As pressões exercidas sobre a sociedade, provenientes dos meios mais diversos, foram objecto de estudo e análise de um dos mais importantes sociólogos do séc. XX, o francês Pierre Bourdieu. E dizia o sociólogo francês que o domínio de alguma comunidade ou sociedade, obvia e culturalmente diversificadas, exercida por uma qualquer minoria, cuja concepção do mundo e explicações, valores, crenças e moral, transformadas em ideologia dominante e universal, não passa de ‘violência simbólica’, mas a que serve para ‘justificar’ o domínio social, político e económico sobre os demais, apresentando-o como natural e imanente, sem poder deixar de ser aceite por todos.
Uma situação que os mais antigos conhecem por terem aguentado tal ‘violência’, e os mais lidos e informados, por saberem bem ser esse o caminho lógico, natural também, da resignação ou da revolta.
George Orwell e Aldous Huxley, já mostravam nos irrecusáveis “1984” e “Admirável mundo novo”, como o domínio da linguagem pode subjugar a mente humana pois, garantia o filósofo Jacques Derrida, ‘A correção das visões do mundo, introduz na minha casa o estranho e o mundial, valendo-se do processo tecnológico, menorizando a linguagem e a singularidade nacional’.
Aliás Pierre Bourdieu refere como através do uso do sensacional e espectacular pelos meios de comunicação, porque ‘Se apela à dramatização e ao sentido duplo: mostra-se um acontecimento em imagens, exagerando a importância, a gravidade e o carácter dramático e trágico, pois o que interessa aos subúrbios são os conflitos, e fazem o mesmo trabalho com as palavras, porque com palavras vulgares “não se chocam os burgueses”’, pormenoriza bem o sociólogo.
Não se pode esquecer que neste mundo ocidental nosso, tanto os cristãos como judeus ou muçulmanos, fazem parte da tradição abraâmica e do ‘Génesis’, onde está explicado como Deus expulsou Adão e Eva do Paraíso, mas deu àquele o domínio sobre todas as criaturas vivas da Terra. Continuamos a viver debaixo do poder de tal desígnio, mas tudo leva a crer que, tomámos o ‘freio nos dentes’ e como ‘A visão do mundo e todas as políticas da era do progresso, nos estão a conduzir à extinção; entrámos na era da terceira revolução industrial e chegar aqui, supõe um enorme problema por culpa dos velhos interesses, a indústria dos combustíveis fósseis e dos políticos que negam toda e qualquer mudança’, afirma o escritor Jeremy Rifkin, conferencista e presidente da Foundation on Economic Trends, em Washington.
A este propósito, o secretário geral da ONU, afirmou no passado dia 6, ‘As corporações multinacionais estão a encher as suas contas bancárias, enquanto esvaziam o nosso mundo das riquezas naturais. Os ecossistemas converteram-se em brinquedos de lucros. Com o apetite sem fim por um crescimento económico desigual e sem controlo, a humanidade converteu-se numa arma de destruição massiva. Estamos a tratar a natureza como uma retrete’.
Também o escritor e colunista Juan José Millás garante, numa das suas crónicas que ‘A economia e as finanças são uma questão de fé, uma questão de confiança, pois o Corte Inglês só existe por acreditarmos nele, porque se deixássemos de crer duraria uma ou duas semanas, mas ao mesmo tempo, deixamos de acreditar no “vírus” e ele continua aí, por essa ser a diferença entre as realidades reais e as imaginadas’.
Também há uma realidade delirante, mas real, acrescenta Millás. ‘Se deixarmos de acreditar na Renault, ela desaparece em quatro dias, porque as pessoas não comprariam mais automóveis. Essa é a diferença entre um delírio consensual, a que chamamos realidade e o delírio real a que chamamos pandemia’.
E, até por estarmos numa época em que os Ronaldos deste mundo ocupam agora as páginas de todos os media para ‘chocarem os burgueses’, recuperando a expressão de Pierre Bourdieu, convém lembrar que ‘O futebol sintetiza muito bem a dialética entre identidade nacional, globalização e xenofobia dos dias de hoje. Os clubes viraram entidades transnacionais, empreendimentos globais’ nas palavras do enorme historiador que foi Eric Hobsbawn, numa lógica transnacional que desvirtuou o genuíno valor desportivo do futebol, convertido num enorme mercado de emoções, que podem cair na posse de estados que se sentam em sofás de petrodólares e penetram em várias competições europeias, com capitais inalcançáveis para clubes históricos mas com recursos bem mais modestos.
Mudando de assunto, mas continuando o tema, também para Viriato Soromenho Marques, em crónica de Novembro último, ‘As próximas etapas da autoestrada do inferno já estão identificadas: primeiro, esburacar a litosfera e biosfera em busca de metais raros para a “transição energética“; depois, tentar travar o colapso ambiental com o aventureirismo febril da geoengenharia. Para evitar esse destino, teríamos primeiro de nos cobrir de vergonha: pensámos a nossa identidade como livres filhos de Deus e, na verdade, comportamo-nos de acordo com os manuais de virologia: aniquilamos sem remorso a Terra, o corpo hospedeiro que nos deu e garante a vida’.
Ámen!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor