CARTA DE BRAGA – “das direitas e aristocracias” por António Oliveira

Há por aí enormes discussões sobre o centro e as pontas extremas ou não e, por isso, acrescento os comentários de dois jornalistas, que até podem vir a aumentar a confusão que por aí anda, depois da vitória da direita em Itália, das anexações putinescas na Ucrânia, das ‘quedas’ das bolsas e do mais que este 2022 ainda tem para nos ‘aterrorizar’. Não uso esta palavra de ânimo leve, tanto mais que vivo aqui, num país talvez plantado à beira mar, mas onde os caminhos –especialmente os dos mais velhos– parecem cheio de buracos onde se pode cair sem qualquer amparo e, mais ainda, porque aqui também se pode vir a correr o risco de ver minguar a democracia!

Atrevo-me, por isso, começar com as palavras da premiada escritora e jornalista espanhola, Maruja Torres, residente há anos em Beirute, escritas depois da vitória da Melona nas eleições italianas, ‘Voltam as loiras ao seu espaço político natural, a direita. A direita extrema, o não vai mais dos centros da ponta, a hóstia em verso, o ultra mega patriótico, o nosso, a família e, está bem claro, Deus na sua versão pior, o vaticano-trumpista e anti Francisco. Pobre homem… a nostalgia da lama ariana, do ódio aos diferentes e aos escuros, começa nas raízes e nas pontas. Até aqui, e perdoem-me todas as loiras, não há mais parte boa neste cântaro’.

Sergio Ramirez, advogado, jornalista e escritor nicaraguense, diz que no lado de lá do charco, outro ‘artista’ se bem que dizendo-se de orientação distinta, Daniel Ortega, patrão da Nicarágua, para evitar que as procissões pudessem derivar em manifestações populares, proibiu tirar das suas igrejas as figuras de S. Miguel e S. Jerónimo, assim promovidos a ‘presos políticos’, tal como o bispo de Matagalpa, monsenhor Rolando Álvarez, depois de Ortega ter mandado assaltar a cúria episcopal, sequestrá-lo e levá-lo para Manágua, e decretar-lhe a prisão em casa de familiares. O patrão Ortega não dá hipóteses nenhumas universidades, colégios profissionais, organizações civis e meios de comunicação, são todos acusados de subversão da ordem pública e de terrorismo-; e neste cântaro haverá alguma parte boa?

Mas, de outra maneira, creio que a Europa, vem cavando, há já bastante tempo, o terreno onde todas estas coisas vão crescendo, porque desde a implementação do euro como moeda única, se por um lado se conseguiu aumentar a taxa de crescimento nos países mais desenvolvidos, também se conseguiu que a dívida se descomandasse nos países onde não houve convergência de economias, nem harmonização fiscal.

Tanto Joseph Stiglitz como Paul Krugman, têm escrito variadíssimos trabalhos onde a criação do euro, que tanto foi classificada ‘uma solene tontura’, como ‘uma ameaça para o futuro da Europa’, uma vez que tal moeda impôs políticas europeias em substituição das seguidas em cada país ou, explicado de outra maneira, não funcionando como uma verdadeira democracia, ‘por não proporcionar procedimentos’, afirma o catedrático de economia Juan Torres López, ‘que permitam canalizar as preferências, as frustrações, o descontentamento ou a vontade da cidadania’.

Se considerarmos válidos estes argumentos, ‘Quem poderá estranhar que cada vez mais gente simpatize, vote, se una, justifique, conviva sem problemas, ou tenha por aliado para governar, quem a rejeita completamente?’, pergunta ainda Torres.

Mas outros temas se valorizam agora, especialmente nas cortes inglesas e dinamarquesas há princesas que podem perder o título, um filho da ex-rainha inglesa que já perdeu tudo, em títulos e categorias militares, por mau comportamento, um neto que teve o azar de casar com uma rapariga demasiado escura, para os gostos do reino e logo entrou o esturrado no arroz, mas consolou as revistas e os proto-jornais, que fazem paragonas destes assuntos.

Uma vez mais me socorro do poeta Eduardo Galeano ‘As coisas importantes morrem quando se indicam, por isso temos de desconfiar sempre das palavras, por muito boas que sejam as intenções’, mas dando também razão a Albert Camus, ‘A verdade tem duas caras, uma das quais deve permanecer oculta’.

Falamos da direita ou da aristocracia?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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