer sentido, mas quis alarmar a Europa e o mundo. Mas entrou em contradição com esta diligência junto da Westinghouse. Mas também não se pode afastar a possibilidade de nesta ou noutra guerra na Europa, algum país decida lançar um míssil efectivamente capaz de furar o contentor de betão armado de 1,30-1,50 m de espessura e provocar um desastre nuclear. Ou que grupos terroristas não acabem por ter acesso a esse equipamento militar.

Tal como quase toda a União Europeia, a Ucrânia devia enveredar pelas energias renováveis.

Um nova intensa campanha em prol do nuclear

É verdade que foi iniciada uma grande campanha defendendo a via nuclear esquecendo o longo e acidentado historial desta forma de energia, classificada  agora como “energia verde”, melhor dito “energia negra” pelos perigos que contém, já consubstanciados em acidentes em centrais nucleares que levaram à morte de muita gente e à contaminação de grandes áreas urbanas e agrícolas, para não falar daqueles casos que nunca foram noticiados, nomeadamente em trabalhadores de centrais, com relevância para aqueles que fazem a manutenção e a retirada do combustível irradiado dos reactores, apesar de todas as regras e prevenções, não esquecendo as doenças cancerígenas dos mineiros de urânio, como sucedeu na mina portuguesa de Urgeiriça.

 

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