A Guerra na Ucrânia — Uma emenda do Congresso abre as portas aos especuladores da guerra e a uma grande guerra terrestre contra a Rússia. Por Medea Benjamin e Nicolas J.S. Davies

Seleção e tradução de Francisco Tavares

8 min de leitura

Uma emenda do Congresso abre as portas aos especuladores da guerra e a uma grande guerra terrestre contra a Rússia

Por  Medea Benjamin e  Nicolas J.S. Davies

Publicado por  em 14 de Novembro de 2022 (original aqui)

 

Os senadores Inhofe e Reed da Comissão dos Serviços Armados do Senado Crédito fotográfico: AP

 

Se os poderosos líderes da Comissão de Serviços Armados do Senado, os Senadores Jack Reed (D) e Jim Inhofe (R), se saírem com a sua, o Congresso irá em breve invocar poderes de emergência em tempo de guerra para acumular ainda mais arsenais de armas do Pentágono. A emenda foi supostamente concebida para facilitar a reconstituição das armas que os Estados Unidos enviaram para a Ucrânia, mas um olhar sobre a lista de desejos contemplada nesta emenda revela uma história diferente.

A ideia de Reed e Inhofe é incluir a sua emenda em tempo de guerra no na lei FY2023 National Defense Appropriation (NDAA) que será aprovada durante a sessão dita de fim de mandato antes do final do ano. A emenda foi aprovada pela Comissão de Serviços Armados em meados de Outubro e, se se tornar lei, o Departamento de Defesa será autorizado a aprovar contratos plurianuais e adjudicar contratos não competitivos aos fabricantes de armas relacionadas com a Ucrânia.

Se a emenda Reed/Inhofe se destina realmente a repor os fornecimentos do Pentágono, então porque é que as quantidades na sua lista de desejos ultrapassam largamente as enviadas para a Ucrânia?

Vamos fazer a comparação:

– A actual estrela da ajuda militar dos EUA à Ucrânia é o sistema de foguete HIMARS da Lockheed Martin, a mesma arma que os fuzileiros norte-americanos usaram para ajudar a reduzir a escombros em 2017 grande parte de Mosul, a segunda maior cidade do Iraque. Os EUA enviaram apenas 38 sistemas HIMARS para a Ucrânia, mas os senadores Reed e Inhofe planeiam “repôr” 700 deles, com 100.000 foguetes, o que poderá custar até 4 mil milhões de dólares.

– Outra arma de artilharia fornecida à Ucrânia é o canhão de longo alcance [howitzer] M777 155 mm. Para “substituir” os 142 M777 enviados para a Ucrânia, os senadores planeiam encomendar 1.000 deles, a um custo estimado de 3,7 mil milhões de dólares, à BAE Systems.

– Os lançadores HIMARS também podem disparar os mísseis MGM-140 ATACMS da Lockheed Martin de longo alcance (até 190 milhas), que os Estados Unidos não enviaram para a Ucrânia. De facto, os EUA só dispararam 560 deles, na sua maioria no Iraque em 2003. O “Míssil de Ataque de Precisão” de alcance ainda mais longo, anteriormente proibido ao abrigo do Tratado INF ao qual Trump renunciou, começará a substituir o ATACMS em 2023, mas a Emenda Reed-Inhofe compraria 6.000 ATACMS, 10 vezes mais do que os EUA alguma vez utilizaram, a um custo estimado de 600 milhões de dólares.

– Reed e Inhofe planeiam comprar 20.000 mísseis antiaéreos Stinger à Raytheon. Mas o Congresso já gastou $340 milhões por 2.800 Stingers para substituir os 1.400 enviados para a Ucrânia. A emenda de Reed e Inhofe irá “reconstituir” as existências do Pentágono 14 vezes, o que poderá custar 2,4 mil milhões de dólares.

– Os Estados Unidos forneceram à Ucrânia apenas dois sistemas de mísseis anti-navio Harpoon – já uma escalada provocadora – mas a emenda inclui 1.000 mísseis Boeing Harpoon (a cerca de $1,4 mil milhões) e 800 novos mísseis Kongsberg Naval Strike Missiles (cerca de $1,8 mil milhões), a substituição dos Harpoon pelo Pentágono.

– O sistema de defesa aérea Patriot é outra arma que os EUA não enviaram para a Ucrânia, porque cada sistema pode custar um bilião de dólares e o curso básico de formação de técnicos para a sua manutenção e reparação leva mais de um ano a completar. No entanto, a lista de desejos Inhofe-Reed inclui 10.000 mísseis Patriot, mais os lançadores, que podem somar até 30 mil milhões de dólares.

 

ATACMS, Harpoons e Stingers são todas armas que o Pentágono já estava a eliminar gradualmente, então porquê gastar milhares de milhões de dólares para comprar milhares delas agora? De que se trata realmente tudo isto? Será esta emenda um exemplo particularmente flagrante de exploração da guerra pelo complexo militar-industrial-Congressional? Ou será que os Estados Unidos estão realmente a preparar-se para travar uma grande guerra terrestre contra a Rússia?

O nosso melhor juízo é que ambas são verdadeiras.

Olhando para a lista de armas, o analista militar e coronel da Marinha aposentado Mark Cancian observou: “Isto não está a substituir o que demos [à Ucrânia]. É a construção de reservas para uma grande guerra terrestre [com a Rússia] no futuro. Esta não é a lista que se utilizaria para a China. Para a China, teríamos uma lista muito diferente“.

O Presidente Biden diz que não enviará tropas dos EUA para combater a Rússia, porque isso seria a Terceira Guerra Mundial. Mas quanto mais tempo a guerra durar e mais se intensificar, mais se torna claro que as forças dos EUA estão directamente envolvidas em muitos aspectos da guerra: ajudando a planear as operações ucranianas; fornecendo informações por satélite; travando guerras cibernéticas; e operando dissimuladamente dentro da Ucrânia como forças de operações especiais e paramilitares da CIA. Agora a Rússia acusou as forças de operações especiais britânicas de terem participado diretamente num ataque com drones marítimos contra Sevastopol e na destruição dos gasodutos Nord Stream.

Como o envolvimento dos EUA na guerra aumentou, apesar das promessas quebradas de Biden, o Pentágono deve ter elaborado planos de contingência para uma guerra em larga escala entre os Estados Unidos e a Rússia. Se esses planos forem alguma vez executados, e se não desencadearem imediatamente uma guerra nuclear mundial, exigirão grandes quantidades de armas específicas, e esse é o objectivo dos arsenais de Reed-Inhofe.

Ao mesmo tempo, a emenda parece responder às queixas dos fabricantes de armas de que o Pentágono estava “a avançar demasiado lentamente” no gasto das vastas somas apropriadas para a Ucrânia. Embora tenham sido atribuídos mais de 20 mil milhões de dólares para armas, os contratos para a compra efectiva de armas para a Ucrânia e para a substituição das que foram enviadas até à data totalizavam apenas 2,7 mil milhões de dólares no início de Novembro.

Assim, o esperado maná de vendas de armas ainda não se tinha materializado, e os fabricantes de armas estavam a ficar impacientes. Com o resto do mundo a exigir cada vez mais negociações diplomáticas, se o Congresso não se mexesse, a guerra poderia acabar antes que o tão esperado jackpot dos fabricantes de armas chegasse.

Mark Cancian explicou à DefenseNews: “Temos ouvido da indústria, quando falamos com eles sobre este assunto, que querem ver um sinal de procura”.

Quando a Emenda Reed-Inhofe foi adotada pela comissão em meados de Outubro, foi claramente o “sinal de procura” que os comerciantes da morte procuravam. Os preços das acções da Lockheed Martin, Northrop Grumman e General Dynamics descolaram como mísseis antiaéreos, explodindo para máximos de sempre no final do mês.

Julia Gledhill, uma analista do Project on Government Oversight, criticou as disposições de emergência em tempo de guerra na emenda, dizendo que “deterioram ainda mais as já fracas barreiras de proteção existentes para evitar a manipulação dos preços pelas empresas militares”.

Abrir as portas a contratos militares plurianuais, não competitivos e multi-bilionários mostra como o povo americano está preso numa espiral viciosa de guerra e de despesas militares. Cada nova guerra torna-se um pretexto para novos aumentos das despesas militares, grande parte delas sem relação com a guerra em curso a qual fornece cobertura para o aumento. O analista do orçamento militar Carl Conetta demonstrou (ver Sumário Executivo) em 2010, após anos de guerra no Afeganistão e Iraque, que “só essas operações representaram 52% do aumento” das despesas militares dos EUA durante esse período.

Andrew Lautz da União Nacional dos Contribuintes calcula agora que o orçamento de base do Pentágono excederá $1 trilião por ano até 2027, cinco anos antes do previsto pelo Gabinete do Orçamento do Congresso. Mas se tivermos em conta pelo menos 230 mil milhões de dólares por ano em custos militares nos orçamentos de outros departamentos, como Energia (para armas nucleares), Assuntos dos Veteranos, Segurança Interna, Justiça (cibersegurança do FBI), e Estado, as despesas de insegurança nacional já atingiram a marca dos triliões de dólares por ano, engolindo dois terços das despesas discricionárias anuais.

O investimento exorbitante da América em cada nova geração de armas torna quase impossível aos políticos de qualquer dos partidos reconhecer, e muito menos admitir em público, que as armas e guerras americanas têm sido a causa de muitos dos problemas do mundo, não a solução, e que também não podem resolver a última crise de política externa.

Os senadores Reed e Inhofe defenderão que a sua emenda é um passo prudente para dissuadir e preparar-se para uma escalada russa da guerra, mas a espiral de escalada em que estamos presos não é unilateral. É o resultado de acções de escalada por ambos os lados, e a enorme acumulação de armas autorizada por esta emenda é uma escalada perigosamente provocadora pelo lado americano que aumentará o perigo da Guerra Mundial que o Presidente Biden prometeu evitar

Após as guerras catastróficas e a explosão dos orçamentos militares dos EUA nos últimos 25 anos, já deveríamos estar concientes em relação à escalada da espiral viciosa em que estamos apanhados. E depois de termos flertado com o Armagedão durante 45 anos na última Guerra Fria, devemos também estar conscientes do perigo existencial de nos envolvermos neste tipo de atitude temerária com a Rússia armada com armas nucleares. Portanto, se formos sensatos, opor-nos-emos à Emenda Reed/Inhofe.

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Os autores:

Medea Benjamin [1952-], do Partido Verde dos EUA, é cofundadora de CODEPINK for Peace e autora de vários livros, nomeadamente Inside Iran: The Real History and Politics of the Islamic Republic of Iran. É especialista em saúde pública e economia, ativista política e escritora estado-unidense. Liderou os protestos contra o governo de George Bush pela guerra no Iraque. É co-autora com Nicolas Davies de War in Ukraine: MakingSense of a Senseless Conflict.

Nicolas J.S. Davies [1953-], jornalista independente, investigador em CODEPINK e autor de Blood on Our Hands: the American Invasion and Destruction of Iraq. É co-autor com Medea Benjamin de War in Ukraine: MakingSense of a Senseless Conflict.

 

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