A Guerra na Ucrânia — Sun Tzu entra num Bar de Kherson…  Por Pepe Escobar

Seleção e tradução de Francisco Tavares

8 min de leitura

Sun Tzu entra num Bar de Kherson…

 Por Pepe Escobar

Publicado por  em 10 de Novembro de 2022 (original aqui)

 

                                 Foto: Social Media

 

Com acordo ou sem acordo, o General Inverno está a chegar – pronto para entreter o seu convidado de honra Sun Tzu [1] com tantos pratos novos à mesa de jantar.

 

O anúncio da retirada de Kherson pode ter assinalado um dos dias mais sombrios da Federação Russa desde 1991.

Deixar a margem direita do Dnieper para estabelecer uma linha de defesa na margem esquerda poderá ter todo o sentido do ponto de vista militar. O próprio General Armageddon [2], desde o seu primeiro dia de trabalho, tinha insinuado que isto poderia ser inevitável.

Tal como está no tabuleiro de xadrez, Kherson está no lado “errado” do Dnieper. Todos os residentes da região administrativa de Kherson – 115.000 pessoas no total – que queriam ser deslocados para latitudes mais seguras, foram evacuados da margem direita.

O General Armageddon sabia que isso era inevitável por várias razões: nenhuma mobilização após os planos iniciais da SMO (operação militar especial) se terem desvanecido; destruição de pontes estratégicas que cruzam o Dnieper – completada com uma metódica destruição ucraniana durante três meses de pontes, ferries, pontões e cais; nenhuma segunda ponte a norte de Kherson ou a oeste (em direcção a Odessa ou Nikolaev) para conduzir uma ofensiva.

E depois, a razão mais importante: o armamento massivo juntamente com a condução de facto da guerra pela NATO traduziu-se numa enorme superioridade ocidental em reconhecimento, comunicações e comando e controlo.

No final, a retirada de Kherson pode ser uma perda táctica relativamente menor. No entanto, politicamente, é um desastre sem paliativos, um constrangimento devastador.

Kherson é uma cidade russa. Os russos perderam – mesmo que temporariamente – a capital de um território novo adstrito à Federação. A opinião pública russa terá tremendos problemas para assimilar a notícia.

A lista de pontos negativos é considerável. As forças de Kiev asseguram o seu flanco e podem libertar forças para ir contra o Donbass. O armamento da Ucrânia porparte do Ocidente colectivo recebe um grande impulso. Os HIMARS [lançadores de mísseis de elevada mobilidade] podem agora potencialmente atacar alvos na Crimeia.

As perspectivas são terríveis. A imagem da Rússia no Sul Global é gravemente manchada; afinal de contas, este movimento equivale a abandonar território russo – enquanto os crimes de guerra em série ucranianos desaparecem instantaneamente da grande “narrativa”.

No mínimo, os russos há muito tempo atrás deveriam ter reforçado a sua grande vantagem estratégica de cabeça-de-ponte no lado ocidental do Dnieper para que se pudesse aguentar – a menos que houvesse uma inundação amplamente prevista da barragem de Kakhovka. No entanto, os russos também ignoraram a ameaça de bombardeamento da barragem durante meses. Isso significa um planeamento terrível.

Agora, as forças russas terão de conquistar Kherson de novo. E em paralelo estabilizar as linhas da frente; traçar fronteiras definitivas; e depois esforçar-se por “desmilitarizar” as ofensivas ucranianas para sempre, quer através de negociações ou de bombardeamentos intensivos e progressivos.

É bastante revelador que um grande número de especialistas de informação da NATO, desde analistas a generais reformados, desconfiem da jogada do General Armageddon: vêem-na como uma elaborada armadilha, ou como um analista militar francês o disse, “uma enorme operação de engano”. O clássico Sun Tzu. Isso foi devidamente incorporado na narrativa oficial ucraniana.

Assim, para citar Twin Peaks, esse clássico subversivo da cultura pop americana, “as corujas não são o que parecem”. Se for esse o caso, o General Armageddon estaria a procurar sobrecarregar severamente as linhas de abastecimento ucranianas; seduzi-las para que se exponham; e depois envolver-se num massivo tiro ao alvo.

Portanto, ou se trata de Sun Tzu; ou um acordo está em gestação, coincidindo com o G20 na próxima semana em Bali.

 

A arte de negociar

Bem, algum tipo de acordo parece ter sido feito entre Jake Sullivan [conselheiro de segurança nacional dos EUA] e Patrushev [secretário do conselho de segurança da Rússia].

Ninguém conhece realmente os detalhes, mesmo aqueles com acesso aos espalhafatosos informadores da 5ª Coluna em Kiev. Mas sim – o acordo parece incluir Kherson. A Rússia manteria o Donbass mas não avançaria em direcção a Kharkov e Odessa. E a expansão da NATO seria definitivamente congelada. Um acordo minimalista.

Isso explicaria porque razão Patrushev pôde embarcar num avião para Teerão em simultâneo com o anúncio da retirada de Kherson, e ocupar-se, bastante descontraído, de negócios de parceria estratégica muito importantes com Ali Shamkhani, Secretário do Supremo Conselho de Segurança Nacional do Irão.

O acordo pode também ter sido o “segredo” incorporado no anúncio de Maria Zakharova de que “estamos prontos para negociações”.

Os russos deixarão a margem do rio Dnieper numa retirada militar controlada. Isso não seria possível sem negociações militares geridas entre militares.

Estas negociações de retaguarda estão a decorrer há semanas. O mensageiro é a Arábia Saudita. O objectivo dos EUA, a curto prazo, seria uma espécie de acordo de Minsk 3 – com Istambul/Riyadh associadas.

Ninguém está a prestar a mínima atenção ao palhaço da cocaína Zelensky. Sullivan foi a Kiev para apresentar uma espécie de facto consumado.

O Dnieper será – em tese – a linha de fronteira estabelecida e negociada.

Kiev teria de engolir uma linha de contacto congelada em Zaporizhye, Donetsk e Lugansk – com Kiev a receber electricidade de Zaporozhye, deixando assim de bombardear as suas infra-estruturas.

Os EUA concederiam um empréstimo de 50 mil milhões de dólares mais parte dos bens russos confiscados – ou seja, roubados – para “reconstruir” a Ucrânia. Kiev receberia sistemas modernos de defesa aérea.

Não há dúvida de que Moscovo não concordará com nenhuma destas disposições.

Note-se que tudo isto coincide com o resultado das eleições nos EUA – onde os Democratas não perderam exactamente.

Entretanto, a Rússia está a acumular cada vez mais ganhos na batalha por Bakhmut [cidade ucraniana da região administrativa de Donetsk].

Não há quaisquer ilusões em Moscovo de que este cripto-Minsk 3 seria respeitado pelo Império dito “não capaz de chegar a acordo”.

Jake Sullivan é um advogado de 45 anos de idade com zero antecedentes em estratégia e “experiência” que se resume à campanha [presidencial] de Hillary Clinton. Patrushev pode comê-lo ao pequeno-almoço, almoço, jantar e lanche da noite – e vagamente “concordar” com qualquer coisa.

Então, porque estão os americanos desesperados por oferecer um acordo? Porque podem estar a sentir que a próxima jogada russa com a chegada do General Inverno deveria ser capaz de vencer a guerra de forma conclusiva nos termos de Moscovo. Isso incluiria o encerramento da fronteira polaca através de um longo movimento de seta da Bielorrússia para baixo. Com as linhas de abastecimento de armas cortadas, o destino de Kiev fica selado.

Com acordo ou sem acordo, o General Inverno está a chegar – pronto para entreter o seu convidado de honra Sun Tzu com tantos pratos novos à sua mesa de jantar.

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Notas

[1] N.T. Sun Tzu [544 a.c. – 496 a.c.], foi um general, estratega militar e filósofo da antiga China. Sun Wu de nome de nascimento, Sun Tsu é um título honorífico que significa “Mestre Sun”. É considerado tradicional mente o autor A arte da guerra, influente tratado sobre estratégia militar (em Wikipedia, aqui).

[2] N.T. Nome pelo qual é conhecido Serguei Surovikin, o comandante-chefe do Exército russo.

 


O autor: Pepe Escobar [1954-] é um jornalista e analista geopolítico brasileiro. A sua coluna “The Roving Eye” para o Asia Times discute regularmente a “competição multinacional pelo domínio sobre o Médio Oriente e a Ásia Central”.

Em 2011, o jornalista Arnaud de Borchgrave descreveu Escobar como “bem conhecido por contar histórias no mundo árabe e muçulmano”. Em Agosto de 2000, os Talibãs prenderam Escobar e dois outros jornalistas e confiscaram o seu filme, acusando-os de tirarem fotografias num jogo de futebol. Em 30 de Agosto de 2001, a sua coluna no The Asia Times alertou para o perigo de Osama bin Laden numa peça que tem sido chamada “profética. A entrevista de Escobar de 2001 com o principal comandante da oposição do Afeganistão contra os Taliban foi também amplamente citada. A sua peça de 26 de Outubro de 2001 para o Asia Times, “Anatomia de uma ONG ‘terrorista’”, descreveu a história e os métodos do Al Rashid Trust.

“Pipelineistão” é um termo cunhado por Escobar para descrever “a vasta rede de oleodutos e gasodutos que atravessam os potenciais campos de batalha imperiais do planeta”, particularmente na Ásia Central. Como Escobar argumentou num artigo de 2009 publicado pela CBS News, a exploração de condutas de energia das nações ricas em energia perto do Mar Cáspio permitiria à Europa estar menos dependente do gás natural que actualmente recebe da Rússia, e ajudaria potencialmente o Ocidente a depender menos da OPEP. Esta situação resulta num conflito de interesses internacional sobre a região. Escobar afirmou que a guerra do Ocidente contra o terrorismo é “sempre por causa da energia”.

De acordo com Arnaud De Borchgrave, durante a Guerra Civil Líbia em 2011, Escobar escreveu uma peça “desvendando” os antecedentes de Abdelhakim Belhaj, cuja liderança militar contra Kadhafi estava a ser auxiliada pela NATO, e que tinha treinado com a Al-Qaeda no Afeganistão. Segundo a história de Escobar, publicada pelo Asia Times a 30 de Agosto de 2011, os antecedentes de Belhaj eram bem conhecidos dos serviços secretos ocidentais, mas tinham sido ocultados ao público. Entrevistado sobre a sua história pela Rádio Nova Zelândia, Escobar avisou que Belhaj e os seus colaboradores mais próximos eram fundamentalistas cujo objectivo era impor a lei islâmica uma vez que derrotassem Kadhafi.

O Global Engagement Center (GEC) do Departamento de Estado dos EUA identificou vários pontos de venda que publicam ou republicam trabalhos de Escobar como sendo utilizados pela Rússia para propaganda e desinformação. Em 2020, o GEC declarou que tanto a Fundação de Cultura Estratégica (SCF) como a Global Research, duas revistas online onde o trabalho de Escobar tem aparecido, actuaram como sítios de propaganda pró-russa. Escobar tem sido também comentador de RT e Sputnik News; ambos os pontos de venda foram destacados num relatório de 2022 da GEC como membros do “ecossistema de desinformação e propaganda da Rússia”. Em 2012, Jesse Zwick na The New Republic perguntou a Escobar porque estava disposto a trabalhar com a RT; Escobar respondeu: “Eu conhecia o envolvimento do Kremlin, mas disse, porque não usá-lo? Passados alguns meses, fiquei muito impressionado com a audiência americana. Há dezenas de milhares de espectadores. Uma história muito simples pode obter 20.000 visitas no YouTube. O feedback foi enorme”.

(fonte, Wikipedia, ver aqui)

 

 

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