Dois exemplos sobre a Europa em disfuncionamento: Portugal e Inglaterra . Por Júlio Marques Mota

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 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, em 16 de Janeiro de 2023

 

Portugal está como está

Ninguém pode ignorar que o sistema está a romper pelas costuras. E foi preciso toda esta contestação de greves com os prejuízos inerentes para o país, para que os socialistas se assumissem enquanto socialistas, entendendo os problemas de quem trabalha, o que desde há muito tempo tinham deixado de fazer. Alguns exemplos de situações deste nosso país tão maltratado pelas gentes do PS e muito pior ainda pela oposição de direita que se mostra a querer viver com um clima de ódio, seja pela parte da Iniciativa Liberal, seja pelo PSD ou mais grave ainda, pelo Chega:

1. Os professores têm andado a ver a sua profissão cada vez mais degradada, por cada governo que passou nestas últimas décadas e isto sobretudo desde os tempos de Sócrates, de Maria de Lurdes Rodrigues, que fez dos professores mangas de alpaca. E com essa política foram milhares os professores que pediram a reforma antecipada. Esquecemos isso?

Nessa época, com 100 mil professores na Praça do Comércio os socialistas fizeram o contrário do que disse De Gaulle, para quem é próprio da Democracia assumir os seus erros e corrigi-los. Um seu discurso que ficou para a História, proferido creio eu, em Phnom Penh. Em vez disso, os socialistas blindaram-se em torno de Maria de Lurdes Rodrigues, entendendo-se assim que a Democracia se revela pela capacidade dos governantes se imporem com os seus erros e adjetivaram os seus adversários, face a estes mesmos erros transformados em virtudes, com todos os nomes imagináveis. Assim foi com Mário Nogueira. Naturalmente a UGT esteve fora disso.

2, No protesto atual dos professores, curiosamente, não se houve falar de Universidade onde praticamente ninguém sobe de escalão, e onde há assistentes convidados a serem tratados como carne de canhão, pagos à hora e a menos de 8 euros à hora de trabalho efetivo. E para cúmulo, são admitidos sob uma declaração de interesses do candidato a um emprego precário e a trabalhar naquelas condições. Haja vergonha!

3. Alexandra Reis. Curiosamente o problema foi ela receber 500.000, não são os contratos de trabalho milionários feitos à peça e com cláusulas contratuais subjacentes que mais parecem as de um contrato de um grande jogador de futebol a que os grandes especuladores chamam de para-quedas dourados. Discutir esses contratos milionários, isso, parece estar fora de questão. Esta postura vem confirmar, desculpem-me a ironia, o que disse António Costa e Mário Centeno a propósito de uma contratação milionária, a de António Domingues, para a Caixa Geral de Depósitos. Quem quer uma boa equipa de futebol tem que lhes pagar, terá dito António Costa e era assim que se iria pagar a António Domingues. Felizmente, a esquerda não oficial movimentou-se.

Numa sessão do PS na altura foi perguntado ao primeiro-ministro:

“É uma vergonha [o salário do Presidente da CGD Paulo de Macedo]. É uma afronta a quem tem pensões muito pequenas e até ao senhor que é primeiro-ministro e que com certeza não ganha aquilo. Interrogo-me: como é que é possível uma pessoa ganhar tanto dinheiro assim?”.

E a resposta de António Costa foi a seguinte:

“Se queremos uma Caixa profissionalmente gerida, com capacidade técnica e independência, para que não sofra pressões do acionista, temos de oferecer aos gestores da CGD as mesmas condições que têm os gestores dos outros bancos”.

Entretanto diz-nos o meu antigo aluno Luís Aguiar-Conraria no Expresso:

“Queixam-se do desbaratar de dinheiros públicos com a indemnização do meio milhão de euros [a Alexandra Reis] . Basta perder cinco minutos para encontrar casos piores. Por exemplo, quando Paulo Macedo assumiu a liderança da Caixa Geral de Depósitos, pagou mais de €700 mil a um dos administradores (que até continuou na Caixa) e quase um milhão a outro. A indemnização a Alexandra Reis foi paga com o acordo da tutela. Se o Governo de Portugal não viu nisso um desperdício de dinheiros públicos (pelo contrário, continuou a nomeá-la para altos cargos), era a CEO da TAP que ia ver?” Fim de citação. Dispensam-se outros comentários.

 

4. Saúde. Ninguém se quer lembrar que os ataques ao Sistema Nacional de Saúde começaram com Cavaco Silva, mantiveram-se com Sócrates, alavancaram-se na sua força destruidora, de novo, com o PSD pela mão de Passos Coelho, Paulo de Macedo (o da Caixa Geral de Depósitos para a Caixa levado pela mão de António Costa) e (curiosamente) de Luís Montenegro, estes últimos às ordens da União Europeia e da Troika, e depois foram igualmente mantidos por Costa, Centeno e Adalberto Campos Fernandes. Somos todos Centeno, o mesmo é dizer, somos todos austeridade, é o que dizia o Ministro da Saúde Adalberto. O resultado acumulado de todas estas políticas é o seguinte; se é grávida muna-se de um computador para saber onde é que pode ir parir e espera-se que tenha sorte, que nas centenas de quilómetros a percorrer não saltem as rodas do carro!. Se precisa de uma ressonância magnética não terá muita sorte pelo Serviço Nacional de Saúde , pode levar mais de uma mês a que a requisição chegue ao Hospital respetivo, mesmo mandada por email, entra na fila de espera e pode esperar largos meses, e depois de feita, espera pela sua vez de novo para a consulta com o especialista do Hospital. No privado este trajeto pode levar 15 dias. Muitos meses em espera e, entretanto, pode morrer que dos pobres que a isto têm de se sujeitar não fala a História

Isto é Portugal, hoje governado por socialistas, mas foi também assim quando governado pelas gentes do PSD e do CDS. Lembram-se da Lei Cristas sobre a Habitação que, na sua substância, o atual governo ainda mantém em vigor?

 

A situação na Inglaterra

Deixemos Portugal e olhemos agora para um outro país, neste caso governado pelos Conservadores, a Inglaterra, e vejamos então que os grandes problemas não são em nada diferentes. As diferenças se existem são simplesmente paramétricas ou de detalhe.

Diz-nos Victor Hill, um conservador inglês em 13 de janeiro de 2022 (original aqui):

O excesso de mortes está a ultrapassar as 1.000 por semana – o nível mais alto desde há meio século. A tentativa de Virgin Orbit de lançar oito satélites a partir do porto espacial da Cornualha terminou num fracasso vergonhoso.

Os professores já entraram em greve na Escócia e os seus colegas de profissão farão, em breve, o mesmo na Inglaterra. As tripulações de ambulâncias entraram em greve, mais uma vez. Os números de espera por acidentes e serviços de emergência foram descritos como “apocalípticos”, com 600.000 pessoas à espera de mais de quatro horas de tratamento na primeira semana do ano. O Royal Mail foi alvo de um ataque informático por cibercriminosos e foi apresentado um pedido de resgate.

Britishvolt, uma empresa vinda não se sabe de onde e que iria catapultar o Reino Unido para a linha da frente da produção de carros elétricos foi vendida por cerca de 4% do seu valor estimado há cerca de um ano. Ainda está sem uma tecnologia comprovada, quanto mais com uma fábrica.

A Igreja de Inglaterra, embora reduzindo drasticamente o número de vigários por razões de custos, está a atribuir 100 milhões de libras a um fundo para corrigir as consequências da escravatura.

Cerca de três milhões de pessoas suportaram o Natal às escuras porque os seus contadores inteligentes de pré-pagamento não foram recarregados, apesar de as empresas britânicas de distribuição de energia estarem sentadas em vários milhares de milhões de pré-pagamentos de clientes.

Quando as rodas saltam do carro, é tentador culpar o condutor atual, esquecendo os seus condutores e proprietários anteriores e toda a sua história de manutenção. Mas não espere que os passageiros tenham empatia pela pessoa que está ao volante.” Fim de citação

 

De tudo isto surge uma pergunta: o que há de comum então entre dois países de importância económica tão diferentes, de governos aparentemente tão diferentes e com problemas graves tão semelhantes?

A resposta é simples: o modelo económico-social é o mesmo: o neoliberalismo e as diferenças entre diversos governos do mesmo país ou entre governos de países diferentes, da mesma cor politica ou de cores opostas, são puramente paramétricas, são de simples detalhe e o que varia é, sobretudo, a roupagem com que o mesmo modelo se apresenta vestido.

 

Enquanto não entendermos esta triste realidade, estaremos então condenados a aceitar este mesmo sistema político em que as alternâncias do poder se traduzem exclusivamente na mesma politica económica e social, confirmando o que nos diz Lampedusa: “é preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma”; enquanto não entendermos isto não seremos capazes de quebrar o ciclo vicioso das políticas seguidas desde há décadas e que condena milhões de pessoas a viverem em condições abjetas no quadro de uma horrorosa precariedade e sem perspetivas de futuro. Os nossos filhos e netos merecem um outro futuro que não este que nos querem impor, saibamos nós então lutar por ele.

E a metáfora de Victor Hill sobre as rodas do carro tem que se diga.

 

2 Comments

  1. De acordo. Peço desculpa do atrevimento para fazer duas correções: no ponto 2 – será “não se ouve falar da Universidade”… e no ponto 4 É SERVIÇO Nacional de Saúde e não sistema como, desde Cavaco, toda a direita se vem referindo ao SNS. No ponto 1 – não concordo que Maria de Lurdes Rodrigues (MLR) tenha feito dos professores mangas de alpaca – essa foi a ideia que o Mário Nogueira (MN) fez passar sobre a “avaliação de desempenho”. MLR sabe muito bem o que é “avaliação de desempenho”. Em geral, nós portugueses, quando ouvimos falar de avaliação associamos logo aos exames a que fomos sujeitos ao longo dos anos escolares, não aprendemos a fazer auto-avaliação, fundamental para bom desempenho e nos corrigirmos. Não conheço, desse tempo, outra carreira em que Todos chegavam ao topo da carreira que não fosse a dos professores dos liceus! E esse verdadeiro ódio a MLR perdurou até hoje mas não em todos! Nunca fui professora mas dediquei anos à avaliação de desempenho na minha área profissional, anos antes dessa guerra a MLR. Peço desculpa de tão longo comentário que não interessará a ninguém. Poderá ser apagado se o entenderem descabido.

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