A Guerra na Ucrânia — A angústia existencial de Biden na Ucrânia. Por M.K. Bhadrakumar

Seleção e tradução de Francisco Tavares

8 min de leitura

A angústia existencial de Biden na Ucrânia

É cada vez mais evidente que os EUA estão a lutar na Ucrânia para preservar a sua hegemonia global

Por M.K. Bhadrakumar

Publicado por em 9 de Janeiro de 2022 (original aqui)

 

O Presidente Vladimir Putin participa na Missa de Natal, Catedral da Anunciação, Kremlin, Moscovo, 7 de Janeiro de 2023.

 

O consenso bipartidário na Beltway dos Estados Unidos – governo em Washington D.C. – serem a potência mundial “indispensável” é geralmente atribuído aos neoconservadores que têm sido a força motriz da política externa e de segurança dos EUA nas sucessivas administrações desde os anos de 1970.

Um artigo de opinião, junto ao editorial, no Washington Post de sábado intitulado O tempo não está do lado da Ucrânia, co-autoria da ex-secretária de Estado Condoleezza Rice durante a presidência de George W. Bush e o Secretário da Defesa Robert Gates (que serviu tanto sob Bush como sob Barack Obama), destaca este paradigma.

Rice e Gates são robustos guerreiros [da guerra] frios que estão entusiasmados com a guerra da NATO contra a Rússia. Mas a sua queixa é que o Presidente Biden deveria intervir “drasticamente” na Ucrânia.

O artigo remete para as duas guerras mundiais que marcaram a ascensão dos EUA como potência mundial e adverte que a “ordem baseada em regras” liderada pelos EUA desde 1990 – palavra de código para a hegemonia global dos EUA – está em perigo se Biden falhar na Ucrânia.

Rice e Gates reconhecem indirectamente que a Rússia está numa maré de vitórias, ao contrário da narrativa triunfalista ocidental até agora.

Evidentemente, a esperada ofensiva russa que se avizinha está a abalar os seus nervos.

Do mesmo modo, o artigo é contextual para a política americana. O impasse em que se encontra a presidência da Câmara dos Representantes e a sua dramática destituição numa luta política sem escrúpulos entre republicanos pressagia um Congresso disfuncional entre agora e as eleições de 2024.

Kevin McCarthy, que teve o apoio do ex-Presidente Donald Trump, finalmente ganhou, mas só depois de fazer uma série de concessões à ala populista do Partido Republicano, o que enfraqueceu a sua autoridade. A AP relatou, “Dedos foram apontados, palavras trocadas e a violência aparentemente apenas evitada… Foi o fim de um amargo impasse que tinha mostrado a força e a fragilidade da democracia americana”.

Um político sénior do Kremlin já comentou o assunto. O próprio McCarthy, na sua declaração após as eleições como novo presidente da Câmara de Representantes, listou como suas prioridades o empenho numa economia forte, contrariando a imigração ilegal através da fronteira mexicana e competindo com a China, mas omitiu qualquer referência à situação na Ucrânia ou ao fornecimento de fundos a Kiev.

De facto, no início de Novembro, ele tinha afirmado que os Republicanos na Câmara iriam resistir a uma ajuda financeira ilimitada e injustificada à Ucrânia.

Agora, Rice e Gates recusam-se a marchar em uníssono com Trump. Mas, embora seja um jogador diminuído, Trump continua a ser um jogador activo, uma presença massiva e exerce controlo funcional e é de longe a maior voz do Partido Republicano. O que define o Partido Republicano hoje em dia é, sem dúvida, Trump. Por conseguinte, o seu apoio a McCarthy vai ter consequências.

Biden compreende isso. É concebível que o artigo Rice-Gates tenha sido sugerido pela Casa Branca e pelo poder estabelecido de segurança dos EUA e com guião feito pelos neoconservadores. O artigo apareceu no dia seguinte à declaração conjunta de Biden e do Chanceler alemão Olaf Scholz, no dia 5 de Janeiro, sublinhando a sua “solidariedade inabalável” com a Ucrânia.

Sob imensa pressão de Biden, Alemanha e França cederam na semana passada para fornecer à Ucrânia veículos de combate de infantaria. Scholz também concordou que a Alemanha fornecerá uma bateria adicional de defesa aérea Patriot à Ucrânia. (Um político de topo do SPD em Berlim tem desde então manifestado reservas).

No mesmo dia em que o artigo apareceu, o Pentágono organizou, invulgarmente para um sábado, uma conferência de imprensa por Laura Cooper, Secretária Adjunta da Defesa, Assuntos de Segurança Internacional para a Rússia, Ucrânia, Eurásia. Cooper declarou explicitamente que a guerra na Ucrânia ameaça a posição global dos EUA:

“De uma perspectiva estratégica global, é difícil enfatizar suficientemente as consequências devastadoras se Putin fosse bem sucedido na realização do seu objectivo de conquistar a Ucrânia. Isto reescreveria as fronteiras internacionais de uma forma que não vemos desde a Segunda Guerra Mundial. E a nossa capacidade de inverter estes ganhos e de apoiar e manter a soberania de uma nação, é algo que ressoa não só na Europa, mas em todo o mundo”.

O gato está fora do saco, finalmente – os EUA estão a lutar na Ucrânia para preservar a sua hegemonia global. Coincidência ou não, numa entrevista sensacional em Kiev, o Ministro da Defesa ucraniano Oleksii Reznikov também deixou escapar, no fim-de-semana, que Kiev se permitiu conscientemente ser utilizada pela NATO no conflito mais vasto do bloco com Moscovo!

Para o citar, “Na Cimeira da NATO em Madrid (em Junho de 2022), foi claramente delineado que durante a próxima década, a principal ameaça à aliança seria a Federação Russa. Hoje em dia, a Ucrânia está a eliminar esta ameaça. Estamos hoje a cumprir a missão da NATO. Eles não estão a derramar o seu sangue. Nós estamos a derramar o nosso. É por isso que eles são obrigados a fornecer-nos armas”.

Reznikov, um ex-oficial do exército soviético, afirmou ter recebido pessoalmente cartões de felicitações e mensagens de texto dos ministros da defesa ocidentais para este efeito. A aposta não podia ser mais alta, com Reznikov a afirmar também que a adesão da Ucrânia à NATO é um facto.

De facto, no sábado, o Pentágono anunciou o maior pacote da administração Biden de ajuda à segurança para a Ucrânia, no âmbito do levantamento de fundos presidencial. Evidentemente, a Administração Biden está a fazer todas as diligências necessárias. Outra reunião do Conselho de Segurança da ONU foi agendada para 13 de Janeiro.

Mas Putin deixou claro que “a Rússia está aberta a um diálogo sério – na condição de que as autoridades de Kiev satisfaçam as exigências claras que têm sido repetidamente apresentadas, e reconheçam as novas realidades territoriais”.

Quanto à guerra, as notícias de Donbas são extremamente preocupantes. Soledar está nas mãos da Rússia e os combatentes de Wagner estão a apertar o laço em torno de Bakhmut, um centro estratégico de comunicação e um eixo de ligação dos destacamentos ucranianos em Donbas.

Por outro lado, contrariamente às expectativas, Moscovo não está perturbada com teatrais ataques esporádicos de drones ucranianos dentro da Rússia. A opinião pública russa continua a apoiar firmemente Putin.

O comandante das forças russas, General Sergey Surovikin, deu prioridade à fortificação da chamada “linha de contacto”, que está a revelar-se eficaz contra os contra-ataques ucranianos.

O Pentágono não tem a certeza da estratégia futura de Surovikin. Pelo que sabem do seu brilhante sucesso na expulsão de oficiais da NATO de Aleppo na Síria em 2016, o cerco e a guerra de desgaste são o forte de Surovikin. Mas nunca se sabe. Está em curso uma constante acumulação russa na Bielorrússia. Os sistemas de mísseis S-400 e Iskander foram aí implantados. Um ataque da NATO (polaco) à Bielorrússia já não é realista.

A 4 de Janeiro, Putin saudou o Ano Novo com a formidável fragata Almirante Gorshkov carregando “um sistema de mísseis hipersónicos Zircon de ponta, que não tem análogos”, embarcando “numa missão naval de longa distância através dos oceanos Atlântico e Índico, assim como no Mar Mediterrâneo”.

Uma semana antes, o sexto submarino estratégico de propulsão nuclear da classe Borei-A, o Generalissimus Suvorov, juntou-se à Marinha russa. Estes submarinos são capazes de transportar 16 mísseis balísticos intercontinentais Bulava.

O nevoeiro da guerra envolve as intenções russas. Rice e Gates avisaram que o tempo funciona a favor da Rússia: “A capacidade militar e a economia da Ucrânia dependem agora quase inteiramente das linhas de vida do Ocidente – principalmente, dos Estados Unidos. Na ausência de outro grande avanço e sucesso da Ucrânia contra as forças russas, as pressões ocidentais sobre a Ucrânia para negociar um cessar-fogo irão crescer à medida que passarem meses de impasse militar. Nas circunstâncias actuais, qualquer cessar-fogo negociado deixaria as forças russas numa posição forte”.

Esta é uma avaliação brutalmente franca. O apelo de Biden a Scholz na sexta-feira também mostra a angústia na sua mente. Com a fragmentação da classe política na América, Biden também não se pode dar ao luxo de brechas na unidade aliada.

Curiosamente, este foi também o principal impulso de um artigo publicado há quinze dias por Andrey Kortunov, um dos maiores especialistas russos no jornal Global Times do Partido Comunista Chinês, intitulado “Os infortúnios internos dos EUA podem empurrar a Ucrânia à margem do discurso público americano”.

Kortunov escreveu: “Pondo as emoções de lado, há que aceitar que o conflito já se tornou existencial não só para a Ucrânia e Rússia, mas também para os EUA: a administração Biden não pode aceitar uma derrota na Ucrânia sem enfrentar grandes implicações negativas para as posições dos EUA em todo o mundo”.

Kortunov estava a escrever quase uma quinzena antes de Rice e Gates começarem a ter a mesma percepção metafísica. Mas os neoconservadores ainda não estão preparados para aceitar que a escolha está realmente diante deles – Biden nadando ao lado de Putin em direcção a uma ordem mundial multipolar, ou afundando-se nas águas conturbadas.

_______

O autor: M.K. Bhadrakumar, antigo embaixador da Índia, analista político. Durante 3 décadas a sua carreira diplomática foi dedicada a missões nos territórios da antiga União Soviética, Paquistão, Irão e Turquia. Escreve principalmente sobre a política externa indiana e os assuntos do Médio Oriente, Eurásia, Ásia Central, Ásia do Sul e Ásia-Pacífico. O blog Indian Punchline, segundo o autor, reflecte as marcas de um humanista contra o pano de fundo do “século asiático”, sublinhando isto porque vivemos em tempos difíceis, especialmente na Índia, com uma polarização tão aguda nos discursos – “Ou estás connosco ou contra nós”.

 

 

Leave a Reply