Ainda a propósito da crise no Reino Unido – o modelo neoliberal em crise profunda — Um académico a fazer-se passar por um homem de ferro. Por Will Lloyd

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

6 m de leitura

Um académico a fazer-se passar por um homem de ferro

Kwasi Kwarteng parece estar a atravessar uma crise de identidade

 Por Will Lloyd

Publicado por  em 4 de Outubro de 2022 (original aqui)

 

O homem que mais suou em Birmingham. Crédito: Getty

 

Birmingham

“Já percebemos, estamos a ouvir”, anunciou Kwasi Kwarteng depois de ter decidido não reduzir os impostos dos mais altos rendimentos da Grã-Bretanha esta manhã. Reconhecendo, talvez, que o seu futuro como chanceler parecia menos do que certo, ele emitiu esta classe magistral de não apologia.

Após intervenções de Michael Gove, Julian Smith e Grant Schapps, o recuo fez  simplesmente levantar a questão: pode Kwarteng fazer aplicar políticas sem a aprovação de Michael Gove? Ou será que nós, pelo contrário, devemos acreditar em Jacob Rees-Mogg que, minutos antes de Kwarteng proferir o seu discurso, afirmou que a inversão de marcha “foi um som e uma fúria que não significam nada”?

O discurso em si não entrava em detalhes. Kwarteng não tinha anúncios a fazer, apenas um resumo berrado da estratégia económica do governo Truss à data.

Aqui estava a nova era, descrita exatamente nos mesmos termos que Kwarteng utilizou durante o seu “miniorçamento” a 23 de Setembro. A abordagem do Governo era sobre “crescimento económico”; o Governo iria “concentrar-se incessantemente no crescimento económico”; precisamos de um governo “empenhado no crescimento económico”. A elevada carga fiscal de 70 anos foi mencionada três vezes. Kwarteng fez o elogio do “monumental” pacote energético do governo. Este governo não era hesitante, era corajoso, inflexível!

A receção ao discurso no auditório foi morna. O fascínio deste Chanceler é que ele é um homem complicado, algo ansioso, terrivelmente isolado da realidade, que aspira a uma confiança racionalizada e relaxada que o ultrapassa. Kwarteng, escreveu Sasha Swire no seu Diário de uma esposa de um deputado, é “essencialmente um académico”.

E um académico acima da média. Ele fala cinco línguas. Escreve poesia em latim. É um autor de histórias respeitadas. Antes de se tornar ministro sob Theresa May, Kwarteng deu uma atenção superficial ao dia-a-dia político, em vez de viver em mais elevadas altitudes. Indiferente aos seus colegas e ao público, ele falou das condições das fábricas na China, do papel das crises económicas na história, e da esterilidade de debater se o “império britânico era uma coisa boa ou má”. Este Kwarteng tem sido descrito de várias maneiras como “brilhante”, “muito brilhante” e “simplesmente excepcionalmente inteligente”.

Kwarteng, o académico, cauteloso e cerebral, já não o é mais. Em vez disso, ele segue o caminho de Margaret Thatcher. Todo o caos que  Kwarteng causou nas últimas semanas tem sido um ato de homenagem. No Julgamento de Thatcher: Seis Meses Que Definiram Um Líder, o seu pequeno livro sobre 1981, o pior ano de Thatcher no cargo, o caos – classificações terríveis nas sondagens, economistas furiosos, e orçamentos impopulares – é considerado um julgamento necessário. Em 1983, Thatcher tinha uma maioria histórica. Kwarteng pensou que tinha um modelo.

Não foi só este discurso que foi precedido pela reviravolta desta manhã. Não foi apenas porque sentiu a necessidade de gritar tudo, como se estivesse a parar um táxi. Foi, acima de tudo, o deslize freudiano. “Conheço o plano”, disse Kwarteng sobre o seu mini-orçamento, “foi apresentado apenas há 10 anos – eh, há 10 dias”. De aparência um pouco desajeitada e pessimista escondia um homem que tinha vivido os últimos dez dias como uma espécie de agonia. Como dez anos dolorosos.

Uma fonte que viu o Chanceler beber cocktails com banqueiros no dia do ‘evento fiscal’ disse ao The Times que Kwarteng parecia surpreendido com a reação dos mercados. “Penso que talvez ele não o tenha previsto”. Será que os financeiros da City alguma vez rotularam Thatcher, como alegadamente fizeram com Kwarteng, de “idiota útil“?

Nada disso fazia parte do plano. O Chanceler é um académico a fazer-se passar por um homem de ferro. Ele desperdiçou o seu maior trunfo – a ponderação. Gritar as suas políticas económicas não as tornará mais credíveis, nem para a City, nem para o público. Não há nenhuma guerra das Malvinas que venha salvá-lo a ele e a Truss, como aconteceu com Thatcher depois de 1981. “PRECISAMOS realmente de fazer as coisas de forma diferente”, disse ele em tom bem alto. Ele já o fez. A probabilidade é que Kwarteng volte a escrever livros antes que ele, ou o país, possa ver se a sua abordagem diferente é tão bem sucedida quanto o foi a abordagem de Thatcher.

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Alguns comentários:

De Hugh Bryant

O remédio para as catástrofes do neoliberalismo não é mais neoliberalismo. O país precisa de uma reforma de longo alcance da educação, dos cuidados de saúde e do mercado de habitação e de um fim à imigração em massa.

O único político que parece compreender a realidade da situação é Kemi Badenoch.

De Geoffrey Hicking

Então que danos causou realmente o Sr. Kwarteng? Um imposto pode ser suprimido. É mesmo isso? Será que todos os meios de comunicação social estão chateados com isso?

De Samir Iker (resposta a Geoffrey Hicking)

O corte de impostos para os mais ricos não foi uma jogada inteligente politicamente quando tantas pessoas de classe baixa e média estão perante dificuldades financeiras. O aspeto desta história é simplesmente horrível.

Pode ter feito sentido do ponto de vista económico, se acreditarmos no efeito trickle-down, isto é, que favorecer os ricos acaba por ajudar estar a ajudar os pobres! suponho.

Mas a maior questão é que o público britânico tem estado irritado com o conceito desta mítica classe “rica”, com dinheiro em quantidade inesgotável e que supostamente está a roubar o resto. Se ao menos lhes pudéssemos sacar alguns milhares de milhões, isso resolveria todos os nossos problemas, pagaria o SNS, etc. E num tal ambiente, baixar a taxa de impostos para os que auferem rendimentos elevados é como louvar na URSS a empresa privada ou elogiar na China as políticas económicas de Taiwan. Muito rapidamente verá a multidão atrás de nós para nos linchar.

(…)

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O autor: Will Lloyd é um redator de Unherd.

 

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