A Guerra na Ucrânia — “Subitamente, o nazismo ucraniano deixou de existir…” Por Urbano de Campos

Seleção e tradução de Francisco Tavares

11 min de leitura

Subitamente, o nazismo ucraniano deixou de existir…

Por Urbano de Campos

Publicado por em 6 de Janeiro de 2023 (original aqui)

 

Nato, Azov Suástica. Membros do batalhão Azov exibem as suas bandeiras

A desvalorização que o mundo ocidental, empenhado até às orelhas no apoio à Ucrânia, faz do nazismo ucraniano é, simultaneamente, um sinal da debilidade das suas convicções democráticas e uma demonstração de falta de princípios na guerra que conduz contra a Rússia. Quando recentemente o ministro russo Lavrov lembrou de novo que um dos objectivos da ofensiva russa iniciada em 24 de fevereiro era a desnazificação da Ucrânia, choveram os costumeiros argumentos da troika EUA-UE-Nato de que tudo não passava de um pretexto da Rússia para desencadear a operação militar.

Esta posição dos corifeus ocidentais é um volte-face de conveniência que só a falta de informação e de memória da opinião pública impede de ser desmascarado. Muito antes de 24 de fevereiro do ano passado, vários órgãos da comunicação social ocidental deram grande relevo à expansão do neonazismo ucraniano e aos perigos que representava.

Foi quando se percebeu que a guerra se tornava inevitável — porque os EUA assim conduziram as coisas — que se deu a viragem que hoje faz do regime ucraniano um exemplo de virtudes. Zelensky passou a ser um herói democrático da linha da frente e os batalhões e partidos nazis infiltrados no Estado e nas forças armadas passaram a ser dignos patriotas e aliados do Ocidente.

Quatro reportagens do Guardian, da Time e do Público, publicadas entre 2014 e 2021 — das quais se resumem as passagens mais sugestivas — ilustram bem o contraste entre o que se disse e o que se diz.

 

A maior arma da Ucrânia e a sua maior ameaça

Em setembro de 2014, meses depois do golpe de estado em Kiev manipulado pelos EUA e pela UE, o jornal britânico Guardian publicou um artigo significativamente intitulado “Combatentes Azov são a maior arma da Ucrânia e talvez a sua maior ameaça”.

Aí se dizia que as preocupações se deviam às “inclinações de extrema-direita e mesmo neonazis de muitos dos seus membros”. E acrescentava-se que havia o risco de, terminada a batalha no leste (contra as repúblicas separatistas), o governo de Kiev ser assaltado pelos nazis, segundo os quais “a Ucrânia precisa de um ditador forte no poder que seja capaz de derramar muito sangue mas unir o país”.

Diante disto, candidamente, o jornalista do Guardian achava que tais propósitos estavam “muito afastados do caminho em direcção aos ideais europeus de democracia que, no início, tinham inspirado (?) os protestos em Kiev”, isto é o golpe de estado da praça Maidan, em março de 2014.

A reportagem do Guardian prossegue referindo que “a Amnistia Internacional exortou o governo ucraniano a investigar abusos de direitos e possíveis execuções pelo Aidar, um outro batalhão” de extrema-direita.

O repórter, que acompanha elementos do Azov em Mariupol, pôde testemunhar que os milicianos nazis se comportam “em parte como caçadores de separatistas, em parte como polícia, sem regras que os limitem”.

E conclui: “Mesmo se são uma pequena minoria no conjunto da Ucrânia, eles têm uma enorme quantidade de armas”. Facto que permitia a um dos membros do batalhão dizer que “o presidente Petro Poroshenko será morto dentro de meses e um ditador será posto no poder”.

 

Uma notória milícia fascista ucraniana

Menos de quatro anos depois, em março de 2018, o mesmo jornal voltava ao assunto com o título “Grupos neonazis recrutam britânicos para lutar na Ucrânia”.

O observatório Hope not Hate, segundo o Guardian, classificava o batalhão Azov como “uma notória milícia fascista ucraniana”.

Este alerta tinha surgido apenas dias depois de o chefe da polícia anti-terrorista do Reino Unido ter revelado que “quatro conspirações terroristas tinham sido desmanteladas em 2017 e que grupos de extrema-direita estavam a tentar estabelecer redes internacionais”. Nomeadamente, “a organização proscrita National Action e um grupo ultra-nacionalista polaco sediado em Londres procuravam recrutar activistas para a Ucrânia”.

A Hope not Hate, continua o Guardian, identifica uma “emergente geração mais nova de activistas de extrema-direita que são tecnicamente hábeis [no uso das redes sociais], evitam a aparência estereotipada do passado, e crescem em dimensão e influência”. E daí a conclusão de que “temos de estar preparados para mais atentados terroristas e para o uso de extrema violência por parte da extrema-direita no próximo futuro”.

Bem Wallace, então ministro da Segurança do Reino Unido, é igualmente citado pela reportagem no mesmo sentido, dizendo ele que havia “um crescimento da intolerância no Reino Unido e por toda a Europa, e temos todos de tomar uma posição contra o extremismo”.

O mesmo Wallace é agora ministro da Defesa, comportando-se como um extremista anti-russo e um intransigente partidário da guerra até ao fim e a todo o custo.

 

Azov: centro de uma rede mundial de grupos extremistas

A revista norte-americana Time de 7 de janeiro de 2021 dedica uma longa reportagem ao assunto, titulando: “Como uma milícia supremacista branca usa o Facebook para radicalizar e treinar novos membros”.

Começa a Time: “Diferentemente dos seus pares na Europa, o movimento Azov tem, além do mais, uma ala militar com pelo menos duas bases de treino e um vasto arsenal de armas, desde drones a veículos blindados e peças de artilharia”.

Além disso, “fora da Ucrânia, o Azov tem papel central numa rede de grupos extremistas que vão da Califórnia à Europa e à Nova Zelândia”.

Um ex-agente do FBI, prossegue a revista, “calcula que mais de 17.000 combatentes estrangeiros foram para a Ucrânia nos últimos seis anos, idos de 50 países”.

Talvez preocupados com as dimensões do problema, em outubro de 2019, “quarenta membros do Congresso dos EUA assinaram uma carta pedindo, sem sucesso, que o Departamento de Estado designasse o batalhão Azov uma organização terrorista”, argumentando os congressistas que “há anos que o Azov tem recrutado, radicalizado e treinado cidadãos americanos”. A carta acrescentava ainda: “as ligações entre o Azov e actos de terror nos EUA são claras”.

Como foi que esse movimento cresceu tanto? Pelo Facebook e pelo Youtube, afirma a Time. “Através da sua propaganda online, alimentou uma ideologia mundial de ódio que agora inspira mais ataques terroristas nos EUA do que o extremismo islâmico e que é uma ameaça crescente em todo o mundo ocidental”.

Sublinhando carácter global desta extrema-direita, a Time revela que, após o ataque a tiro em Christchurch, Nova Zelândia, em 2019, que fez 51 mortos, um braço do Azov ajudou a distribuir em papel e online o manifesto do terrorista, glorificando o seu crime e inspirando outros. E acrescenta, citando um relatório de 2017 do governo dos EUA: “Nos 16 anos decorridos depois do 9 de setembro de 2001, grupos de extrema-direita são responsáveis por três quartos dos 85 incidentes mortíferos extremistas que tiveram lugar em solo norte-americano”.

“A missão do movimento Azov” — disse à Time uma activista em Kiev — “é formar uma coligação de grupos de extrema-direita no mundo ocidental com o fim último de tomar o poder em toda a Europa”.

As condições para o crescimento do grupo Azov (tal como outros semelhantes) foram proporcionadas pela “revolução” de 2014, ou seja, o golpe de estado que depôs o presidente Viktor Ianukovich. Hoje, diz a reportagem, “o Azov não tem rivais no movimento supremacista global em duas frentes importantes: o acesso a armas e o poder de recrutamento”.

À medida que a guerra no leste do país se agravava, o peso dos grupos nazis aumentava por acção do próprio Estado ucraniano. “Estes são os nossos melhores guerreiros”, disse o então presidente Petro Poroshenko (ele mesmo um produto do golpe de estado) numa cerimónia de atribuição de condecorações realizada em 2014. Foi nesta senda que o novo poder instalado em Kiev chegou a dar nacionalidade ucraniana a mercenários estrangeiros que afluíram ao país após 2014, refere a Time.

Provavelmente mais pelos efeitos causados na sociedade norte-americana — comentamos nós — do que pelo mal causado à Ucrânia ou à Europa, os EUA tomaram algumas medidas quanto ao Azov.

De facto, como refere a reportagem, nos EUA, “um legado dos ataques do 11 de setembro de 2001 foi que muitas agências de combate ao terrorismo associavam terrorismo a islamismo, permitindo à extrema-direita voar abaixo do radar, ao mesmo tempo que plataformas sociais como o Facebook davam ao movimento audiências maiores como nunca antes”.

Só em março de 2018, refere a Time, o Congresso dos EUA denunciou o Azov e proibiu o governo norte-americano de fornecer “armas, treino ou outra assistência” aos seus combatentes (coisa que fazia até aí). O gesto, “apesar de essencialmente simbólico” — acrescenta a reportagem — “desencorajou as forças militares ocidentais, especialmente as da Nato, de treinarem lado a lado com os combatentes Azov” (coisa que faziam até aí).

 

O maior viveiro de neonazis do mundo

Finalmente, o português Público também meteu mãos à obra na denúncia do nazismo ucraniano com oito páginas de reportagem na edição de 21 de junho de 2020. O título é igualmente sugestivo: “Como a Ucrânia se transformou no maior viveiro de neonazis do mundo”.

Para não nos alongarmos, referimos apenas algumas das citações que completam o que os artigos do Guardian e da Time já testemunham.

Citando um investigador norte-americano, diz a reportagem: “A Ucrânia tornou-se para a extrema-direita o que a Síria foi para o Daesh. Militantes recebem treino, melhoram tácticas e técnicas e estabelecem redes internacionais, e depois regressam aos seus países”.

“A Ucrânia é hoje, prossegue o Público, um dos principais pólos de atracção para a extrema-direita internacional e quase quatro mil estrangeiros de 35 países já receberam treino e combateram nas fileiras de milícias na Guerra Civil Ucraniana” [isto é, na guerra conduzida por Kiev contra as repúblicas do Donbass].

“O regimento Azov transformou-se num alargado movimento, criou um estado dentro de Estado Ucraniano, estendeu tentáculos por toda a Europa”.

Para conduzir a guerra contra as repúblicas separatistas, revela o Público, Poroshenko apelou aos mercenários estrangeiros e constituiu 30 a 40 batalhões. “Um dos homens por trás deste esforço foi o oligarca Ilhor Kolomoisky, um dos dois mais ricos da Ucrânia e a sombra do governo de Poroshenko e, agora, do de Zelenski”.

Porquê o envolvimento dos oligarcas? Viacheslav Likhachev, politólogo ucraniano, explica: “Os empresários precisam destes grupos como apoio físico, por ser muito mais fácil controlarem as suas estruturas empresariais. Os grupos de extrema-direita são parte deste mercado a favor dos grandes empresários”.

“O batalhão Azov, criado a 5 de maio de 2014, transformou-se depois em regimento e está em vias de se tornar divisão” (10 mil homens). Foi integrado na Guarda Nacional pelo presidente Poroshenko em novembro de 2014 “no que foi visto como tentativa de o manter sob controlo e meio para lhe fornecer armamento militar topo de gama, fornecido pelos EUA, UE e Canadá”.

Ainda segundo o Púbico, “Olena Semeniaka, membro do braço político do Azov, que viaja recorrentemente pela Europa participando em conferências [Europa Central e de Leste, Itália, Noruega, Suécia, Reino Unido] esteve em Portugal em 2018 a convite do Escudo Identitário, organização neofascista portuguesa”.

Numa nota nacional: “O Chega já assumiu no parlamento a defesa da Ucrânia com um voto de condenação da agressão russa, e foi por isso elogiado pelo Movimento Azov”.

Por fim, um contributo lúdico: “Extrema-direita portuguesa usa torneios de artes marciais para estreitar laços com neonazis europeus”.

 

O volte-face do Ocidente

Este rol de denúncias, como hoje se vê, foi sol de pouca dura. A iminência da intervenção russa, procurada pelos EUA com a miserável colaboração da Europa, levou à normalização das milícias nazis, não apenas como corpos militares que acabaram integrados nas forças armadas ucranianas, mas também como forças políticas com assento no parlamento e forte influência em toda a esfera do poder.

A partir de finais de 2021, tudo o que se dissera para trás foi esquecido e virado do avesso. Os actos ditatoriais de Zelenski, dissolvendo partidos da oposição, proibindo o ensino da língua e da cultura russa, banindo o ramo russo da igreja ortodoxa — são tidos por normais, nenhum deles contando para beliscar a máscara de democrata que lhe puseram na cara.

As punições públicas de “inimigos” suspeitos de simpatia pela Rússia, por vezes adolescentes, amarrados a árvores para que sejam agredidos ou amesquinhados por quem passa — são ignoradas e escondidas, e, quando muito, dadas como simples exageros toleráveis em tempos difíceis.

As ordens do poder ucraniano para perseguir e liquidar sumariamente os suspeitos de colaboracionismo com a Rússia — são igualmente acolhidas pelo Ocidente, tão cioso dos direitos humanos e tão atento aos crimes atribuídos ao lado russo, como coisa perdoável em clima de guerra.

A corrupção grosseira que embebe o poder ucraniano faz com que larga parte dos fundos e das armas enviados para a Ucrânia caiam em mãos privadas e no mercado negro. Se a isso associarmos o facto, referido nas reportagens, de os mercenários estrangeiros regressarem aos países de origem depois de fazerem treino militar, perceber-se-á que parte dessas armas poderá servir para a extrema-direita levar a cabo acções violentas, possivelmente na Europa, no Médio Oriente, na Ásia Central ou em África.

O fascismo renascente na Polónia, nos países Bálticos, na Suécia, em Itália e em geral por todo o Ocidente tem criado um ambiente favorável ao crescimento dos nazis ucranianos e ao seu aproveitamento como testas de ferro do Ocidente imperialista. Na sua cruzada contra a Rússia, e na perspectiva de uma guerra prolongada, a troika EUA-UE-Nato tem necessidade de deitar mão precisamente aos elementos mais extremistas, mais brutais e com menos escrúpulos, como são os batalhões Azov, Aidar, Sector Direito e quejandos.

Quando falam em desnazificar a Ucrânia, os russos apontam aquilo que as reportagens citadas bem ilustram. Não por acaso, a batalha de Mariupol foi o que foi: era aí que estava concentrada a principal força do batalhão Azov, hoje em parte destroçado. Não esqueçamos que, quando insiste no perigo nazi, a Rússia tem a seu crédito 26 milhões de mortos na segunda guerra mundial às mãos do nazi-fascismo. Uma tal marca não se apaga facilmente da memória de um povo.

Não são os russos que distorcem a realidade — é o Ocidente que, perante a reacção de Moscovo, esquece o que disse, altera o discurso de ontem e forja uma realidade paralela que lhe seja conveniente para prosseguir a sua guerra de desgaste contra a Rússia.

 

 

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