A Guerra na Ucrânia — Srebrenica na Ucrânia. Por Stephen Karganovic

Seleção e tradução de Francisco Tavares

4 min de leitura

Srebrenica na Ucrânia

 Por Stephen Karganovic

Publicado por  em 2 de Dezembro de 2022 (original aqui)

 

                                      Foto: Reuters/Gleb Garanich

 

Nem mesmo o The New York Times foi capaz de dar a volta ao recente assassinato macabro de prisioneiros russos às mãos das forças do regime nazi de Kiev.

Claro, não é razoável esperar honestidade incondicional da parte do “jornal oficial” do establishment, nesta ou em qualquer outra situação ardilosa comparável. Não que, com o vídeo abundante e outras provas saturando a Internet, haja a mínima dúvida de que (1) um crime horrendo em violação das leis e costumes de guerra foi cometido contra prisioneiros russos desarmados e fora de combate, e (2) que os perpetradores eram membros de formações armadas subordinadas ao regime de Kiev o que, de acordo com as normas promulgadas pelo Tribunal Penal para a ex-Jugoslávia (ICTY) em Haia, torna o próprio regime cúmplice na conduta criminosa em violação do direito internacional.

Para diminuir a gravidade óbvia do crime o The Times usa palavras evasivas para se referir a ele, tais como “sugerir” e “aparecer”, afirmando mesmo sem vergonha que as provas visuais incontestáveis podem ter resultado em alguma incerteza e ter “acendido um debate” de certa forma. Calibra cuidadosamente a sua retórica escorregadia para suavizar o impacto moral da divulgação, porque os editores sabem que a óptica do que aconteceu (não importa a moralidade, com a qual não se importam) é devastadora para a reputação dos mandatários ucranianos do Ocidente colectivo. No entanto, o Times reconhece que “os vídeos, cuja credibilidade estabelecemos, representam uma oportunidade rara de ver algumas das situações horríveis da guerra, mas não mostram porque é que os soldados russos foram mortos”. Como se a identificação da razão dos assassinatos fizesse alguma diferença, dada a ausência de dúvida de que homens desarmados que não representavam perigo para os seus captores foram sumariamente executados perante a câmara, em contravenção às convenções de Genebra.

Com certeza, uma admissão tímida não é o mesmo que uma condenação indignada e sincera, de que não houve nenhuma no Ocidente, nem é o mesmo que a determinação pública de levar os perpetradores (e isso significa muito mais do que apenas os executores directos vistos no vídeo) à justiça, bem como de cortar o apoio abundante que têm recebido para lhes permitir implementar toda a gama dos seus desígnios criminosos. O paralelo óbvio entre a conduta dos lacaios criminosos do Ocidente colectivo na Ucrânia e os crimes imputados aos sérvios durante a guerra na Bósnia ainda não foi explicitamente assinalado e as suas manifestas implicações aguardam ser retiradas pelas autoridades morais da autoproclamada “comunidade internacional”. Isto porque os gritos condenatórios que se ouvem instantaneamente à mais pequena infracção de actores sem licença são silenciados ou desaparecem por completo quando são cometidos ultrajes pelos protegidos criminosos licenciados do Ocidente colectivo.

Mais ou menos ao mesmo tempo que os prisioneiros de guerra russos eram sumariamente assassinados e os cidadãos de Kherson que cometeram o erro de ficar para trás eram publicamente saqueados e torturados no estilo diabólico que é a marca registada dos Ukronazis, o desavergonhado Parlamento Europeu adoptava uma resolução hipócrita citando a Rússia como um “patrocinador estatal do terrorismo”. A essência da resolução é a exigência da criação de um tribunal internacional especial para punir aquilo a que chama a agressão da Rússia contra a Ucrânia. Mas a lista de exigências de virtude vai consideravelmente mais longe do que isso e inclui o apelo aos estados membros da UE para “fecharem e proibirem as instituições estatais russas, tais como os Centros Russos de Ciência e Cultura e as organizações e associações da diáspora russa”.

Será que a Igreja Ortodoxa Russa fará a lista negra da UE? Deveria certamente, dado o plano recentemente apresentado de banir o Patriarca Kirill do território europeu devido à sua posição politicamente incorrecta sobre a Operação Militar Especial.

Presumivelmente, se esta resolução for implementada, as únicas instituições “russas” autorizadas a permanecer abertas nas “sociedades abertas” do Ocidente serão as dirigidas por “dissidentes” bem versados na escrita russofóbica e desejosos de a seguir servilmente.

Como o regime Ukronazi na Ucrânia comete mais ultrajes que mostram inequivocamente a sua genuína e sub-humana natureza, paradoxalmente a sua aliança com as sociedades ocidentais moribundas que o sustentam parece cada vez mais natural e normal. O facto é que são espíritos afins que trabalham na realização de objectivos abrangentes praticamente idênticos. O mundo neonazi contemplado pelo batalhão Azov não se distingue substancialmente do mundo do World Economic Forum que Klaus Schwab (aliás, ele próprio descendente de um apoiante de alto nível do regime hitleriano) e o seu abominável acólito Harari (aqui) conspiram assiduamente para impor.

É importante ter em mente que estes indivíduos, separados por diferenças ideológicas que são meramente cosméticas, estão infalivelmente unidos em todas as questões relacionadas com a realização dos seus objectivos práticos comuns. Eles não têm remorsos, empatia, ou mesmo um traço mal detectável da humanidade comum. Destruíram completa e desafiantemente o património moral que costumava definir a Europa e a Civilização Ocidental. Bem antes do início do actual colapso moral que Dostoevsky previu com precisão, o canibalismo é agora tudo o que resta, ou será em breve.

O assassinato, a sangue frio, de prisioneiros russos é um sinal do seu [do Parlamento Europeu], e dos seus subordinados Ukronazis, desprezo pela vida e dignidade humanas. A resolução viscosa do seu parlamento que procura expulsar do seu seio a única cultura remanescente, e a herança espiritual que a moldou, a qual ainda oferece ao cadáver a esperança de ressurreição, é o reflexo da sua autodestruição terminal e da sua obstinada apostasia.

O que hoje passa com a civilização ocidental é que está numa situação desastrosa e se Gandhi falasse agora sobre esse assunto iria sem dúvida alterar a sua avaliação prévia. Ele diria que já nem sequer é uma boa ideia.

É inútil estigmatizar e lamentar a maldade, a hipocrisia e a malícia impotente de um mundo em declínio que já não se assemelha a uma civilização coerente. Basta deixá-lo na sua insanidade e desligar-se dele.

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O autor: Stephen Karganovic é o Presidente do Projeto Histórico de Srebrenica. Advogado, participou em julgamentos do Tribunal de Haia (2001-2008), também conhecido como Tribunal da Nato. É co-autor de Rethinking Srebrenica, ed. Unwritten History, 2013.

 

 

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