A Guerra na Ucrânia — “Europa do Leste e Rússia – Esquecemos o desastre económico que criámos” (2/4). Por Heiner Flassbeck e  Friederike Spiecker

Seleção e tradução de Francisco Tavares

12 m de leitura

Europa do Leste e Rússia – Esquecemos o desastre económico que criámos – Parte 2

Por Heiner Flassbeck e  Friederike Spiecker

Publicado por em 7 de Março de 2022 (original aqui)

 

Observações preliminares sobre a importância da análise macroeconómica

Tem havido muitos comentários sobre a primeira parte desta série. Entre eles estava a questão recorrente da razão pela qual a palavra “corrupção” nem sequer aparece numa tal análise, quando “sabemos” que estes países não conseguem arrancar porque são profundamente “corruptos”. Mesmo para além da corrupção, muitas pessoas acreditam que os países ainda em transformação de economia planificada para economia de mercado simplesmente não têm os pré-requisitos institucionais para se desenvolverem de forma dinâmica. Por conseguinte, uma análise puramente macroeconómica simplesmente não tem significado.

Trata-se de um mal-entendido fundamental sobre a importância relativa da análise macroeconómica em relação à análise institucional ou, como é chamada na Alemanha, análise reguladora ou Ordnungspolitik [governação económica]. Os países com condições institucionais fracas também podem ser economicamente bem sucedidos se conseguirem estabelecer os outros parâmetros, nomeadamente os parâmetros macroeconómicos, de tal forma que as condições institucionais fracas sejam anuladas.

Dito de forma mecânica e simples: se um país com um crescimento e produtividade potencialmente fracos conseguir oferecer condições monetárias favoráveis aos investidores nacionais (ou seja, taxas de juro favoráveis e taxas de câmbio reais favoráveis), ainda pode estimular o investimento e criar empregos suficientes. Por outro lado, um país (o Brasil é o exemplo clássico) que tem um grande potencial de crescimento mas não consegue controlar a inflação e, portanto, tem taxas de juro permanentemente exorbitantemente elevadas e cuja moeda continua a apreciar em termos reais não pode utilizar o seu potencial.

A corrupção em milhares de formas diferentes existe em todos os países do mundo (incluindo a Alemanha, a propósito) – embora em graus variáveis. Ninguém pode sequer começar a quantificar o significado que a “corrupção” tem no desenvolvimento económico. Mas embora sempre tenha havido corrupção de uma forma ou de outra, muitos países foram absolutamente bem sucedidos no passado, quando confrontados com condições macroeconómicas favoráveis. Um colega italiano disse uma vez: no meu país, há provas de que a corrupção existe há 2.000 anos, mas é apenas nos últimos vinte anos que o desenvolvimento económico tem sido muito pior do que em países europeus comparáveis. Isto não se deve obviamente à corrupção, porque não se alterou.

Também se pode dizer o contrário: Se já os países ocidentais com as suas (por definição!) condições institucionais perfeitas precisam de um nível de taxas de juro extremamente baixo ou de uma verdadeira desvalorização para se desenvolverem dinamicamente, então um país em desenvolvimento ou um país em transição não deve, em circunstância alguma, ter piores condições macroeconómicas para ser bem sucedido. Se tem condições macroeconómicas muito piores, é exactamente aqui que a política económica deve começar, porque o país com as suas más condições institucionais nunca poderá ser bem sucedido com condições macroeconómicas piores do que as prevalecentes nos países ocidentais.

 

Os motivos do declínio económico

Este é precisamente o ponto aqui. Não pretendemos ser peritos sobre as condições institucionais ou políticas na Ucrânia ou na Rússia. Mas se compararmos as condições macroeconómicas para um desenvolvimento bem sucedido nestes países com as condições macroeconómicas dos países ocidentais e verificarmos que elas foram e são muito piores nos países da Europa Oriental e na Rússia do que no Ocidente, então podemos deixar de pensar na corrupção ou noutros défices institucionais. Depois há que assegurar primeiro que as condições macroeconómicas para um desenvolvimento bem sucedido estão criadas. Isto não exclui de forma alguma a abordagem das questões e problemas institucionais e a sua aproximação a uma solução. Contudo, este último é um esforço que nunca conduzirá ao sucesso enquanto a constelação macroeconómica global não for favorável ao desenvolvimento.

A seguir, apresentamos primeiro o nível das taxas de juro, a taxa de inflação e o crescimento real para os EUA, a UEM, a Rússia, a Ucrânia e para a China. A figura 1 mostra que nos EUA a taxa de juro de curto prazo aumentou significativamente pouco antes da profunda recessão de 2008/2009, mas permaneceu muito perto de zero durante vários anos após 2009. O crescimento real (PIB real) foi muito estável de 2010 a 2019 e a inflação também foi baixa e flutuou pouco.

 

Figura 1 – Condições monetárias e crescimento real nos EUA

(1) Taxa interbancária à vista. (2) Taxa de variação anual do PIB real. (3) Taxa de variação anual dos preços no consumo. Fonte: OCDE. FMI

 

Na Europa, mais precisamente na UEM, os mesmos dez anos foram um pouco menos estáveis porque a política monetária foi menos consistente após 2009 e houve a crise do euro (que estava principalmente relacionada com as taxas de câmbio reais): após a profunda recessão devido à crise financeira de 2008/2009, a crise do euro levou a outra recessão em muitos países europeus devido a políticas económicas erradas sob a forma de contenção orçamental (Figura 2). Mesmo depois disso, a Europa estava muito menos disposta do que os EUA a utilizar uma política orçamental expansionista para apoiar a recuperação e reduzir significativamente o desemprego.

 

Figura 2 – Condições monetárias e crescimento real na UEM

(1) Taxa interbancária à vista. (2) Taxa de variação anual do PIB real. (3) Taxa de variação anual dos preços no consumo. — Fonte: OCDE. FMI

 

Os quinze anos em questão foram completamente diferentes na Rússia (Figura 3 – com uma escala alterada!). O desempenho real foi consistentemente fraco após a crise financeira de 2008/2009, que atingiu a Rússia de forma extremamente dura, com o PIB a cair quase 8% em 2009. A inflação foi elevada e muito volátil. As taxas de juro seguiram em grande medida a taxa de inflação, o que poderia dar a impressão de que as taxas de juro reais não eram de todo muito elevadas. Mas com uma taxa de inflação volátil, não é fácil ou mesmo impossível para potenciais investidores prever qual será a taxa de inflação dentro de dez anos. Assim, mesmo uma taxa de juro que em retrospectiva pode ser baixa em termos reais, ou seja, após dedução da inflação, pode ter sido demasiado elevada para o investidor com antecedência. Isto porque um investidor não pode esperar firmemente que a taxa de inflação e, portanto, as suas próprias possibilidades de aumento de preços se mantenham tão elevadas durante o prazo do empréstimo como estavam quando o contrato de empréstimo foi celebrado.

Figura 3 – Condições monetárias e crescimento real na Rússia

(1) Taxa interbancária à vista. (2) Taxa de variação anual do PIB real. (3) Taxa de variação anual dos preços no consumo. __ Fonte: OCDE. FMI

 

A situação é ainda pior na Ucrânia (Figura 4, mais uma vez escala modificada!). Aqui, o desenvolvimento real é ainda mais fraco do que na Rússia, e as condições monetárias são simplesmente proibitivas para o crescimento e o desenvolvimento. Mesmo antes da crise de 2008/2009, quando o PIB da Ucrânia caiu mais de 15 por cento, a inflação atingiu mais de 20 por cento. Durante a turbulência de 2014/2015, o PIB caiu novamente quase dez por cento e a inflação subiu para quase 50 por cento, resultando em taxas de juro recorde que permaneceram muito elevadas até 2019.

Além disso, como discutiremos mais detalhadamente na próxima parte, as relações monetárias flutuaram muito fortemente e houve repetidas reavaliações injustificadas da hryvnia. Com uma tal constelação de dados macroeconómicos importantes, de nada serve transferir alguns milhares de milhões para este país ou simplesmente confiar o país ao FMI. O FMI não conseguiu praticamente em parte alguma do mundo evitar tais constelações e encontrar soluções estáveis de trabalho porque simplesmente se baseia em conceitos errados.

Figura 4 – Condições monetárias e crescimento real na Ucrânia

(1) Taxa diretora do Banco Nacional da Ucrânia. (2) Taxa de variação anual do PIB real. (3) Taxa de variação anual dos preços no consumo. __ Fonte: OCDE, FMI, Banco Nacional da Ucrânia, Serviço Estatal de Estatísticas da Ucrânia.

 

Para ilustrar o aspecto de uma boa constelação macroeconómica – obviamente sem o FMI alguma vez estar envolvido – compilámos os mesmos dados para a China (Figura 5). Aqui, a inflação e as taxas de juro são impressionantemente estáveis e baixas, criando excelentes condições para o investimento. A China estava também bem protegida externamente através de uma taxa de câmbio muito estável que foi certamente significativamente subvalorizada no início da abertura em 1993. A China é um dos poucos países do mundo que não seguiu servilmente as recomendações ocidentais à moda de Consenso de Washington em termos de gestão macroeconómica, tendo-se saído extremamente bem com isso.

Figura 5 – Condições monetárias e crescimento real na China

(1) Taxa diretora do banco central. (2) Taxa de variação anual do PIB real. (3) Taxa de variação anual dos preços no consumo. __ Fonte: OCDE, FMI, BIZ

 

Se tivermos em conta a frequência com que as empresas alemãs se queixam de estruturas corruptas na China e a fraca pontuação deste país no Índice de Corrupção (IPC) da Transparency International – sobre o qual se pode ter uma opinião mais ou menos favorável – torna-se claro o que explicámos no início: As constelações macroeconómicas favoráveis ao investimento na esfera monetária estimulam o desenvolvimento económico, mesmo que as estruturas institucionais deixem muito a desejar. E vice-versa: mesmo com melhores condições em termos de corrupção – a Geórgia, por exemplo, para citar apenas um exemplo, tem tido claramente melhores resultados do que a China durante anos – um desenvolvimento próspero a longo prazo é praticamente impossível sem boas condições monetárias.

Leia na terceira parte porque é que um sistema monetário funcional é indispensável.

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Os autores

Heiner Flassbeck [1950 – ], economista alemão (1976 pela Universidade de Saarland), foi assistente do Professor Wolfgang Stützel em questões monetárias. Doutorado em Economia pela Universidade Livre de Berlim em julho de 1987, tendo por tese Prices, Interest and Currency Rate. On Theory of Open Economy at flexible Exchange Rates (Preise, Zins und Wechselkurs. Zur Theorie der offenen Volkswirtschaft bei flexiblen Wechselkursen). Em 2005 foi nomeado professor honorário na Universidade de Hamburgo.

A sua carreira profissional teve início no Conselho Alemão de Peritos Económicos, em Wiesbaden, entre 1976 e 1980; esteve no Ministério Federal de Economia em Bona até janeiro de 1986; entre 1988 e 1998 esteve no Instituto Alemão de Investigação Económica (DIW) em Berlim, onde trabalhou sobre mercado de trabalho e análise de ciclo de negócio e conceitos de política económica, tendo sido chefe de departamento.

Foi secretário de estado (vice-ministro) do Ministério Federal de Finanças de outubro de 1998 a abril de 1999 sendo Ministro das Finanças Oskar Lafontaine (primeiro governo Schröeder), e era responsável pelos assuntos internacionais, a UE e o FMI.

Trabalhou na UNCTAD- Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento desde 2000, onde foi Diretor da Divisão de Globalização e Estratégias de Desenvolvimento de 2003 a dezembro de 2012. Coordenador principal da equipa que preparou o relatório da UNCTAD sobre Comércio e Desenvolvimento. Desde janeiro de 2013 é Diretor de Flassbeck-Economics, uma consultora de assuntos de macroeconomia mundial (www.flassbeck-economics.com). Colaborador de Makroskop.

Autor de numerosas obras e publicações, é co-autor do manifesto mundial sobre política económica ACT NOW! publicado em 2013 na Alemanha, e são conhecidas as suas posições sobre a crise da eurozona e as suas avaliações críticas sobre as políticas prosseguidas pela UE/Troika, nomeadamente defendendo que o fraco crescimento e o desemprego massivo não são resultado do progresso tecnológico, da globalização ou de elevados salários, mas sim da falta de uma política dirigida à procura (vd. The End of Mass Unemployment, 2007, em co-autoria com Frederike Spiecker).

Friederike Spiecker é licenciada em economia e estudou economia na Universidade de Konstanz de 1986 a 1991. Trabalhou no departamento económico do Instituto Alemão de Investigação Económica em Berlim. Hoje trabalha como jornalista económica freelancer em questões de política económica nacional e internacional. Co-autora de The End of Mass Unemployment, 2007

 

 

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