Espuma dos dias — Dois exemplos sobre a Europa em disfuncionamento: Portugal e Inglaterra – Resposta ao comentário de uma nossa leitora. Por Júlio Marques Mota

 

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Dois exemplos sobre a Europa em disfuncionamento: Portugal e Inglaterra – Resposta ao comentário de uma nossa leitora

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, em 19 de Janeiro de 2023

 

Minha querida amiga

Desde logo agradeço as suas observações (de alguém sempre atento ao que vamos publicando aqui na Viagem dos Argonautas) ao meu texto “Dois exemplos sobre a Europa em disfuncionamento: Portugal e Inglaterra”, publicado há dias atrás.

Diz-me:

Peço desculpa do atrevimento para fazer duas correções: no ponto 2 – será “não se ouve falar da Universidade”… e no ponto 4 É SERVIÇO Nacional de Saúde e não sistema como, desde Cavaco, toda a direita se vem referindo ao SNS.

Quanto ao SNS nada a dizer, é como diz: deve-se dizer Serviço Nacional de Saúde e não Sistema Nacional de Saúde. Esta troca de palavra deve-se ao facto de antes de escrever esse texto ter estado a estudar sistemas e sistemas de pensões e daí que tenha caído nesta asneira. E a diferença de significados é enormíssima.

Quanto ao ponto Universidade, tem razão, não se ouve falar da Universidade. Não há movimentação de professores, não há movimentação de alunos, de há anos para cá que não há contestação e sabe porquê? No caso dos professores porque há avaliação – e aqui deixe-me sorrir -, pois é a avaliação que tem sido feita o que bloqueia a subida de escalão remuneratório, tão férrea ela é. Mas não quanto ao ensinar do professor, mas sim quanto à exigência que lhe é feita de dar prioridade a publicar, publicar nas revistas internacionais AAA. Um pouco como na Bolsa, os títulos com notação AAA são de uma qualidade financeira superior. E a consequência é que a necessidade é tanta que em muitas revistas já se paga para publicar, para se ter uma linha no curriculum. E a isto chama-se avaliação de desempenho! Nesta mesma linha, já alguém teve a coragem de querer perceber como é que há docentes com largas dezenas de artigos publicados quando ainda estão a meio da carreira ou ainda menos? Mas querer perceber, não, claro que não, isso dá muito trabalho e não faz curriculum para quem fizer esse trabalho, ler tantos artigos, por vezes mais de uma centena, para depois descobrir que muitos são variações de detalhe de meia dúzia deles, que são variações “paramétricas” destes últimos.

No caso dos alunos, transformámo-los em pequenos imperadores. Terão tudo o que podem querer, para que não se levantem ondas. São incómodas, as ondas políticas provocadas pelos estudantes quando estão com dificuldades em perspetivar o futuro. Politicamente ninguém esqueceu como começou o maio de 68, politicamente também não se pode ignorar a importância dos movimentos estudantes na queda do fascismo em Portugal!

O problema da Universidade não é só de avaliação, sublinhe-se, é muito mais do que isso. Pelo caminho que estamos a seguir, qualquer dia um aluno sai de uma qualquer faculdade onde se ensinam Matemáticas Superiores durante três anos (os anos de uma licenciatura com a reforma de Bolonha) a ser incapaz de colocar em equação um qualquer problema com duas variáveis a evoluírem de forma linear e fazer a respetiva interpretação gráfica.

Falemos de um exemplo: em tempos que já lá vão, o governo abriu um concurso para uma bolsa de emprego de 1000 vagas. Foram perto de 15000 os concorrentes. Na primeira vaga de avaliações seriam selecionados os 3000 melhores classificados. Na segunda vaga seriam então selecionados os 1000 candidatos. Não se conseguiram arranjar 1000, arranjaram-se apenas cerca de 850, de entre cerca de 15000! Como é? O que é que se anda a fazer com a nossa juventude, afinal? Viu as Universidades levantarem-se contra isto? Não, elas responderão que essa não é a sua função, a sua função é apenas a de ensinar. Viu o governo levantar-se contra isso? Não, também não, há que respeitar a autonomia das Universidades, é o que lhe dirão!

Desvalorizadas as licenciaturas, valoriza-se o que se segue, os cursos de mestrado e os de doutoramento e é aqui que a clivagem de classe social é instalada, pelo dinheiro que se exige e que se tem ou não tem. Criam-se pois Mestrados e Cursos para Doutoramento muito caros, caríssimos, e depois difunde-se a ideia de que se são caros é porque são então muito bons. Assim, já se levam milhares e milhares de euros por um diploma de Mestrado, a atingirem por vezes mais de 15.000 euros. Não é isto um roubo? Simplesmente, é um roubo. Alguém se questiona? Não, dir-lhe-ão que se esse curso tem alunos que o paguem, é porque o mercado, a prova de validade de todas as coisas, os valida, e contra a verdade do mercado nada a fazer. E podíamos continuar. Mas há avaliações para tudo, sabemo-lo e sabemos o resultado

Discretamente, o governo estabelece ou permite que se estabeleça uma linha de clivagem para fabricar as “elites”: de um lado estão os que têm, do outro os que não têm. Ter ou não ter é agora a questão – e sob a égide dos socialistas – para se saber quem deve estar de um lado ou do outro da linha divisória de classes sociais!

Esta é a consequência lógica da Reforma de Bolonha aplicada pelas mãos das gentes do PS e ainda hoje bem defendida pelos mesmos. Quanto à reforma de Bolonha contra a qual não viu a Universidade levantar-se deixo-lhe aqui um excerto de uma carta minha ao ministro de então Mariano Gago, onde se expressa a opinião de um intelectual histórico do PS:

“Gostaria de terminar este assunto sobre a qualidade do ensino na reforma de Bolonha com as palavras de Vitorino Magalhães Godinho que de uma forma só ao alcance de alguém com a sua estatura intelectual podia escrever:

“Sobre o caos em que se tornou o ensino universitário abateu-se o chamado processo de Bolonha, obcecado pela uniformização, baralhando os títulos e graus, e eivado por uma pedagogia simplista. O primeiro acto de qualquer governo com um mínimo de sensatez tem de ser a revogação das abstrusas disposições desse pseudoacordo feito à revelia de professores e investigadores, que não tiveram a coragem de o rejeitar e se sujeitaram a passar sob as forcas caudinas.” E termino aqui a discussão sobre a Universidade”.

Diz-me ainda que “não concordo que Maria de Lurdes Rodrigues (MLR) tenha feito dos professores mangas de alpaca – essa foi a ideia que o Mário Nogueira (MN) fez passar sobre a «avaliação de desempenho»”.

Não, não minha amiga, não é a ideia que Mário Nogueira fez passar, não. É sim a “ideia” real que vivi em minha casa com a minha mulher professora de física a ser escrava de trabalho burocrático imposto pela MLR. Uma professora que estava quase no topo da carreira docente, obrigada inclusive a cursos de formação de cumprimento de calendário, cursos que objetivamente não serviam para nada, a não ser para dar dinheiro aos formadores. A solução foi reformar-se antecipadamente com uma penalização de 4 anos. Perdeu ela, perdi eu, perdeu o país. E foram milhares assim como ela.

Deixe-me contar-lhe uma pequena história sobre o profissionalismo da minha mulher: em dado ano letivo foi colocada numa dada escola em que lhe foram dados 3 níveis de ensino: 9º, 10º e 11ª da disciplina de Física e em condições bem especiais. Lamentavelmente, os alunos do 11º ano não tinham tido 10º de Física. Quanto aos alunos do 10º, havia turmas em não tiveram 9º ano e outras que tinham tido. Lamentavelmente, até aí ela só tinha lecionado 10º ano. E cumpriu. Foi um ano terrível em que praticamente a família não existiu. E isto só foi possível pelo ensino de qualidade que teve na Faculdade de Ciências de Lisboa, nada comparável ao de hoje, e por uma outra característica definida numa só palavra que a maioria dos jovens licenciados nestas duas últimas décadas desconhece em absoluto, o custo da reforma de Bolonha é também isto, e chama-se Espírito de Missão. Ainda hoje, décadas depois é amiga de alguns dos colegas com quem aí trabalhou. Foi um ano infernal, garanto-lhe. E é a esta professora, como a milhares de outras e de outros, que se obrigou ao trabalho burocrático imposto em nome da avaliação. Foram milhares e milhares os professores que saíram do ensino, que se reformaram com grande ou pequena penalização. No nosso caso com uma penalização de 18% na sua pensão de reforma.

Esta saída em massa não terá sido por acaso, e, sublinhe-se, quase todos eles eram professores com trinta ou mais anos de serviço. É o país que perdeu, são os alunos que perderam, são as famílias que perderam e nada disto tem a ver com Mário Nogueira. Decapitou-se o ensino, mas fez-se a avaliação de desempenho exigida por MLR. O poder discricionário em pleno, foi isso que se viu.

Diz-me: “Nunca fui professora, mas dediquei anos à avaliação de desempenho na minha área profissional, anos antes dessa guerra a MLR.”

Curiosamente, hoje, mais que nunca será necessária avaliação de desempenho, mas não é aquela que foi feita no tempo de MLR, não é esta que está a ser feita nas Universidades de hoje. E será tanto mais necessária fazê-la quanto as escolas cada vez mais preparam cada vez menos os seus alunos, transformados em pequenos imperadores. Disciplina de trabalho, capacidade de sacrifício, de autocontrolo, são características que se veem cada vez menos em quem recentemente entra para o mercado de trabalho. Acelera-se a urgência dessa avaliação do desempenho, mas acelera-se também a urgência na dignificação do trabalho e de quem trabalha. Só assim é que a avaliação tem sentido e esta relação, avaliação e dignificação de quem trabalha, nunca foi verificada com a política de ensino praticada por MLR.

Esta política de MLR tem sido uma característica dos governos socialistas desde os tempos de Sócrates: não proteger o trabalho. De resto, tem-se visto desde então o respeito do PS pelas normas exigidas pela Troika quanto ao mercado de trabalho. Foi assim que caiu a geringonça, não o esqueçamos. No caso da MLR com mais de 100000 professores na Praça do Comércio, o governo reuniu. Uma das mais brilhantes figuras do PS de então, e amigo de MLR, telefona-me a perguntar a minha opinião sobre deixar cair ou não MLR. A minha resposta foi inequívoca e terá sido mais ou menos o seguinte: não se pode governar contra aqueles que trabalham e os trabalhadores estão na rua. Recordei-lhe o discurso de Charles de Gaulle de 1966 em Phnom Penh [1] e a consequência lógica que dele se tira: é próprio da Democracia assumir os seus erros e procurar corrigi-los. Mas assistiu-se, ao contrário desta ideia de Charles de Gaulle, a uma manifestação brutal do poder em se assumir apenas como mando, como se a métrica para medir a qualidade do governo fosse a sua capacidade de se impor publicamente pela autoridade.

Diz-me: “Não conheço, desse tempo, outra carreira em que Todos chegavam ao topo da carreira que não fosse a dos professores dos liceus!

Estou de acordo com o que diz, o tempo por si só, não pode ser o elemento exclusivo a ter em conta na subida da carreira. É preciso mais, muito mais, mas para isso é preciso reorganizar todo o ensino, a começar pelos programas, da primária até à Universidade [2]. É preciso gente capaz de um trabalho de Hércules com esta dimensão e com um tempo médio e longo para levar a cabo esse objetivo. Hoje, esta tarefa parece-me muito mais difícil do que nos tempos de MLR e porquê? Porque a maioria dos licenciados formada pelas Universidades nestas duas décadas tem sido desprovida de qualquer sentido de missão, de autocontrolo, e já agora, digamo-lo também, de capacidade de autoavaliação.

Mas não chega haver gente capaz para esta tarefa ciclópica, o que não é fácil, é preciso também que seja gente com um espírito de missão, o que é ainda mais difícil. O exemplo do que se passou com as mudanças em série no Governo atual mostra isso mesmo, que cada vez há menos espírito de missão. E falo do mesmo espírito de missão que evidenciei com o exemplo do que aconteceu com a minha mulher. Tratou-se de um espírito de missão que envolveu toda a família. Ora, um projeto como o que acabo de enunciar para o ensino sai caro, não dá votos, e estes são mais dois obstáctulos para que algum ministro se atreva a pôr isto na sua mesa de trabalho? Haverá algum ministro disponível? Possivelmente nenhum.

Mas falou em capacidade de autoavaliação, mas repare-se que esta é uma qualidade bem mais complexa do que parece à primeira vista. Relembro aqui Séneca e Epicuro: sobre a afirmação de Epicuro de que “A consciência do erro é o primeiro passo para a sua correção“. Séneca conclui que esta é uma máxima “muito boa”. “Porque uma pessoa que não tem consciência de que está a fazer algo de errado, não tem qualquer desejo de se corrigir. Tem que se pensar racionalmente antes de se poderem fazer reformas“, ou seja, se nos posicionarmos em termos de formação universitária, diremos que é necessário sobretudo possuir uma sólida capacidade de raciocínio abstrato a partir da qual se ganham depois as competências específicas. Só assim se pode seriamente criar competências sobre coisas ou tarefas não banais. Só assim se é capaz de fazer autoavaliação a sério.

Deixe-me dizer-lhe que a capacidade de raciocínio abstrato de que temos vindo a falar é característica de muitas profissões que lamentavelmente se tomam como banais, depreciadas, mal pagas, e como exemplo tomemos o ladrilhador, o marceneiro e o calceteiro. Cada um destes profissionais, se de qualidade, olham para o material que precisam de aplicar, azulejo, madeira, pedra, olham para a superfície onde o aplicar e imediatamente percebem as linhas de corte que devem fazer. Sem raciocínio abstrato a sua produtividade seria muito menor, o desperdício seria muito maior e o desemprego na sua arte seria a consequência final.

E, minha amiga, num outro registo, deixo-lhe uma pergunta, hoje que fez 100 anos que Eugénio de Andrade nasceu: será possível sem capacidade de abstração perceber e gostar de um dos maiores poetas da língua portuguesa, um verdadeiro artesão da palavra, dos sentidos, dos sentimentos que com elas de podem desencadear, que foi Eugénio de Andrade? Creio que não.

Com a reforma de Bolonha pensa-se o contrário do que nos diz Séneca. E o governo mantém-se na mesma linha. Veja o que nos diz o Secretário de Estado dos Assuntos Europeus, Tiago Antunes, sobre o facto de que os nossos estudantes não saem preparados para as provas de admissão aos quadros da União Europeia:

Não há falta de atratividade destas funções. Mas, depois, a taxa de sucesso nestes concursos – que são muito difíceis- é relativamente diminuta., sobretudo porque as provas de acesso não são as mais adequadas àquilo que é o nosso sistema de ensino superior. Os nossos estudantes não saem preparados – não quer dizer que não estejam bem preparados – para aquele tipo de provas e competências.

“[Na União Europeia] o que se avalia são competências abstratas e comportamentos em situações práticas. E para isso precisamos de formação específica” Fim de citação.

Contra o que diz Tiago Antunes esclareço que três dos meus mais brilhantes alunos entraram nas Instituições Europeias e um deles faleceu a semana passada. Chegou a diretor do departamento de Risco do BEI, o que na minha opinião pessoal – opinião de um ignorante em alta-finança – é o cargo mais difícil dessa Instituição. Todos estes alunos eram caracterizados por elevadas competências em termos de raciocínio abstrato. O governo entende, que o problema não está no nosso ensino cretinizante que se tem estado a praticar nestas duas últimas décadas, está sim no tipo de provas que estarão desajustadas a este tipo de alunos. Nada a mudar, é o que entendem, portanto, as autoridades de tutela. É preciso continuar a aplicar Bolonha, é o que isto quer dizer. Pura e simplesmente isso.

Depois deste texto terminado leio um artigo curioso de TERRY EAGLETON (original aqui):, intitulado Os trabalhadores nunca foram ignorantes que coincide de tal forma com o que acima está escrito que me sinto levado a retomar aqui alguns excertos, no que pode e deve ser tomado como uma crítica aos argumentos de Tiago Antunes. O autor lembra-nos um facto curioso: na época vitoriana, muitas mulheres trabalharam de moleiras nos moinhos de Lencashire e curiosamente levantavam-se uma hora mais cedo para se encontrarem e lerem juntas Shakespeare. Estamos a falar de mulheres mortificadas pelo trabalho e que se reuniam para lerem Shakespeare. Está este comportamento ligado às competências específicas que Tiago Antunes pretende ou está antes ligado às competências abstratas a que nos temos vindo a referir?

Diz-nos Terry Eagleton:

A educação literária que os trabalhadores dos moinhos de Lancashire teriam recebido com Shakespeare, se por algum milagre tivessem entrado na academia, teria sido bastante inútil. Os estudos literários da época eram uma combinação de erudição árida e palavreado extravagante. Jude Fawley, personagem central de um livro de Thomas Hardy, é um pedreiro que tenta entrar em Oxford e é rejeitado pelos seus professores que o aconselham a manter-se na sua humilde posição na vida, e, numa típica ironia à Thomas Hardy, volta a Oxford para reparar os mesmos muros universitárias que lhes fecharam a porta de entrada.

No entanto, Hardy deixa claro que as ambições de Jude são erradas, assim como irrealistas. Ele está melhor fora desta cidadela de aprendizagem antiquada, exercendo as suas competências práticas que o seu autor tanto admirava. O próprio Hardy não era um rústico, mas foi formado como arquiteto, e tinha um profundo respeito pelo trabalho manual. Quando, como grande celebridade literária que já era destapa uma placa para inaugurar um novo edifício, foi visto a correr a sua mão sobre a pedra e a cheirá-la. Também ele foi descrito como um autodidata, apesar de ter recebido uma melhor educação do que a grande maioria dos seus compatriotas. Foi de novo aquela coisa de Oxbridge.” (…)

O conhecimento prático, do tipo que Thomas Hardy admira em Jude Fawley, não é uma questão de ignorância nem de intelecto desincorporado. Pelo contrário, representa o ponto em que o saber e o fazer estão indissoluvelmente ligados entre si. De facto, a palavra “saber” está relacionada com a palavra “poder” (do inglês antigo cunnan). É esta unidade de pensamento e de ação que os ativistas da Greve Geral [ de 1926] demonstraram. Ao fazê-lo, criaram um papão tal que os jornalistas de televisão que hoje entrevistam sindicalistas tendem a perguntar, de boca em boca, se este terrível acontecimento se vai repetir, sem dúvida ignorando o facto de ter durado apenas nove dias. (…)

No entanto, não se deve concluir que o conhecimento é puramente instrumental. Há momentos em que as pessoas precisam de saber para serem livres, e outros em que o conhecimento é um fim em si mesmo.

Existiam outrora lugares conhecidos como universidades onde este tipo de estudo podia florescer, mas os maiores destes lugares desapareceram mesmo que os edifícios tenham sido deixados de pé. Mesmo assim, não há razão para aprender sobre Balzac ou Beethoven ou buracos negros a não ser por prazer e fascínio. O dramaturgo Bertolt Brecht esperava uma civilização futura sobre a qual dizia: “pensar poderia ser um verdadeiro prazer sensual”. Temos um bom bocado de caminho a percorrer.” Fim de citação.

 

Mas não era preciso viajar até à época vitoriana, basta pegar no exemplo do que foi o meu pai. Perdeu a mãe à nascença, teve como pai um homem viúvo, guarda-republicano suspeito de na altura estar ligado aos comunistas e transferido para longe da sua terra, a região de Abrantes. O meu pai foi criado um pouco por caridade. Sobreviveu e lamento dizê-lo desta maneira, foi educado pela força da fraternidade dos que o criaram e pela força da natureza e ambas traçaram-lhe a vida: um artesão em todo o sentido da palavra, com uma diferença relativamente à personagem de Thomas Hardy: era um homem dos sete ofícios. Dizia-me um amigo seu e meu de Fratel, Vitor Alexandrino depois do meu pai morrer, que quando se tratava de ir podar olivais nas encostas do Tejo, dava gosto vê—lo olhar para o sol, olhar para as oliveiras, para o terreno, para a inclinação das ribanceiras e era imediato: a linha de corte é esta e dizia como é o que o olival deveria ser podado. E o olival era podado com arte: a competência específica dos que iam com ele, tinham-na, só resultava porque à competência específica estava associada a competência abstrata, estava associado o saber e o saber-fazer de alguém. Mesmo aqui, numa questão tão simples, a oposição a Tiago Antunes é frontal. Relembro do autor do texto citado uma afirmação que representa a sequência lógica da posição defendida pelo governo português a favor das competências específicas face às competências abstratas:

Existiam outrora lugares conhecidos como universidades onde este tipo de estudo podia florescer, mas os maiores destes lugares desapareceram mesmo que os edifícios tenham sido deixados de pé”. Fim de citação

 

Levando ao limite a lógica de Tiago Antunes, que é também a da Reforma de Bolonha, quanto às competências específicas, devemos então criar estas competências, devemos então exigir que se mude o tipo de provas para que estejam em consonância com as ditas competências de modo a que os nossos candidatos sejam então admitidos nas instituições europeias. Mas lançarmo-nos no mundo das competências específicas sem suporte de competências abstratas, isto significa que seremos lançados para o mundo de Charlot em Os Tempos Modernos de Chaplin. Conclui-se: os nossos dirigentes não aprendem mesmo nada com os nossos erros, contrariamente ao que sugere Charles de Gaulle. Não nos esqueçamos que às universidades cabe a nobre função de ensinar a aprender, às outras Instituições, privadas ou públicas, cabe a nobre função de aprender a fazer. Não confundamos os planos em que as diferentes formações devem ser encaradas.

Julgo ter-lhe respondido segundo o que melhor sei às suas inquietações relativamente ao meu texto em referência.

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Notas

[1] Um discurso que vale a pena voltar a ouvir ou ler, como grelha de leitura para os tempos de hoje. (original aqui)

[2] Digam-me só qual o sentido de estar a ensinar em termos de análise vetorial o que é uma reta e quais as suas propriedades no oitavo ano ou mesmo no nono ano? Desde muito cedo aprendi, creio que com Laurent Schwartz ou com Jean Dieudonné, que para resolver um problema em matemática, primeiro que tudo é preciso saber colocá-lo em equação, e isto é competência abstrata e, mais ainda, que cada matéria ensinada de que o problema posto emana deve estar adequada à faixa etária dos alunos a que se destina.

O contrário disso dá origem a casos como este: vou a uma loja de uma multinacional de produtos cosméticos comprar um pack de 3 produtos em promoção para oferta. Preço do pack é conhecido, está fixado. Desse pack pretendo a troca de um determinado produto por um outro que custava mais 5 euros. E faço a pergunta: quanto é? A empregada dirige-se ao balcão para ir buscar a máquina de calcular. Não é preciso. O valor é X. Como, pergunta ela. É simples, soma ao valor do pack a diferença do produto mudado. São mais cinco euros. Falou-se depois sobre o ela aprendeu em matemática no secundário e a resposta é um espanto: só soube o que era 10% de 100 depois de estar a trabalhar aqui! Sem comentários. Era uma jovem na casa dos 20 anos.

 

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