CARTA DE BRAGA – “do novo ano e da utopia” por António Oliveira

Há alguns anos, o brilhante e antigo secretário de Defesa do também brilhante George W. Bush, espantou o mundo com uma frase que deixou pensativos muitos de nós, para tentarmos explicar a profundidade do seu pensamento, ‘Há coisas que sabemos que sabemos. E há desconhecidos conhecidos. Quer dizer, há coisas que sabemos que não sabemos. Mas há ainda desconhecidos, desconhecidos. Há coisas que não sabemos que não sabemos’. 

Não se pretende nesta simples Carta, sem qualquer outra intenção que não seja ‘conversar’ um pouco com alguns dos meus amigos que ainda têm a bondade de me ler, dar início a uma discussão ontológica sobre o pensamento do indivíduo, abstraindo a parte metafísica, mas apenas tentar situar-nos perante a incógnita brutal que nos apresenta o ano que agora está a começar e, por arrasto, todo o século XXI, cheio de coisas que não sabemos e desconhecidos que não sabemos que sabemos isto para de alguma maneira tentar glosar o pensamento de tão brilhante autor.

Estamos agora perante dois problemas globais, a afectar directamente dois dos ‘gigantes’ mundiais, a guerra na Ucrânia envolvendo a Rússia e o aparente ‘renascimento’ do bicho feio do ‘covid’, a não dar descanso à China. Está claro que estes dois problemas arrastam também a ‘participação’ directa ou indirecta dos States e da Europa ou, dito de outra maneira, a decadência dos regimes ocidentais, frente à superioridade dos autoritários do lado de lá. 

Uma coisa é bem clara, em qualquer dos lados a quebra económica que se irá registar no mundo vai fazer deste ano um somatório de estatísticas bem piores do que as do ano passado, onde a inflação reinará, afectando primeira e mormente, o já clássico e habitual pagante de todos os dias, onde todos nós estamos incluídos. Depois estarão os pequenos comércios e os minúsculos ‘lugares da fruta’, onde também se podem mercar outras coisas e até já se ouve ‘isto pode ficar para amanhã?’, pergunta logo seguida de uma explicação também já ouvida tantas vezes. 

E agora parece que o general Inverno é menos ‘bruto’ e, além do excesso de água que até é bem vinda nalguns lugares, o frio não tem atingido as temperaturas de antes, do tempo em que as camisolas não chegavam, nem as frieiras ainda atacaram este ano, apesar de estarmos no decadente Ocidente e, por lá, se aproveitarem quaisquer variações da temperatura para endurecer medidas contra os ‘pecadores’. 

Medidas que as corporações executantes, os ‘nomes’ de um lado e de outro aparecem a diário nos media, se encarregam de levar a cabo com o desvelo costumeiro, dando origem a infindáveis correntes de gente a fugir das suas terras e lugares a que pertencem e queriam continuar a pertencer, arrastando crianças e velhos, para poder sobreviver, com longas e quilométricas caminhadas a pé, ou perigosas e tantas vezes mortais viagens ‘à molhada’ entre outras dezenas, também vindas de outras terras, em barcos onde caberia apenas uma dezena. 

É uma Carta eivada de pessimismo, por ser difícil a qualquer um de nós, prepararmo-nos ou ao menos vislumbrar alguma coisa do futuro, tanto mais que vemos todos os dias as patacoadas dos ‘superinteligentes’ Musk, Trumpa, Bezos, Boçalnaro, Orban e mais uns tantos que nem quero aqui nomear, mas são eles ‘os donos da massa’ e das ‘massas’, os senhores daquela pequenas ninharias que fazem andar tudo isto. 

Teremos de arranjar mais camisolas para o frio, afastarmo-nos dos sítios que possam ser invadidos pelas águas dos rios ou dos barrancos, criar algumas e novas formas de, como agora se diz, resiliência, ajeitar melhor o assento para afrontar as curvas do caminho em direcção ao futuro ou, disse um dia Eduardo Galeano, ‘A utopia está no horizonte. Ando dois passos e o horizonte anda dez passos mais para lá. Então para que serve a utopia? Só para isso, serve para caminhar’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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