Da digitalização do ensino à sua fascização- a distância é vizinha de zero — Texto 6. O pior memorando da história da América.  Por Robert Reich

 

 

Dedico esta série de textos à memória de dois amigos meus, António Mateus e Arnaud Lantoine, dois professores para mim de referência, um que trabalhou na Escola Secundária D. Dinis, e o outro foi professor na Alliance Française e tradutor- interprete de conferências, ambos vítimas de doença prolongada. Dois professores que no seu campo de trabalho se bateram pela dignificação do ensino. Bem hajam, é o que posso dizer, em forma de definitiva despedida.

A série é constituída por um texto de Introdução e seis textos. Hoje publicamos o último texto desta série, O pior memorando da história da América, de Robert Reich, onde este autor apresenta um documento de 1971 de Lewis Powell e sobre o qual afirma que “nunca na história da política americana houve um documento (…) que tivesse consequências tão nefastas.

 

JM

 


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

30 m de leitura

 

Texto 6. O pior memorando da história da América

Sobre um texto assinado por Lewis Powell

 

 Por Robert Reich

Publicado em 11 de Agosto de 2022 (original aqui)

 

O Senador Joe Manchin tem sido o maior beneficiário do Congresso de empresas de gasodutos de gás natural. Ele apenas retribuiu ganhando apoio do Senado para o gasoduto de Mountain Valley, na Virgínia Ocidental, e agilizou a aprovação dos gasodutos a nível nacional. A Senadora Krysten Sinema está entre as maiores recetoras de dinheiro do Congresso da indústria de capital privado. Ela apenas retribuiu, preservando a lacuna fiscal do capital privado na Lei de Redução da Inflação.

Quase que tomamos por garantido o dinheiro das grandes empresas na política americana. Mas tudo começou com o memorando de Powell.

Em 1971, a Câmara de Comércio dos EUA pediu a Lewis Powell, então advogado em Richmond, Virginia (e futuro juiz do Supremo Tribunal), para apresentar um relatório sobre as atividades políticas da esquerda.

Richard Nixon ainda era presidente, mas a Câmara (juntamente com alguns republicanos proeminentes como Powell) preocupava-se com os efeitos da Esquerda sobre a “livre iniciativa”. O memorando de Powell – amplamente distribuído aos membros da Câmara – argumentava que o sistema económico americano estava “sob um amplo ataque” de grupos de consumidores, trabalhadores e ambientalistas. Na realidade, estes grupos nada mais faziam do que fazer cumprir o contrato social implícito que tinha surgido no final da Segunda Guerra Mundial – procurando assegurar que as empresas tivessem em conta nas suas decisões a vontade de todas as suas partes interessadas, não só os seus acionistas mas também os seus trabalhadores, os seus consumidores, e o ambiente do qual todos dependem.

Mas Powell e a Câmara viam isso de modo diferente. Powell apelou ao mundo empresarial para que se mobilizasse para o combate político.

Os negócios devem aprender a lição… que o poder político é necessário; que tal poder deve ser cultivado assiduamente; e que quando necessário, deve ser usado agressivamente e com determinação – sem embaraço e sem a relutância que tem sido tão característica do mundo americano dos negócios.

Salientou que os ingredientes críticos para o sucesso eram a organização e o financiamento.

A força reside … na escala do financiamento disponível apenas através de esforço conjunto e no poder político disponível apenas através de ação unida e das organizações nacionais.

A 23 de Agosto de 1971, a Câmara distribuiu o memorando de Powell aos principais diretores executivos, grandes empresas e associações comerciais. Teve exatamente o impacto que a Câmara procurava – galvanizar as empresas americanas para a ação e libertar uma onda gigantesca de dinheiro das empresas para a política americana. Nasceu toda uma indústria político-empresarial – incluindo dezenas de milhares de lobistas empresariais, advogados, agentes políticos e artilharia de relações públicas. Dentro de algumas décadas, as grandes empresas tornar-se-iam a maior força política em Washington e na maioria das capitais estaduais.

Washington deixou de ser uma cidade bastante sonolenta, se não mesmo um pouco sórdida para se tornar o centro cintilante da América empresarial – repleta de elegantes edifícios de escritórios, restaurantes chiques, bares de preços elevados, hotéis cinco estrelas, centros de conferências, lindas casas em banda, e um mercado imobiliário em expansão que empurrou os pobres de Washington para as margens do distrito e tornou dois dos condados vizinhos de Washington entre os mais ricos da nação.

Eu vi-o e vivi-o. Em 1976, comecei a trabalhar na Comissão Federal de Comércio. Jimmy Carter tinha nomeado defensores dos consumidores para algumas posições reguladoras (vários deles influenciados por Ralph Nader). O meu chefe na FTC era Michael Pertschuk, um presidente enérgico e carismático. Joan Claybrook presidia à Comissão Nacional de Segurança Rodoviária. Outros adeptos de Ralph Nader estavam espalhados por toda a administração Carter. Todos estavam prontos para combater as grandes empresas que durante anos tinham vindo a iludir ou a prejudicar os consumidores.

No entanto, quase tudo o que iniciámos na FTC, e quase tudo o que foi empreendido por estes ativistas noutras partes da administração, deparou-se com uma resistência política inesperadamente feroz por parte do Congresso. A certa altura, quando a FTC começou a examinar a publicidade dirigida às crianças, o Congresso deixou de financiar completamente a FTC, encerrando-a durante semanas. Fiquei estupefacto. O que é que tinha acontecido?

Em duas palavras, o memorando Powell.

O número de empresas com escritórios de negócios públicos em Washington tinha passado de cem em 1968 para mais de quinhentas na altura em que entrei para a FTC em 1976. Em 1971, apenas 175 empresas tinham registado lobistas na capital do país. Em 1982, eram cerca de 2.500 a tê-los. O número de Comités de Ação Política Empresarial aumentou de menos de trezentas em 1976 para mais de 1.200 em 1980. Entre 1974 e 1980, a Câmara de Comércio duplicou a sua composição. (E lembrem-se, isto foi ainda trinta anos antes da infame decisão Cidadãos Unidos do Supremo Tribunal).

Não importava se um democrata ou republicano ocupava a Casa Branca. Mesmo depois de George H.W. Bush se ter tornado presidente, a indústria político-empresarial continuou a disparar.

Nos anos 90, quando eu era secretário do Trabalho, as empresas empregavam cerca de 61.000 pessoas para fazer lobby para elas, incluindo lobistas e advogados registados. Isso chegou a mais de 100 lobistas por cada membro do Congresso. O dinheiro das empresas também apoiou batalhões de advogados que representavam empresas e os muito ricos nos tribunais, muitas vezes ultrapassando o Departamento de Justiça e os procuradores-gerais do Estado.

Mais importante ainda, as empresas começaram a inundar os políticos com dinheiro para as suas campanhas. Entre o final dos anos 70 e o final dos anos 80, os Comités de Ação Política (PAC) das empresas aumentaram as suas despesas em corridas para o Congresso quase cinco vezes.

As despesas com os PAC dos sindicatos aumentaram apenas cerca de metade desse ritmo. No ciclo de campanha de 2106, as empresas e Wall Street contribuíram com 34 dólares por cada dólar doado pelos sindicatos e por todas as organizações de interesse público em conjunto.

As pessoas ricas também foram responsáveis por uma parte crescente desta evolução. Em 1980, a centésima parte mais rica do 1% dos americanos mais ricos forneceram 10% das contribuições para as eleições federais. Por volta de 2012, forneceram 40 por cento.

Embora os republicanos tenham beneficiado na sua maioria de alguns grandes doadores e os democratas de um número muito maior de pequenos doadores (falaremos um pouco mais sobre este assunto), ambos os partidos políticos transformaram-se de organizações estaduais e locais que canalizavam as opiniões dos seus membros para cima em gigantescas máquinas de angariação de fundos que sugavam dinheiro desde o topo.

Nunca na história da política americana houve um documento – o memorando de Powell – que tivesse consequências tão nefastas.

Para aqueles que gostariam de o ler – e recomendo fazê-lo, para se ter uma noção completa do seu alcance – incluí-o aqui na íntegra.

***

 

O autor: Robert Reich, antigo Secretário de Trabalho dos Estados Unidos [com Bill Clinton], é professor de Políticas Públicas na Universidade da Califórnia, em Berkeley e autor de Saving Capitalism: For the Many, Not the Few e de The Common Good. O seu mais recente livro é The System: Who Rigged It, How We Fix It. É colunista no The Guardian e a sua newsletter é robertreich.substack.com

 


 

MEMORANDO CONFIDENCIAL

Ataque ao Sistema Americano de Livre Empresa

DATA: 23 de Agosto de 1971

Para: Eugene B. Sydnor, Jr., Presidente do Comité de Educação da Câmara de Comércio dos EUA

De: Lewis F. Powell, Jr.

 

Este memorando é apresentado a seu pedido como base para a discussão a 24 de Agosto com o Sr. Booth (vice-presidente executivo) e outros na Câmara de Comércio dos EUA. O objetivo é identificar o problema, e sugerir possíveis vias de ação para consideração posterior.

 

Dimensões do Ataque

Nenhuma pessoa atenta pode deixar de considerar que o sistema económico americano está sob um ataque generalizado. Isto varia no âmbito, intensidade, nas técnicas utilizadas e no nível de visibilidade.

Sempre houve quem se opusesse ao sistema americano, e preferisse o socialismo ou alguma forma de estatismo (comunismo ou fascismo). Além disso, sempre houve críticos do sistema, cujas críticas têm sido saudáveis e construtivas desde que o objetivo seja melhorar e não subverter ou destruir o sistema.

Mas o que agora nos preocupa é bastante novo na história da América. Não estamos a lidar com ataques esporádicos ou isolados de relativamente poucos extremistas ou mesmo do quadro socialista minoritário. Pelo contrário, o ataque ao sistema empresarial é amplamente difundido e de forma sustentada e consistente. Está a ganhar ímpeto e convertidos às suas ideias.

 

Fontes do Ataque

As fontes são variadas e difusas. Incluem, não inesperadamente, os Comunistas, Novos Esquerdistas e outros revolucionários que querem destruir todo o sistema, tanto político como económico. Estes extremistas da esquerda são muito mais numerosos, mais bem financiados, e cada vez mais são mais bem recebidos e encorajados que nunca na nossa história por outros elementos da sociedade. Mas continuam a ser uma pequena minoria, e ainda não são o principal motivo de preocupação.

As vozes mais inquietantes que se juntam ao coro da crítica vêm de elementos perfeitamente respeitáveis da sociedade: dos campus universitários, dos púlpitos, dos meios de comunicação social, das revistas intelectuais e literárias, das artes e ciências, e dos políticos. Na maioria destes grupos, o movimento contra o sistema é participado apenas por minorias. No entanto, estes são frequentemente os mais articulados, os mais ouvidos, os mais prolíficos em termos de textos ou de discursos.

Além disso, grande parte dos meios de comunicação – por motivos variados e em graus variados – ou concede voluntariamente publicidade única a estes “atacantes”, ou pelo menos permite-lhes explorar os meios de comunicação para os seus propósitos. Isto é especialmente verdade no caso da televisão, que desempenha agora um papel tão predominante na formação do pensamento, atitudes e emoções do nosso povo.

Um dos paradoxos desconcertantes do nosso tempo é a medida em que o sistema empresarial tolera, se é que não participa mesmo, na sua própria destruição.

Os campus de onde emanam muitas das críticas são apoiados por (i) fundos fiscais gerados em grande parte por empresas americanas, e (ii) contribuições de fundos de capital controlados ou gerados por empresas americanas. Os conselhos de administração das nossas universidades são esmagadoramente compostos por homens e mulheres que são líderes no sistema.

A maioria dos meios de comunicação social, incluindo os sistemas nacionais de televisão, são propriedade e teoricamente controlados por empresas que dependem dos lucros, e do sistema empresarial para sobreviver.

 

Tom do Ataque

Este memorando não é o local para documentar em detalhe o tom, carácter, ou intensidade do ataque. As citações seguintes serão suficientes para se ter uma ideia geral:

William Kunstler, calorosamente recebido nos campus e considerado numa recente sondagem estudantil como o “advogado americano mais admirado”, incita o público da seguinte forma:

É preciso aprender a lutar nas ruas, a revoltar-se, a disparar armas. Aprenderemos a fazer todas as coisas que os donos de propriedades temem“. Os Novos Esquerdistas que prestam atenção aos conselhos de Kunstler começam cada vez mais a agir – não só contra escritórios de recrutamento militar e fabricantes de armas, mas também contra uma variedade de atividades empresariais: “Desde Fevereiro de 1970, agências (do Bank of America) foram atacadas 39 vezes, 22 vezes com engenhos explosivos e 17 vezes com bombas de fogo ou por incendiários“. Embora os porta-vozes da Nova Esquerda estejam a conseguir radicalizar milhares de jovens, o maior motivo de preocupação é a hostilidade de respeitáveis liberais e reformadores sociais. É a soma total dos seus pontos de vista e influência que pode de facto enfraquecer ou destruir fatalmente o sistema.

Uma descrição arrepiante do que está a ser ensinado em muitas das nossas universidades foi escrita por Stewart Alsop:

“Yale, como qualquer outra grande faculdade, está a formar dezenas de jovens brilhantes que são praticantes da ‘política do desespero’. Estes jovens desprezam o sistema político e económico americano… (as suas) mentes parecem estar totalmente fechadas. Vivem, não por discussões racionais, mas por slogans insensatos”. Uma sondagem recente de estudantes em 12 campus representativos relatou que: “Quase metade dos estudantes defendem a socialização das indústrias básicas dos EUA”.

Um professor visitante de Inglaterra no Rockford College deu uma série de palestras intituladas “The Ideological War Against Western Society”, na qual documenta a medida em que os membros da comunidade intelectual estão a travar uma guerra ideológica contra o sistema empresarial e os valores da sociedade ocidental. Num prefácio a estas conferências, o famoso Dr. Milton Friedman de Chicago advertiu: “É absolutamente claro que as fundações da nossa sociedade livre estão sob um ataque abrangente e poderoso – não por comunistas ou qualquer outra conspiração, mas por indivíduos mal orientados que se papagueiam uns aos outros e que involuntariamente servem fins que nunca promoveriam de forma intencional”.

Talvez o antagonista mais eficaz das empresas americanas seja Ralph Nader, que – graças em grande parte aos meios de comunicação – se tornou uma lenda no seu próprio tempo e um ídolo de milhões de americanos. Um artigo recente na Fortune fala de Ralph Nader como se segue:

A paixão que reina nele – e ele é um homem apaixonado – visa esmagar totalmente o alvo do seu ódio, que é o poder empresarial. Ele pensa, e diz sem rodeios, que muitos executivos de empresas deveriam estar na prisão – por defraudarem o consumidor com mercadoria de má qualidade, degradarem a qualidade dos produtos alimentares colocados no mercado com aditivos químicos, e fabricarem intencionalmente produtos inseguros que mutilam ou matam o comprador. Ele enfatiza que não está a falar apenas de “mercenários disfarçados”, mas da gestão de topo de grandes empresas“.

Foi feito um ataque frontal ao nosso governo, ao nosso sistema de justiça, e ao sistema de livre iniciativa pelo Professor de Yale Charles Reich no seu livro amplamente divulgado: “The Greening of America”, publicado no Inverno passado.

As referências precedentes ilustram o amplo ataque, de caçadeira, ao próprio sistema. Há inúmeros exemplos de disparos de espingarda que minam a confiança e confundem a população. Os objetivos atuais favoritos são propostas de incentivos fiscais através de alterações nas taxas de amortização e créditos ao investimento. Estes são geralmente descritos nos meios de comunicação social como “incentivos fiscais”, “lacunas na lei ” ou “benefícios fiscais” para benefício das empresas. Como visto por um colunista do Post, tais medidas fiscais beneficiariam “apenas os ricos, os proprietários de grandes empresas”.

É desanimador que muitos políticos apresentem o mesmo argumento de que medidas fiscais deste tipo beneficiam apenas “as empresas”, sem qualquer benefício para “os pobres”. O facto de isto ser ou demagogia política ou analfabetismo económico é de pouco conforto. Este cenário dos “ricos” contra os “pobres”, dos negócios contra o povo, é o tipo de política mais fácil e mais perigoso.

 

A Apatia e a falência das empresas

Qual tem sido a resposta das empresas a este ataque em massa à sua economia fundamental, à sua filosofia, ao seu direito de continuar a gerir os seus próprios assuntos, e mesmo à sua integridade?

A dolorosamente triste verdade é que as atividades empresariais, incluindo os conselhos de administração e os executivos de topo das grandes e pequenas empresas e das organizações empresariais a todos os níveis, têm frequentemente respondido – se é que responderam – por apaziguamento, inépcia e ignorando o problema. Existem, evidentemente, muitas exceções a esta ampla generalização. Mas o efeito líquido dessa resposta, tal como foi dada, é pouco visível.

Com toda a justiça, deve reconhecer-se que os homens de negócios não foram treinados ou equipados para conduzir guerrilhas com aqueles que se propagandeiam contra o sistema, procurando de forma insidiosa e constante sabotá-lo. O papel tradicional dos empresários tem sido o de gerir, produzir, vender, criar empregos, obter lucros, melhorar o nível de vida, ser líderes comunitários, servir em conselhos caritativos e educacionais, e, em geral, ser bons cidadãos. Realizaram estas tarefas de facto muito bem.

Mas mostraram muito pouca coragem para enfrentarem os seus críticos, e pouca capacidade de resposta no debate intelectual e filosófico.

Um artigo recentemente publicado pelo Wall Street Journal intitulava-se: “Memo para a GM: Porque não contra-atacar? Embora dirigido à GM pelo nome, o artigo foi um aviso para todas as empresas americanas. O colunista St. John disse:

A General Motors, tal como as empresas americanas em geral, está ‘claramente em apuros’ porque as trivialidades intelectuais foram substituídas por uma exposição intelectual sólida dos seus pontos de vista“.

O Sr. St. John comentou então a tendência dos líderes empresariais para assumirem compromissos e apaziguarem os críticos. Ele citou as concessões que Ralph Nader obtém das administrações, e falou da “visão falaciosa que muitos homens de negócios têm para com os seus críticos”. Fez um paralelo com as táticas erradas de muitos administradores universitários: “Os administradores universitários aprenderam demasiado tarde que tal apaziguamento serve para destruir a liberdade de expressão, a liberdade académica e a genuína direção académica. Uma exigência radical do campus foi aceite pelos diretores de Universidade apenas para ser aplicada aos futuros novos estudantes mas que rapidamente se intensificou até ao ponto em que se traduziu numa exigência de rendição total”.

Não é necessário concordar inteiramente com a análise do Sr. St. John. Mas a maioria dos observadores da cena americana concordarão que a essência da sua mensagem é sólida. Os negócios americanos “claramente em apuros”; a resposta à vasta gama de críticos tem sido ineficaz, e tem incluído o apaziguamento; chegou o momento – de facto, há muito esperado – da sabedoria, engenho e recursos dos empresários americanos serem mobilizados contra aqueles que os quereriam destruir.

 

Responsabilidade dos Executivos de Empresas

O que deve ser feito especificamente? A primeira coisa essencial – um pré-requisito para qualquer ação eficaz – é que os empresários enfrentem este problema como uma das suas principais responsabilidades da gestão empresarial.

A primeira necessidade de base é que os homens de negócios reconheçam que a questão em última instância pode ser a sobrevivência – sobrevivência do que chamamos o sistema de livre empresa e tudo o que isto significa para a força e prosperidade da América e para a liberdade do nosso povo.

Já passou o tempo em que um diretor executivo de uma grande empresa descarregava a sua responsabilidade sobre os outros, mantendo um crescimento satisfatório dos lucros, com a devida consideração pelas responsabilidades públicas e sociais da empresa. Para que o nosso sistema sobreviva, os diretores das empresas de topo devem estar igualmente preocupados em proteger e preservar o próprio sistema. Isto envolve muito mais do que uma ênfase crescente nas “relações públicas” ou “assuntos governamentais” – duas áreas em que as empresas há muito que investem somas substanciais.

Um primeiro passo significativo por parte das empresas individuais poderia muito bem ser a designação de um vice-presidente executivo (classificado com outros VP executivos), cuja responsabilidade é contrariar na frente mais alargada – o ataque ao sistema empresarial. O departamento de relações públicas poderia ser uma das bases atribuídas a este executivo, mas as suas responsabilidades deveriam abranger alguns dos tipos de atividades referidas abaixo neste memorando. O seu orçamento e o seu pessoal devem ser adequados às tarefas a desenvolver.

 

Possível Papel da Câmara de Comércio

Mas a atividade independente e descoordenada de empresas individuais, por mais importante que seja, não será suficiente. A força reside na organização, no planeamento e implementação cuidados a longo prazo, na consistência da ação durante um período indeterminado de anos, na escala de financiamento disponível unicamente através de esforço conjunto, e no poder político disponível apenas através de ação unida e de organizações nacionais.

Além disso, existe uma relutância compreensível da parte de qualquer empresa em ir demasiado longe na frente e em se tornar um alvo demasiado visível.

O papel da Câmara Nacional de Comércio é, portanto, vital. Outras organizações nacionais (especialmente as de vários grupos industriais e comerciais) devem juntar-se ao esforço, mas nenhuma outra organização parece estar tão bem situada como a Câmara. Goza de uma posição estratégica, com uma boa reputação e uma ampla base de apoio. Além disso – e isto é de imensurável mérito – existem centenas de Câmaras de Comércio locais que podem desempenhar um papel de apoio vital.

Não é necessário dizer que antes de iniciar qualquer programa, a Câmara deve estudar e analisar possíveis cursos de ação e atividades, ponderando os riscos em relação à provável eficácia e viabilidade de cada um deles. As considerações de custo, a garantia de apoio financeiro e outro apoio dos membros, a adequação do pessoal e problemas semelhantes exigirão a sua análise mais atenta.

 

Os Campus universitários

O assalto ao sistema empresarial não foi montado em poucos meses. Evoluiu gradualmente ao longo das últimas duas décadas, pouco percetível nas suas origens e beneficiando (sic) de um gradualismo que provocou pouca consciência e muito menos qualquer reação real.

Embora as origens, fontes e causas sejam complexas e inter-relacionadas, e obviamente difíceis de identificar sem uma qualificação cuidadosa, há razões para acreditar que os campus são a sua fonte mais dinâmica. As faculdades de ciências sociais incluem normalmente membros que não são simpatizantes do sistema empresarial. Podem variar desde um marxista como Herbert Marcuse, membro da faculdade da Universidade da Califórnia em San Diego, a socialistas convictos e até mesmo ao crítico liberal ambivalente que encontra mais para condenar do que para elogiar. Não é necessário que estes membros estejam em maioria. São muitas vezes pessoalmente atraentes e magnéticos; são professores estimulantes, e as suas controvérsias atraem os estudantes; são escritores e professores prolíficos; são autores de muitos dos livros de texto, e exercem enorme influência – muito desproporcionada em relação ao seu número – sobre os seus colegas e no mundo académico.

As faculdades de ciências sociais (o cientista político, economista, sociólogo e muitos dos historiadores) tendem a ser liberalmente orientadas, mesmo quando os esquerdistas não estão presentes. Isto não é uma crítica em si, pois a necessidade de pensamento liberal é essencial para um ponto de vista equilibrado. A dificuldade é que o “equilíbrio” é conspícuo pela sua ausência em muitos campus, com relativamente poucos membros a serem conservadores ou de persuasão moderada e mesmo os relativamente poucos são frequentemente menos articulados e agressivos do que os seus colegas de cruzada.

Esta situação, que se vem alargando desde há muitos anos e com o agravamento gradual do desequilíbrio, tem tido um enorme impacto em milhões de jovens estudantes americanos. Num artigo do Barron’s Weekly, em que se procurava uma resposta para o porquê de tantos jovens estarem descontentes até ao ponto de serem revolucionários, foi dito: “Porque lhes foi ensinado serem assim “. Ou, como notou o colunista Stewart Alsop, escrevendo sobre a sua alma mater: “Yale, como todas as outras grandes faculdades, está a graduar pontuações” de jovens brilhantes… que desprezam o sistema político e económico americano“.

Como estes “jovens brilhantes”, provenientes de universidades de todo o país, procuram oportunidades de mudar um sistema que lhes foi ensinado a desconfiar – se não mesmo a “desprezar” – procuram emprego nos centros do verdadeiro poder e influência no nosso país, nomeadamente em: (i) nos noticiários, especialmente na televisão; (ii) no governo, como “funcionários” e consultores a vários níveis; (iii) na política eletiva; (iv) como conferencistas e escritores, e (v) nas faculdades a vários níveis de ensino.

Muitos entram no sistema empresarial – nos negócios e nas profissões – e, na sua maioria, descobrem rapidamente as falácias do que lhes foi ensinado. Mas aqueles que escapam à corrente dominante do sistema permanecem frequentemente em posições chave de influência onde moldam a opinião pública e moldam frequentemente a ação governamental. Em muitos casos, estes “intelectuais” acabam a sua vida profissional em agências reguladoras ou departamentos governamentais onde gozam de grande autoridade sobre o sistema empresarial em que não acreditam.

Se a análise precedente for aproximadamente sólida, uma tarefa prioritária das empresas – e organizações como a Câmara – é abordar a origem desta hostilidade nos campus. Poucas coisas são mais santificadas na vida americana do que a liberdade académica. Seria fatal atacar isto como um princípio. Mas, se a liberdade académica quiser manter as qualidades de “abertura”, “justiça” e “equilíbrio” – que são essenciais ao seu significado intelectual – há uma grande oportunidade para uma ação construtiva. O objetivo de tal ação deve ser o de restaurar as qualidades que acabam de ser mencionadas para as comunidades académicas.

 

O que pode ser feito sobre os Campus

A responsabilidade última pela integridade intelectual nos campus deve permanecer nas administrações e faculdades dos nossos colégios e universidades. Mas organizações como a Câmara podem ajudar e ativar mudanças construtivas de muitas maneiras, incluindo as seguintes:

Pessoal académico

A Câmara deve considerar a criação de uma equipa de universitários altamente qualificados em ciências sociais que acreditem no sistema. Deveria incluir vários deles de reputação nacional cuja autoria seria mesmo amplamente respeitada – mesmo em caso de desacordo.

Pessoal Conferencista

Também deve haver uma equipa de oradores da mais alta competência. Estes poderiam incluir os académicos, e certamente aqueles que falam em nome da Câmara teriam de articular o produto dos académicos.

Gabinete dos Conferencistas

Para além do pessoal a tempo inteiro, a Câmara deveria ter um Gabinete de Conferencistas, que deveria incluir os defensores mais competentes de entre os mais altos escalões do mundo empresarial americano.

Avaliação dos manuais escolares

A equipa de universitários (ou de preferência um painel de académicos independentes) deve avaliar os manuais de ciências sociais, especialmente em economia, ciência política e sociologia. Este deve ser um programa a ser exercido de forma contínua.

O objetivo de tal avaliação deve ser orientado para o restabelecimento do equilíbrio essencial à verdadeira liberdade académica. Isto incluiria a garantia de um tratamento justo e factual do nosso sistema de governo e do nosso sistema empresarial, das suas realizações, da sua relação básica com os direitos e liberdades individuais, e comparações com os sistemas do socialismo, fascismo e comunismo. A maioria dos manuais existentes tem algum tipo de comparação, mas muitos são superficiais, tendenciosos e injustos.

Temos visto o movimento de direitos civis insistir em reescrever muitos dos manuais nas nossas universidades e escolas. Os sindicatos de trabalhadores insistem igualmente em que os livros escolares sejam justos com os pontos de vista do trabalho organizado, sindicalizado. Outros grupos de cidadãos interessados não hesitaram em rever, analisar e criticar os manuais escolares e os materiais didáticos. Numa sociedade democrática, este pode ser um processo construtivo e deve ser considerado como uma ajuda à verdadeira liberdade académica e não como uma intrusão sobre ela.

Se os autores, editores e utilizadores de livros escolares souberem que serão sujeitos – honesta, justa e exaustivamente – a revisão e crítica por parte de eminentes académicos que acreditam no sistema americano, pode esperar-se um regresso a um equilíbrio mais racional.

Igualdade de tempo nas universidades

A Câmara deveria insistir sobre a igualdade de tempos no circuito das conferências universitárias. O FBI publica todos os anos uma lista de discursos proferidos em campus universitários por comunistas assumidos. O número em 1970 ultrapassou os 100. Houve, evidentemente, muitas centenas de aparições de esquerdistas e ultra liberais que apelaram aos tipos de pontos de vista indicados anteriormente neste memorando. Não houve representação correspondente de empresas americanas, ou mesmo por indivíduos ou organizações que apareceram em apoio ao sistema americano de governo e empresas.

Cada campus tem os seus grupos formais e informais que convidam conferencistas. Cada faculdade de direito faz a mesma coisa. Muitas universidades e faculdades patrocinam oficialmente programas de conferências e de oradores. Todos sabemos da inadequação da representação das empresas nestes programas.

Dir-se-á que poucos convites seriam alargados a oradores da Câmara. Isto continuaria a ser verdade, a menos que a Câmara insistisse agressivamente no direito a ser ouvida – com efeito, insistisse em “tempo igual”. Os administradores universitários e a grande maioria dos grupos e comités de estudantes não gostariam de ser publicamente colocados na posição de recusar um fórum a opiniões diversas, de facto, esta é a desculpa clássica para permitir que os comunistas falem.

Os dois ingredientes essenciais são (i) ter oradores atrativos, articulados e bem informados; e (ii) exercer algum grau de pressão – pública e privada – que possa ser necessário para assegurar oportunidades de falar. O objetivo deve ser sempre o de informar e esclarecer, e não apenas o de fazer propaganda.

Equilíbrio de Faculdades

Talvez o problema mais fundamental seja o desequilíbrio de muitas faculdades. Corrigir este desequilíbrio é de facto um projeto difícil e de longo alcance. Contudo, deve ser empreendido como parte de um programa global. Isto significaria que será necessário insistir sobre a necessidade de equilíbrio do corpo docente das faculdades junto dos administradores universitários e dos conselhos de administração.

Os métodos a utilizar requerem uma reflexão cuidadosa, e as armadilhas óbvias devem ser evitadas. Uma pressão imprópria seria contraproducente. Mas é difícil resistir aos conceitos básicos de equilíbrio, justiça e verdade, se devidamente apresentados aos conselhos de administração, por escrito e oralmente, e por apelos às associações e grupos de antigos alunos.

Este é um longo caminho e não um caminho para os fracos de coração. Mas, se prosseguido com integridade e convicção, poderá levar a um reforço tanto da liberdade académica nos campus como dos valores que fizeram da América a mais produtiva de todas as sociedades.

Escolas de Pós-Graduação em Negócios

A Câmara deve ter uma relação particular com as cada vez mais influentes Faculdades com licenciaturas sobre negócios. Muito do que tem sido sugerido acima aplica-se a essas escolas.

Não deveria a Câmara também solicitar cursos específicos em tais escolas que tratassem de todo o âmbito do problema abordado por este memorando? Esta é agora uma formação essencial para os executivos do futuro.

 

Ensino Secundário

Embora a primeira prioridade deva ser a nível universitário, as tendências mencionadas acima são cada vez mais evidenciadas nas escolas secundárias. Programas de acção, adaptados às escolas secundárias e semelhantes aos mencionados, devem ser considerados. A sua implementação poderia tornar-se um programa importante para as câmaras de comércio locais, embora o controlo e a direcção – especialmente o controlo de qualidade – devam ser mantidos pela Câmara Nacional.

 

O que pode ser feito em relação à população em geral?

Chegar ao campus e às escolas secundárias é vital para o longo prazo. Atingir a população em geral pode ser mais importante para o curto prazo. O primeiro essencial é estabelecer o pessoal de eminentes estudiosos, escritores e oradores, que farão o pensamento, a análise, a escrita e a fala. Será também essencial ter pessoal que esteja completamente familiarizado com os meios de comunicação, e como comunicar com o público da forma mais eficaz. Entre os meios mais óbvios, encontram-se os seguintes:

Televisão

As redes nacionais de televisão devem ser monitorizadas da mesma forma que os livros escolares devem ser mantidos sob vigilância constante. Isto aplica-se não apenas aos chamados programas educativos (tais como “A Vender o Pentágono”), mas também à “análise diária de notícias” que tão frequentemente inclui o tipo mais insidioso de crítica ao sistema empresarial. Quer esta crítica resulte de hostilidade ou de ignorância económica, o resultado é a gradual erosão da confiança nos “negócios” e na livre iniciativa.

Este controlo, para ser eficaz, exigiria um exame constante dos textos de adequadas amostras de programas. As queixas – aos meios de comunicação social e à Comissão Federal de Comunicações – devem ser feitas pronta e firmemente quando os programas são injustos ou imprecisos.

Deve ser exigido o mesmo tempo de palavra, quando isso é apropriado. Deve ser feito um esforço para que os programas do tipo fórum (o Today Show, Meet the Press, etc.) ofereçam pelo menos as mesmas oportunidades de participação aos apoiantes do sistema americano que estes programas oferecem àqueles que o atacam.

Outros Media

A rádio e a imprensa também são importantes, e todos os meios disponíveis devem ser utilizados para desafiar e refutar ataques injustos, bem como para apresentar os argumentos positivos através destes meios de comunicação.

Os jornais académicos

É especialmente importante que a “faculdade de universitários ” da Câmara publique. Uma das chaves para o sucesso dos membros liberais e esquerdistas da faculdade tem sido a sua paixão pela “publicação” e pela “docência”. Uma paixão semelhante deve existir entre os universitários da Câmara.

Podem ser criados incentivos para induzir mais “publicações” por académicos independentes que acreditem no sistema.

Deve haver um fluxo bastante constante de artigos académicos apresentados a um largo espectro de revistas e periódicos – desde as revistas populares (Life, Look, Reader’s Digest, etc.) às mais intelectuais (Atlantic, Harper’s, Saturday Review, New York, etc.) e às várias revistas profissionais.

Livros, brochuras e panfletos

As bancas de jornais – em aeroportos, drogarias, e noutros locais – estão cheias de brochuras e panfletos que defendem tudo, desde a revolução ao amor erótico livre. Não se encontram quase nenhumas brochuras ou panfletos atraentes e bem redigidos do “nosso lado”. Será difícil competir com um Eldridge Cleaver ou mesmo com um Charles Reich quanto a captar em geral a atenção dos leitores, mas a menos que o esforço seja feito – numa escala suficientemente grande e com imaginação apropriada para assegurar algum sucesso – esta oportunidade de educar o público será irremediavelmente perdida.

Anúncios pagos

As empresas pagam centenas de milhões de dólares aos meios de comunicação social por anúncios publicitários. A maior parte apoia produtos específicos; grande parte apoia a criação de imagem institucional; e alguma parte apoia o sistema. Mas esta última tem sido mais ou menos tangencial, e raramente parte de um esforço sustentado e importante para informar e esclarecer o povo americano

Se as empresas americanas dedicassem apenas 10% do seu orçamento anual total de publicidade a este objetivo global, seria uma despesa semelhante à de homem de Estado.

 

A Arena Política Negligenciada

Em última análise, a recompensa – a curto prazo – é o que o governo faz. Os negócios têm sido o bode expiatório favorito de muitos políticos durante muitos anos. Mas a medida de quão longe isto terá ido talvez seja melhor encontrada nas opiniões anti-negócios agora expressas por vários dos principais candidatos a Presidente dos Estados Unidos.

Continua a ser doutrina marxista que os países “capitalistas” são controlados pelas grandes empresas. Esta doutrina, consistentemente uma parte da propaganda esquerdista em todo o mundo, tem um vasto público a segui-la entre os americanos.

No entanto, como qualquer executivo empresarial sabe, poucos elementos da sociedade americana de hoje têm tão pouca influência no governo como o homem de negócios americano, a grande empresa ou mesmo os milhões de acionistas de empresas. Se alguém duvida sobre isto, então assuma o papel de “lobista” do ponto de vista empresarial perante as comissões do Congresso. A mesma situação verifica-se nos salões legislativos da maioria dos estados e grandes cidades. Não se exagera ao dizer que, em termos de influência política com respeito ao produzir da legislação e da ação governamental, o executivo empresarial americano é verdadeiramente o “homem esquecido”.

Os exemplos atuais da impotência dos homens de negócios, e do quase desprezo com que as opiniões dos empresários são defendidas, são a debandada dos políticos para apoiar quase toda e qualquer legislação relacionada com o “consumismo” ou com o “ambiente”.

Os políticos refletem o que acreditam ser as opiniões maioritárias dos seus eleitores. É assim evidente que a maioria dos políticos faz o juízo de que o público tem pouca simpatia pelo homem de negócios ou pelo seu ponto de vista.

Os programas educacionais acima sugeridos seriam concebidos para esclarecer o pensamento público – não tanto sobre o homem de negócios e o seu papel individual, mas sobre o sistema que ele administra, e que fornece os bens, serviços e empregos dos quais o nosso país depende.

Mas não deve ser adiada uma ação política mais direta, enquanto se aguarda a mudança gradual na opinião pública a ser efetuada através da educação e informação. As empresas devem aprender a lição, há muito aprendida pelos trabalhadores e outros grupos de interesse próprio. Esta é a lição de que o poder político é necessário; que tal poder deve ser cultivado assiduamente (sic); e que quando necessário, deve ser usado agressivamente e com determinação – sem constrangimento e sem a relutância que tem sido tão característica dos negócios americanos.

Por mais indesejável que seja para a Câmara, deveria considerar assumir um papel mais amplo e vigoroso na arena política.

 

Oportunidade negligenciada nos Tribunais

Os negócios americanos e o sistema empresarial têm sido afetados tanto pelos tribunais como pelos ramos executivo e legislativo do governo. Sob o nosso sistema constitucional, especialmente com um Supremo Tribunal ativista, o poder judicial pode ser o instrumento mais importante para a mudança social, económica e política.

Outras organizações e grupos, reconhecendo isto, têm sido muito mais astutos na exploração de ações judiciais do que os empresários americanos. Talvez os exploradores mais ativos do sistema judicial tenham sido grupos de orientação política desde “liberais” até à extrema-esquerda.

A União Americana das Liberdades Civis é um exemplo. Inicia ou intervém em dezenas de casos todos os anos, e apresenta amicus curiae no Supremo Tribunal em vários casos durante cada mandato daquele tribunal. Sindicatos de trabalhadores, grupos de direitos civis e agora os escritórios de advocacia de interesse público são extremamente ativos na arena judicial. O seu sucesso, muitas vezes à custa das atividades empresariais, não tem sido inconsequente.

Esta é uma vasta área de oportunidade para a Câmara, se ela estiver disposta a assumir o papel de porta-voz das empresas americanas e se, por sua vez, estas estiverem dispostas a fornecer os fundos.

Tal como em relação aos universitários e conferencistas, a Câmara precisaria de um pessoal altamente competente de advogados. Em situações especiais, deveria ser autorizado a contratar, para comparecer como advogado amicus no Supremo Tribunal, advogados de renome e reputação nacional. O maior cuidado deveria ser exercido na seleção dos casos em que participar, ou dos processos a instaurar. Mas a oportunidade merece o esforço necessário.

 

O poder acionista negligenciado

O cidadão comum americano vê os “negócios” como entidades empresariais de tipo impessoal, como propriedade dos muito ricos e geridos por executivos com excessivas remunerações. Há um fracasso quase total em perceber que o que o mundo dos “negócios”, de facto, está a defender – de uma forma ou de outra – é o interesse da maioria dos americanos. Aqueles para quem os negócios proporcionam empregos, constituem uma classe bastante óbvia. Mas os 20 milhões de acionistas – a maioria dos quais são de meios modestos – são os verdadeiros proprietários, os verdadeiros empreendedores, os verdadeiros capitalistas sob o nosso sistema. Eles fornecem o capital que alimenta o sistema económico que produziu o mais alto nível de vida em toda a história. No entanto, os acionistas têm sido tão ineficazes como os executivos empresariais na promoção de uma genuína compreensão do nosso sistema ou no exercício da possível influência política.

A questão que merece uma análise mais completa é como é que o peso e a influência dos acionistas – 20 milhões de eleitores – podem ser mobilizados para apoiar (i) um programa educativo e (ii) um programa de ação política.

As empresas individuais são agora obrigadas a fazer numerosos relatórios aos acionistas. Muitas empresas também têm dispendiosas revistas de “notícias” que são distribuídas aos funcionários e aos acionistas. Estas oportunidades de comunicação podem ser utilizadas de forma muito mais eficaz como meios de comunicação educativos.

As próprias sociedades devem exercer contenção na realização de ações políticas e devem, naturalmente, cumprir as leis aplicáveis. Mas não será viável – através de uma filiação da Câmara ou de outra forma – estabelecer uma organização nacional de acionistas americanos e dar-lhe força suficiente para ser influente?

 

Uma Atitude Mais Agressiva

Os interesses empresariais – especialmente as grandes empresas e as suas organizações comerciais nacionais – têm tentado manter um perfil baixo, especialmente no que diz respeito à ação política.

Como sugerido no artigo do Wall Street Journal, tem sido bastante característico do corpo executivo empresarial ser, em média, tolerante – pelo menos em público – com aqueles que atacam a sua empresa e o sistema empresarial. Muito poucos homens de negócios ou organizações empresariais respondem da mesma forma. Tem havido uma disposição para apaziguar; para considerar a oposição como disposta a transigir, ou como suscetível de se desvanecer em devido tempo.

As empresas têm evitado a política de confrontação. Os dirigentes empresariais, compreensivelmente, têm sido repelidos pela multiplicidade de “exigências” não negociáveis feitas constantemente por grupos de interesse próprio de todos os tipos.

Embora nem os interesses empresariais responsáveis, nem a Câmara de Comércio dos Estados Unidos, se envolvessem nas táticas irresponsáveis de alguns grupos de pressão, é essencial que os porta-vozes do sistema empresarial – a todos os níveis e em todas as oportunidades – sejam muito mais agressivos do que no passado.

Não deve haver hesitação em atacar os Ralph Naders, os Marcuses e outros que procuram abertamente a destruição do sistema. Não deve haver a menor hesitação em pressionar vigorosamente em todas as arenas políticas para apoiar o sistema empresarial. Também não deve haver relutância em penalizar politicamente aqueles que se lhe opõem.

A este respeito, há lições que podem ser aprendidas com as organizações dos trabalhadores. O chefe da AFL-CIO pode não ser considerado pelos homens de negócios como sendo a pessoa mais cativante ou a pessoa de espírito público mais aberto de entre os nossos cidadãos. No entanto, durante muitos anos, os chefes das organizações nacionais de trabalho fizeram aquilo para que foram pagos para fazer de forma muito eficaz. Podem não ter sido amados, mas têm sido respeitados – onde mais conta – pelos políticos, nos campus e entre os meios de comunicação social.

É tempo das empresas americanas – que demonstraram a maior capacidade de produzir e influenciar as decisões dos consumidores- aplicarem vigorosamente os seus grandes talentos na preservação do próprio sistema.

O Custo

O tipo de programa acima descrito (que inclui uma ampla combinação de formação e ação política), se empreendido a longo prazo e com pessoal adequado, exigiria um apoio financeiro muito mais generoso das empresas americanas do que o que a Câmara alguma vez recebeu no passado. Também seria necessária a participação ao mais alto nível da direção da Câmara.

O pessoal da Câmara teria de ser significativamente aumentado, recrutado e mantido com a mais alta qualidade possível. Os salários teriam de ser a níveis totalmente comparáveis aos que são pagos aos principais executivos de negócios e aos membros mais prestigiados do corpo docente. Teriam de ser recrutados profissionais com grande competência em publicidade e no trabalho com os meios de comunicação social, quer ainda como conferencistas, advogados e outros especialistas.

É possível que a própria organização da Câmara beneficie de uma reestruturação. Por exemplo, como sugere a experiência sindical, o cargo de Presidente da Câmara poderia muito bem ser um cargo de carreira a tempo inteiro. Para assegurar a máxima eficácia e continuidade, o diretor executivo da Câmara não deve ser de nomeação anual. As funções agora largamente desempenhadas pelo Presidente poderiam ser transferidas para um Presidente do Conselho de Administração, eleito anualmente pelos membros. O Conselho de Administração, naturalmente, continuaria a exercer o controlo político.

O Controlo de Qualidade é Essencial

Os ingredientes essenciais de todo o programa devem ser responsabilidade e “controlo de qualidade”. As publicações, os artigos, os discursos, os programas dos media, a publicidade, os casos apresentados aos tribunais, e as comparências perante os comités legislativos – todos devem satisfazer os mais exigentes padrões de rigor e excelência profissional. Devem merecer respeito pelo seu nível de responsabilidade pública e de erudição, quer se concorde ou não com os pontos de vista expressos.

 

Relação com a Liberdade

A ameaça ao sistema empresarial não é apenas uma questão de economia. É também uma ameaça à liberdade individual.

É esta grande verdade – agora tão submersa pela retórica da Nova Esquerda e de muitos liberais – que deve ser reafirmada para que este programa tenha pleno sentido.

Parece haver pouca consciência de que as únicas alternativas à livre iniciativa são os diferentes graus de regulação burocrática da liberdade individual – desde o socialismo moderado até ao calcanhar de ferro da ditadura esquerdista ou de direita.

Nós na América já avançámos muito para alguns aspetos do socialismo de Estado, uma vez que as necessidades e complexidades de uma vasta sociedade urbana exigem tipos de regulação e controlo que eram bastante desnecessários em tempos anteriores. Em algumas áreas, tal regulamentação e controlo já prejudicaram seriamente a liberdade tanto das empresas como do trabalho, e de facto do público em geral. Mas a maioria das liberdades essenciais permanecem: propriedade privada, lucro privado, sindicatos de trabalhadores, negociação coletiva, escolha do consumidor, e uma economia de mercado em que a concorrência determina em grande medida o preço, a qualidade e a variedade dos bens e serviços fornecidos ao consumidor.

Para além do ataque ideológico ao próprio sistema (discutido neste memorando), os seus fundamentos estão também ameaçados por uma tributação injusta, e – mais recentemente – por uma inflação que tem parecido incontrolável. Mas sejam quais forem as causas da diminuição da liberdade económica, a verdade é que a liberdade como conceito é indivisível. Como a experiência dos Estados socialistas e totalitários demonstra, a contração e negação da liberdade económica é inevitavelmente seguida de restrições governamentais a outros direitos que nos são muito caros. É esta mensagem, acima de todas as outras, que deve ser levada para casa ao povo americano.

 

Conclusão

Não é necessário dizer que as opiniões expressas acima são provisórias e são apenas sugestões. O primeiro passo deve ser fazer um estudo minucioso. Mas isto seria um exercício de pura futilidade, a menos que o Conselho de Administração da Câmara aceite a premissa fundamental deste documento, nomeadamente, a de que os negócios e o sistema empresarial estão em grandes dificuldades e que o momento para começar a agir começa a ficar tarde.

 

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