A Guerra na Ucrânia — “Os EUA admitem irrefutavelmente que planeiam desde há muito uma guerra contra a Rússia”. Por Strategic Culture Foundation

Seleção e tradução de Francisco Tavares

8 m de leitura

Os EUA admitem irrefutavelmente que planeiam desde há muito uma guerra contra a Rússia

Editorial de  em 7 de Outubro de 2022 (original aqui)

 

© Foto: REUTERS

 

Os Estados Unidos e os seus aliados são culpados de perpetrar uma guerra de agressão deliberada contra a Rússia, planeada desde há muito tempo.

Um estudo da Rand Corporation publicado há mais de três anos demonstra incontestavelmente que a guerra na Ucrânia é de facto a manifestação de um maior confronto voluntário contra a Rússia, através do qual os Estados Unidos estão a tentar enfraquecer e subjugar Moscovo.

O que está a acontecer é sem dúvida o culminar do planeamento de longa data dos Estados Unidos. Isto dá um significado totalmente diferente ao actual conflito na Ucrânia – agora no seu oitavo mês. Isto não é, como os governos e os meios de comunicação social ocidentais querem fazer crer, um ataque “não provocado” à Ucrânia e aos “valores democráticos ocidentais” pela “agressão russa”. O conflito tem sido deliberadamente fomentado, alimentado e agora exacerbado por escolhas políticas feitas por Washington e pelos seus parceiros da NATO.

A Rand Corporation é um dos mais antigos grupos de reflexão dos EUA, criada em 1948. Um dos seus cofundadores foi o comandante da força aérea, General Curtis LeMay, o arquitecto do lançamento de bombas incendiárias sobre Tóquio em 1945 e do holocausto atómico em Hiroshima e Nagasaki. LeMay foi um falcão da Guerra Fria que defendeu ataques nucleares preventivos contra a União Soviética junto do Presidente John F Kennedy no início dos anos 60. A empresa que ele criou, Rand, é financiada pelo governo dos EUA e, de certa forma, pode ser vista como o cérebro e a boca pública do Pentágono e da CIA.

O estudo acima citado, intitulado “Overextending and Unbalancing Russia” e publicado em Abril de 2019, chamou recentemente a atenção de muitos observadores independentes (ver, por exemplo, um episódio recente do programa Jimmy Dore nos EUA). O que o torna actual é a forma como os acontecimentos reais e actuais se estão a desenrolar de uma forma que os planeadores americanos previram.

Entre a lista de “opções que impõem custos” (ver o nosso gráfico SCF), que os autores da Rand instavam a que fossem aplicadas contra a Rússia, encontravam-se:

  • Prestação de ajuda militar letal à Ucrânia
  • Mobilização dos membros europeus da NATO
  • Imposição de sanções comerciais e económicas mais profundas
  • Aumentar a produção de energia dos EUA para exportação para a Europa
  • Expandir a infra-estrutura de importação da Europa para receber fornecimentos de gás natural liquefeito (GNL) dos EUA

 

O golpe de Estado apoiado pelos EUA em Kiev, em Fevereiro de 2014, foi o evento chave para tornar possível todo este planeamento subsequente. O regime que chegou ao poder era raivosamente anti-russo e infestado pela ideologia neonazi. Foi uma ferramenta zelosa para a política americana e da NATO antagonizar e ameaçar a Rússia. Durante oito anos, o regime de Kiev repudiou os tratados de paz e travou uma guerra genocida com o total apoio dos EUA e da NATO contra os falantes de russo nas repúblicas auto-declaradas de Donbass. Estas repúblicas aderiram agora à Federação Russa, juntamente com duas outras antigas regiões ucranianas.

A invasão militar russa da Ucrânia, a 24 de Fevereiro de 2022, foi precipitada pela incansável agressão apoiada pela NATO, não só contra os russos étnicos da Ucrânia, mas também contra a própria Rússia. Sem dúvida, tornou-se uma guerra de necessidade para a Rússia na defesa dos seus interesses nacionais, motivada por uma guerra de escolha por procuração engendrada pelos Estados Unidos e os seus aliados da NATO.

O estudo da Rand Corporation deixa bem claro que o incipiente e perigoso conflito entre potências nucleares foi orquestrado desde o início pelos EUA. O mundo está a assistir a uma situação abismal que equivale a uma quase Terceira Guerra Mundial, como o nosso colunista Declan Hayes escreveu esta semana.

Escandalosamente, os EUA e os seus parceiros da NATO continuam a empilhar armas cada vez mais letais na Ucrânia que estão a tornar possíveis ataques directos ao território russo. Sob a tutela nefasta de Washington e Londres, o regime de Kiev rejeita qualquer esforço diplomático para encontrar uma solução política para a paz. Propostas bem intencionadas de paz apresentadas por figuras internacionais como o empresário Elon Musk ou o artista musical e o co-fundador dos Pink Floyd Roger Waters são alvo de zombaria e ameaças de morte.

Parece haver uma espiral de insanidade com que os Estados Unidos, as elites europeias e o regime de Kiev estão comprometidos.

O Kremlin advertiu que utilizará “todos os meios necessários” para se defender se a segurança existencial da Rússia for ameaçada mesmo que por “armas convencionais”. A dinâmica aqui é perigosa, porque arrisca desembocar numa catastrófica guerra nuclear, de uma forma que torna a Crise dos Mísseis Cubanos de 1962 pálida em comparação.

Há que salientar que o actual dilema perigoso tem sido conscientemente conduzido pelas escolhas políticas dos EUA.

Recordemos que Zbigniew Brzezinski, o antigo estratega presidencial americano de Jimmy Carter (1977-1981), saudou a Ucrânia como o “pivô” do controlo hegemónico sobre a Eurásia e uma cabeça de ponte para desestabilizar a Rússia, no seu livro de 1997 intitulado “O Grande Tabuleiro de Xadrez”.

Brzezinski foi também o arquitecto do “atoleiro Afegão” que os EUA instigaram secretamente para atrair as tropas soviéticas para uma guerra de dez anos (1979-1989). Essa guerra foi deliberadamente engendrada pelo massivo armamento americano de mandatários afegãos (que mais tarde evoluíram para a Al Qaeda e outras redes terroristas islâmicas) para dar à União Soviética “o seu Vietname”. O efeito debilitante da “Armadilha Afegã” sobre Moscovo foi sem dúvida um factor causal no final colapso da União Soviética em 1991.

O que está a acontecer actualmente na Ucrânia tem paralelos inquestionáveis. Como a Rand Corp prontamente antecipou, o conflito tem como objectivo “sobrecarregar e desequilibrar a Rússia”. Não há dúvida que está a ser fortemente investido para que as pressões militares, económicas e políticas que estão a ser geradas e impostas a Moscovo levem ao enfraquecimento do Estado russo, ao colapso das estruturas de governo, à mudança de regime e à fragmentação do território nacional em mini-estados díspares sobre os quais os EUA podem exercer o domínio hegemónico para a exploração da vasta riqueza natural da Rússia. O Presidente russo Vladimir Putin salientou recentemente que este objectivo geopolítico de derrotar a Rússia é a pedra de toque do nosso tempo.

Outras fontes corroboram a conclusão de que este conflito é uma guerra de escolha. O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, revelou – provavelmente sem intenção – num artigo de opinião para o Financial Times no mês passado que o bloco militar liderado pelos EUA tem vindo a armar a Ucrânia desde 2014 com o objectivo de agitar as tensões com a Rússia.

Assim, as armas da NATO que estão a ser bombeadas para a Ucrânia não são uma “resposta” para a “defender” contra a Rússia. A ajuda militar ofensiva está apenas a ser acelerada após anos de armamento provocador da antiga república soviética e do vizinho imediato ocidental e historicamente próximo da Rússia.

No mês passado, outro alto comandante da NATO, o Almirante Rob Bauer, presidente do comité militar do bloco, admitiu descaradamente que: “O planeamento para isso [a guerra actual] começou há anos atrás, mas agora estamos a implementá-lo”.

É, portanto, indiscutível que pode e deve ser feita uma acção judicial. Os Estados Unidos e os seus aliados são culpados de perpetrar uma guerra de agressão deliberada contra a Rússia, planificada desde há muito tempo.

Isso não é apenas um crime de guerra supremo, de acordo com os princípios de Nuremberga. É também colocar em grave risco a própria existência de todo o planeta. Pode haver alguma coisa mais diabólica?

 

 

1 Comment

  1. Já lá vão uns anos que tive acesso a um livro publicado em Portugal sobre a RAND Corporation, esclarecedor sobre o papel da organização na manutenção e desenvolvimento da situação de guerra fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. Só foi surpresa pela transparência do relato das ações e suas intenções, bem como do seu entrosamento com sucessivas Administrações dos USA. Daquelas coisas que a opção pelo formato democrático da oligarquia norte-americana providencia. Obrigado pela divulgação de mais este documento da RAND, fonte de informação autêntica sore a política externa e dinâmica militar dos USA.

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