A Guerra na Ucrânia – para lá dela — “Lendo a Linguagem Críptica da Guerra”.  Por Alastair Crooke

Seleção e tradução de Francisco Tavares

12 m de leitura

Lendo a Linguagem Críptica da Guerra

 Por Alastair Crooke

Publicado por em 18 de Julho de 2022 (original aqui)

© REUTERS/Alexander Ermochenko

 

A política de Putin de eliminar a corrupção do “capital ocidental predatório” é música para os ouvidos do Sul Global, escreve Alastair Crooke.

É claro que o conflito, para todos os efeitos, está resolvido – embora esteja longe de ter terminado. É evidente que a Rússia prevalecerá na guerra militar – e na guerra política também – o que significa que tudo o que surgir na Ucrânia após a acção militar estar completada será ditado por Moscovo nos seus termos.

Claramente, por um lado, o regime de Kiev entraria em colapso se Moscovo lhe ditasse os seus termos. E, por outro lado, toda a agenda ocidental por detrás do golpe de Estado de Maidan em 2014 também implodiria. (É por isso que uma saída que não seja uma derrota ucraniana é quase impossível).

Este momento marca assim um ponto crucial de inflexão. Uma escolha americana poderia ser acabar com o conflito – e há muitas vozes a pedir um acordo, ou um cessar-fogo, com a intenção compreensivelmente humana de acabar com o massacre inútil de jovens ucranianos enviados para “a frente” para defender posições indefensáveis, apenas para serem cinicamente mortos sem qualquer ganho militar, apenas para continuar a guerra.

Embora racional, o argumento a favor de uma via de saída passa ao lado do ponto geopolítico mais importante: O Ocidente está tão fortemente investido na sua narrativa fantasista do iminente colapso e humilhação russa que se encontra “atolado rapidamente”. Não pode avançar por receio de que a NATO possa não estar à altura da tarefa de confrontar as forças russas (Putin fez notar que a Rússia nem sequer tinha começado a utilizar toda a sua força). E no entanto, fazer um acordo, recuar, seria perder a face.

E ‘perder a face’ traduz-se, grosso modo, para o Ocidente liberal em derrota.

O Ocidente fez-se assim refém do seu triunfalismo desenfreado, fazendo-se passar por info-guerra. Escolheu este chauvinismo desenfreado. No entanto, os conselheiros de Biden, lendo a linguagem críptica da guerra – dos implacáveis ganhos russos – começaram a sentir o cheiro de outro desastre de política externa que se aproxima deles rapidamente.

Eles vêem que os acontecimentos, longe de reafirmarem a “ordem baseada em regras”, antes põem a nu diante do mundo os limites do poder dos EUA – deram a frente do palco não apenas a uma Rússia ressurgente, mas a uma Rússia que transporta uma mensagem revolucionária para o resto do mundo (embora o Ocidente ainda não tenha tomado consciência deste facto).

Além disso, a aliança ocidental está a desintegrar-se à medida que o cansaço da guerra se instala e que as economias europeias olham para a recessão. A tendência instintiva contemporânea de decidir primeiro e pensar depois (sanções europeias), levou a Europa a uma crise existencial.

O Reino Unido exemplifica o enigma europeu mais vasto: a classe política britânica, assustada e em desordem, primeiro “decidiu” apunhalar o seu “líder”, só para se aperceber depois que não tinha sucessor com dignidade suficiente para gerir o novo normal, e nenhuma ideia de como escapar à armadilha em que está enredada.

Eles não ousam perder a face sobre a Ucrânia e não têm nenhuma solução que responda à recessão que se avizinha (excepto um regresso ao Thatcherismo?). E o mesmo se pode dizer da classe política europeia: eles são como veados apanhados pelos faróis de um veículo rápido que se aproxima.

Biden e uma certa rede que abrange Washington, Londres, Bruxelas, Varsóvia e os Bálticos vêem a Rússia de uma altura de 30.000 pés acima da do conflito da Ucrânia. Biden acredita estar numa posição equidistante entre duas tendências perigosas e sinistras que envolvem os EUA e o Ocidente: Trumpismo em casa e Putinismo no estrangeiro. Ambos, pensa ele, apresentam perigos claros e actuais para a ordem liberal baseada em regras em que (Equipa) Biden acredita apaixonadamente.

Outras vozes – principalmente do campo Realista dos EUA – não estão tão obsessionadas com a Rússia; para elas, os “homens de verdade” enfrentam a China. Estes querem apenas manter o conflito na Ucrânia num impasse para salvar a face, se possível (mais armas), enquanto o pivot para a China é activado.

Num discurso no Instituto Hudson, Mike Pompeo (ex-secretário de Estado de Trump) fez uma declaração de política externa que tinha claramente em vista o ano 2024 e o seu lugar de Vice-Presidente. A essência do discurso era sobre a China, mas o que ele disse sobre a Ucrânia foi interessante: A importância de Zelensky para os EUA dependia de que mantivesse a guerra (ou seja, salvar a face ocidental). Ele não se referiu explicitamente a “botas no terreno”, mas era evidente que não defendia tal passo.

A sua mensagem era: armas, armas, armas para a Ucrânia, e “seguir em frente” – direcionando para a China AGORA. Pompeo insistiu que os EUA reconhecem hoje diplomaticamente Taiwan, independentemente do que ocorra. (isto é, independentemente de esta acção desencadear ou não uma guerra com a China). E enfiou a Rússia na equação dizendo simplesmente que a Rússia e a China deveriam ser efectivamente tratadas como uma só.

Biden, contudo, parece decidido a deixar passar o momento, e a continuar com a actual trajectória. Isto é também o que os muitos participantes nesta desgraçao querem. A questão é que as opiniões do Estado Profundo são conflituosas, e os banqueiros influentes de Wall Street certamente não são favoráveis às ideias de Pompeo. Eles preferem a desescalada com a China. Por conseguinte, continuar em frente é a opção mais fácil, uma vez que a atenção interna dos EUA se centra nos males económicos.

A questão aqui é que o Ocidente está completamente encalhado: Não pode avançar, nem recuar. As suas estruturas de política e de economia impedem-no. Biden está preso à Ucrânia; a Europa está presa à Ucrânia e à sua beligerância em relação a Putin; idem para o Reino Unido; e o Ocidente está preso às suas relações com a Rússia e a China. Mais importante ainda, nenhum deles pode responder às insistentes exigências da Rússia e da China para uma reestruturação da arquitectura de segurança global.

Se não conseguirem avançar neste plano de segurança – por medo de perder a face – não poderão assimilar (ou ouvir – dado o cinismo enraizado que acompanha quaisquer palavras proferidas pelo Presidente Putin) que a agenda da Rússia vai muito além da arquitectura de segurança.

Por exemplo, o diplomata e comentador indiano veterano, MK Badrakhumar escreve:

“Depois de Sakhalin-2, [numa ilha no Extremo Oriente russo] Moscovo planeia também nacionalizar o projecto de desenvolvimento de petróleo e gás de Sakhalin-1, expulsando os accionistas americanos e japoneses. A capacidade do Sakhalin-1 é bastante impressionante. Houve um tempo antes de a OPEP+ estabelecer limites aos níveis de produção, quando a Rússia extraiu até 400.000 barris por dia, mas o nível de produção recente foi de cerca de 220.000 barris por dia.

A tendência geral de nacionalização das participações de capitais americanos, britânicos, japoneses e europeus nos sectores estratégicos da economia russa está a cristalizar-se como a nova política. Espera-se que a limpeza da economia russa, libertada do capital ocidental, se acelere no período que se avizinha.

Moscovo estava bem ciente do carácter predatório do capital ocidental no sector petrolífero russo – um legado da era Boris Ieltsin – mas teve de viver com a exploração, pois não queria antagonizar outros potenciais investidores ocidentais. Mas isso agora é história. O azedar das relações com o Ocidente até quase ao ponto de ruptura livra Moscovo de tais inibições arcaicas.

Depois de chegar ao poder em 1999, o Presidente Vladimir Putin iniciou a gigantesca tarefa de limpeza da corrupção da colaboração estrangeira da Rússia no sector petrolífero. O processo de “descolonização” foi terrivelmente difícil, mas Putin conseguiu levá-lo a bom termo”.

No entanto, isso é apenas a metade. Putin continua a dizer em discursos que o Ocidente é o autor da sua própria dívida e crise inflacionária (e não a Rússia), o que dá origem a muito coçar de cabeça no Ocidente. No entanto, deixemos que o Professor Hudson explique por que razão grande parte do resto do mundo considera que o Ocidente tomou um “rumo errado” em matéria económica. Em resumo, segundo Putin, a viragem errada do Ocidente levou-o a um “beco sem saída”.

O Professor Hudson argumenta [n.t. publicado ontem em A Viagem dos Argonautas] (parafraseado e reformulado) que existem essencialmente dois amplos modelos económicos que atravessaram a história: “Por um lado, vemos sociedades do Próximo Oriente e asiáticas organizadas para manter o equilíbrio social e a coesão, mantendo as relações de endividamento e a riqueza mercantil subordinadas ao bem-estar geral da comunidade como um todo”.

Todas as sociedades antigas tinham uma desconfiança em relação à riqueza, porque esta tendia a ser acumulada à custa da sociedade em geral – e levava à polarização social e a grandes desigualdades de riqueza. Examinando a história antiga, podemos ver (diz Hudson) que o principal objectivo dos governantes da Babilónia para o Sul da Ásia e Leste Asiático era evitar que uma oligarquia mercantil e credora surgisse e concentrasse a propriedade da terra nas suas próprias mãos. Este é um modelo histórico.

O grande problema que a Idade do Bronze no Próximo Oriente resolveu – mas a antiguidade clássica e a civilização ocidental não resolveram – foi como lidar com as crescentes dívidas (jubileus periódicos da dívida) sem polarizar a sociedade e, em última análise, empobrecer a economia, reduzindo a maior parte da população à dependência da dívida.

Um dos princípios fundamentais de Hudson é como a China está estruturada como uma economia de “baixo custo”: habitação barata, educação subsidiada, cuidados médicos e transportes – significa que os consumidores têm algum rendimento disponível livre – e a China como um todo, torna-se competitiva. No entanto, o modelo do Ocidente, liderado pela dívida financeira, é de custo elevado, com faixas da população cada vez mais empobrecidas e privadas de rendimento discricionário após o pagamento dos custos do serviço da dívida.

A periferia ocidental, porém, sem a tradição do Próximo Oriente, “virou-se” para permitir a uma oligarquia credora rica tomar o poder e concentrar a posse de terras e propriedades nas suas próprias mãos. Para fins de relações públicas, alegou ser uma “democracia”, e denunciou qualquer regulamentação governamental protectora como sendo, por definição, uma “autocracia”. Este é o segundo grande modelo, mas com o seu sobreendividamento e agora numa espiral inflacionista, também ela está presa, sem meios para avançar.

Este último modelo é o que ocorreu em Roma. E continuamos a viver no rescaldo. Tornar os devedores dependentes de credores ricos é o que os economistas de hoje chamam um “mercado livre”. É um mercado sem controlos e equilíbrios públicos contra a desigualdade, fraude ou privatização do domínio público.

Esta ética neoliberal pró-credor, afirma o Professor Hudson, está na origem da Nova Guerra Fria de hoje. Quando o Presidente Biden descreve este grande conflito mundial destinado a isolar a China, Rússia, Índia, Irão e os seus parceiros comerciais eurasiáticos, ele caracteriza isto como uma luta existencial entre “democracia” e “autocracia”.

Por democracia, ele significa “oligarquia”. E por “autocracia” significa qualquer governo suficientemente forte para impedir uma oligarquia financeira de assumir o governo e a sociedade e impor regras neoliberais – pela força – como Putin fez. O ideal “democrático” é fazer o resto do mundo parecer a Rússia de Boris Ieltsin, onde os neoliberais americanos tinham a liberdade de retirar toda a propriedade pública de terras, direitos minerais e serviços públicos básicos.

Mas hoje lidamos com tons cinzentos – não existe um mercado verdadeiramente livre nos EUA; e a China e a Rússia são economias mistas, embora se inclinem a dar prioridade à responsabilidade pelo bem-estar da comunidade como um todo, em vez de imaginar que os indivíduos deixados aos seus próprios dispositivos egoístas resultarão, de alguma forma, na maximização do bem-estar nacional.

É este o ponto: A economia de Adam Smith e o individualismo estão enraizados no espírito ocidental. Não irá mudar. Contudo, a nova política do Presidente Putin de eliminar a corrupção do “capital ocidental predatório” e o exemplo dado pela Rússia da sua metamorfose rumo a uma economia amplamente auto-sustentada, imune à hegemonia do dólar, é música para os ouvidos do Sul Global e de grande parte do Resto do Mundo.

Em conjunto com a liderança da Rússia e da China em desafiar o “direito” do Ocidente a estabelecer regras; a monopolizar os meios (o dólar) como base para o estabelecimento do comércio interestatal; e com os BRICS e a Shangai Cooperation Organization a progredirem constantemente, os discursos de Putin revelam a sua agenda revolucionária.

Resta um aspecto: Como provocar uma metamorfose “revolucionária”, sem incorrer em guerra com o Ocidente. Os Estados Unidos e a Europa estão presos. São incapazes de se renovarem, uma vez que as contradições estruturais políticas e económicas bloquearam o seu paradigma. Como então ‘desanuviar’ a situação, sem guerra?

A chave, paradoxalmente, pode estar na profunda compreensão que a Rússia e a China têm sobre as falhas do modelo económico ocidental. O Ocidente precisa de uma catarse para “se desatolar”. A catarse pode ser definida como o processo de se libertar, e assim proporcionar alívio de emoções fortes ou reprimidas, ligadas a crenças.

Para evitar a catarse militar, parece que os dirigentes russos e chineses – compreendendo as falhas do modelo económico ocidental – devem então submeter o Ocidente a uma catarse económica.

Será doloroso, sem dúvida, mas melhor do que uma catarse nuclear. Podemos recordar o final do poema de CV Cafavy, “À espera dos bárbaros”,

Porque a noite caiu e os bárbaros não vieram.

E alguns dos nossos homens que acabam de chegar da fronteira dizem

já não há bárbaros.

Agora o que nos vai acontecer sem bárbaros?

Essas pessoas eram uma espécie de solução.

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O autor: Alastair Crooke [1949-] Ex-diplomata britânico, fundador e diretor do Fórum de Conflitos, uma organização que advoga o compromisso entre o Islão político e o Ocidente. Anteriormente, era uma figura de destaque tanto na inteligência britânica (MI6) como na diplomacia da União Europeia. Era espião do Governo britânico, mas reformou-se pouco depois de se casar. Crooke foi conselheiro para o Médio Oriente de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia (PESC) de 1997 a 2003, facilitou uma série de desescaladas da violência e de retiradas militares nos Territórios Palestinianos com movimentos islamistas de 2000 a 2003 e esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade em Belém. Foi membro do Comité Mitchell para as causas da Segunda Intifada em 2000. Realizou reuniões clandestinas com a liderança do Hamas em Junho de 2002. É um defensor activo do envolvimento com o Hamas, ao qual se referiu como “Resistentes ou Combatentes da Resistência”. É autor do livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution. Tem um Master of Arts em Política e Economia pela Universidade de St. Andrews (Escócia).

 

 

 

 

 

 

 

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