A Guerra na Ucrânia — Nazis na Turquia: Quem é o Líder do Batalhão Azov que veio para Ancara?  Por Erkin Öncan

Seleção e tradução de Francisco Tavares

7 m de leitura

Nazis na Turquia: Quem é o Líder do Batalhão Azov que veio para Ancara?

 Por Erkin Öncan

Editorial de em 11 de Outubro de 2022 (original aqui)

 

© Foto: Social Media

 

Embora a Turquia siga uma posição “equilibrada” na crise da Ucrânia, este equilíbrio pode muitas vezes evoluir para uma política de zig-zag. Se este desvio acontecer com os membros Azov na Turquia, prepare-se para ver as histórias heróicas dos Azovistas nos meios de comunicação turcos.

 

Como parte da troca de prisioneiros entre a Rússia e a Ucrânia, soube-se que 5 comandantes ucranianos, incluindo os líderes superiores do Batalhão neonazi Azov, vieram para a Turquia e ficarão em Ancara até ao fim da guerra.

O líder ucraniano Zelensky disse também o seguinte no seu post no Twitter sobre o assunto:

Segundo o acordo que fizemos com Erdogan, os cinco comandantes Azov libertados ficarão em condições confortáveis na Turquia até ao fim da guerra. Poderão ver as suas famílias. Agradeço sinceramente ao Presidente“.

Os neonazis, que desempenharam um papel importante no golpe de estado Maydan na Ucrânia em 2014, têm muitas organizações armadas em todo o país. Os nomes que vieram para a Turquia com uma troca de prisioneiros são do Batalhão Azov, a maior destas organizações neo-nazis.

 

O que é o Batalhão Azov?

O Batalhão de Azov é a mais forte das organizações neo-nazis ucranianas. O fundador da organização, Andrey Biletskiy, que foi preso por ter feito explodir a estátua de Lenine em 2011, é um dos principais neonazis do país. Criada por Biletskiy em 2002, a organização de extrema-direita chamada ‘Trizub’, que tira o seu nome da revista com o mesmo nome de Simon Petlyura, um dos líderes históricos de extrema-direita da Ucrânia, é considerada a antecessora da organização que conhecemos hoje como o Batalhão Azov.

Estima-se que 35 mil a 50 mil judeus foram mortos nos pogroms organizados durante o período de Petlyura, que foi o líder da República Popular Ucraniana, declarada unilateralmente entre 1917 e 1921, durante a construção do poder dos bolcheviques na Rússia.

O Batalhão Azov, que tinha sido líder na organização da extrema-direita na Ucrânia durante muitos anos, ganhou uma estrutura institucional com o golpe de Maydan e foi anexado ao Ministério dos Assuntos Internos, e o neonazismo ganhou uma identidade corporativa na Ucrânia. O Batalhão Azov é conhecido pelos seus ataques contra russos, organizações comunistas e outras minorias étnicas no país.

 

Defensores de Azovstal

Com a operação especial levada a cabo pela Rússia, o Batalhão Azov, que se tornou conhecido pelos seus ataques a Donbass após o golpe de Estado de Maydan, em particular pelos seus assassinatos de civis, está preso em Mariupol, que era a sua região de base.

Os militantes Azov em Mariupol, que são referidos nos meios de comunicação ocidentais como “defensores de Azovstal” ou “heróis Azovstal”, têm uma longa história que remonta à era Maydan. Devido a ataques violentos contra a população e contra as forças anti-Maydan, os ultra-nacionalistas tinham tomado Mariupol.

 

Os comandantes Azov na Turquia

Entre os ‘comandantes Azov’ que vieram para a Turquia com a última troca de prisioneiros estão Denis Prokopenko, apelidado ‘Redis’, Sergiy Volinskiy, apelidado ‘Volina’, Svyatoslav Palamar, Denis Shlega e Oleg Homenko. O mais proeminente dos nomes trazidos para a Turquia é Denis Prokopenko.

Denis Prokopenko, um dos líderes Azov no país, é um dos líderes do Batalhão Azov, que se encontrava entre os “defensores de Azovstal” e que mais tarde se rendeu às forças russas.

Prokopenko já tinha sido anteriormente considerado digno da maior condecoração do país, o “Herói da Ucrânia”, pelo líder ucraniano Zelenskiy.

De acordo com The Globe, Prokopenko juntou-se ao Batalhão Azov em 2014 quando este foi formado. Segundo as suas declarações na imprensa ucraniana, Prokopenko disse que o seu avô “lutou contra os soviéticos” na guerra de Inverno entre a Finlândia e a Rússia e explicou as suas raízes anti-soviéticas com as seguintes palavras:

“Parece que estou a prosseguir a mesma guerra: a guerra contra o regime de ocupação do Kremlin. O meu avô tinha um ódio tão terrível ao comunismo, ao bolchevismo…”

O ‘licenciado em Linguística’ Prokopenko, que disse ser um “professor de inglês” antes de se juntar ao Batalhão Azov, foi também um membro activo do “Dynamo Ultras”, o grupo de fãs da equipa de futebol Dynamo Kyiv, que funciona como um recurso humano para organizações racistas como o Batalhão Azov na Ucrânia. Embora os antecedentes pré-2014 de Prokopenko não sejam bem conhecidos, abrigam várias dúvidas. Segundo a Life.ru, numa fuga de dados no Privatbank da Ucrânia, descobriu-se que Prokopenko relatou que tinha “o diploma do ensino secundário” quando se candidatou a um empréstimo.

O Dínamo Ultras celebrou a medalha estatal de Prokopenko com as palavras: “O comandante do lendário regimento, que também representa a nossa tribuna, recebeu este prémio mais alto pela sua coragem e acções eficazes na defesa da cidade de Mariupol”.

Prokopenko tem desempenhado funções especiais, incluindo execuções extrajudiciais, na linha da frente como “comandante” em conflitos desde 2014. Sabe-se também que Prokopenko foi responsável pelos famosos ataques de atiradores furtivos contra civis do Donbass.

Prokopenko rendeu-se às forças russas no dia 20 de Maio. O exército russo retirou Prokopenko da cidade com um veículo blindado especial para evitar tentativa de linchamento pelo povo de Mariupol.

Afirma-se que Prokopenko e outros líderes Azov trazidos à Turquia como parte da troca de prisioneiros “permanecerão na Turquia até ao fim da guerra”.

A troca de prisioneiros é, acima de tudo, uma questão de negociação para as partes executantes. E os prisioneiros incluídos na troca são definidos de acordo com esta negociação. No entanto, isto não altera as qualificações das pessoas envolvidas no intercâmbio. A este respeito, embora não haja qualquer problema legal, há um grande ponto de interrogação sobre o que irá acontecer no processo seguinte.

Embora a Turquia siga uma posição “equilibrada” na crise da Ucrânia, este equilíbrio pode muitas vezes evoluir para uma política de zig-zag. Se este desvio também acontecer em relação aos membros Azov na Turquia, prepare-se para ver as histórias heróicas dos Azovistas nos meios de comunicação turcos. Porque o registo dos meios de comunicação social centrais na Turquia sobre a Ucrânia e o Batalhão Azov não é limpo. A atitude da maioria dos meios de comunicação social turcos foi moldada à parte dos níveis políticos do governo. Na Turquia, a administração de extrema-direita na Ucrânia, a história nacionalista do país moldada pela colaboração nazi, e estruturas como Azov foram na sua maioria contadas como “histórias de heróis que defendem o seu país”. Nesta troca de prisioneiros, foi frequentemente referida nas notícias a história dos Defensores de Azovstal a respeito daqueles que vieram para a Turquia, em vez do nazismo, que formou a sua identidade.

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O autor: Erkin Öncan, jornalista turco, é editor de Sputnik News desde 2018.

 

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