A Guerra na Ucrânia… e a Grande Mentira — “Sy Hersh e a forma como vivemos atualmente”, por Craig Murray

Seleção e tradução de Francisco Tavares

9 min de leitura

Sy Hersh e a forma como vivemos atualmente

A cobertura da sabotagem dos gasodutos Nordstream ajudou Murray a perceber algo importante sobre a forma como funciona a Grande Mentira.

Por Craig Murray

Publicado por  em 10 de Fevereiro de 2023 (ver aqui)

Publicação original em CraigMurray.org.uk

 

Instalação de GNL na ilha industrial norueguesa de Melkøya, ponto final do gasoduto submarino para gás natural dos campos de Snøhvit, no Mar de Barents. (Andreas Rümpel, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons)

 

É um indicador claro do desaparecimento da liberdade das nossas chamadas democracias ocidentais que Sy Hersh, sem dúvida o maior jornalista vivo, não consiga colocar esta revelação monumental [1] na página da frente do The Washington Post ou do The New York Times, mas tenha de se auto-publicar na internet.

Hersh conta a história da destruição americana dos gasodutos Nordstream com detalhe forense, dando datas, horas, método e unidades militares envolvidas. Ele também descreve a importância das forças armadas norueguesas que trabalharam ao lado da Marinha dos EUA na operação.

Um ponto que Sy não sublinha muito, mas sobre o qual vale a pena dizer mais, é que a Noruega e os EUA são, naturalmente, os dois países que beneficiaram financeiramente, em enorme medida, com a explosão dos gasodutos.

Não só ambos ganharam enormes excedentes de exportação com o salto nos preços do gás, como a Noruega substituiu directamente o gás russo na ordem dos 40 mil milhões de dólares por ano. A partir de 2023, os Estados Unidos aparecerão nessa lista em segundo lugar atrás da Noruega, após a abertura nos últimos dois meses de dois novos terminais de gás natural liquefeito na Alemanha, construídos para substituir o gás russo por fornecimentos dos EUA e do Qatar.

 

Então, a Rússia perdeu massivamente do ponto de vista financeiro com a destruição da Nordstream e quem beneficiou? Os EUA e a Noruega, os dois países que fizeram explodir o gasoduto.

Mas, claro, esta guerra não tem nada a ver com dinheiro ou hidrocarbonetos e tem tudo a ver com liberdade e democracia….

Para voltar ao artigo de Hersh, particularmente interessante é a série de decisões tomadas para evitar a classificação da operação de várias formas que exigiriam a sua comunicação ao Congresso. Em termos de história dos Estados Unidos, isto deveria ser um assunto muito importante.

Para o poder executivo, cometer o que é um acto de guerra sem a aprovação do legislador é fundamentalmente inconstitucional. Mas esse é um daqueles resquícios pitorescos da democracia que o consenso das elites neoliberais pode tranquilamente contornar hoje em dia.

Hersh expõe os bem conhecidos antecedentes com detalhes convincentes, incluindo que, do Presidente dos EUA Joe Biden para baixo, os americanos anunciaram efectivamente o que iriam fazer, abertamente.

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Mas o que mais me preocupa em toda a história é a cumplicidade unânime dos principais meios de comunicação social em ignorar aquilo que é completamente óbvio.

A linha dos media, papagueada aqui incansavelmente pela BBC e pelos media corporativos, era que os russos tinham provavelmente feito explodir o gasoduto no qual tinham gasto tão grandes recursos e três décadas de intensa actividade diplomática, e que deveria ser a chave para a mais valiosa fonte de rendimento da Rússia durante os próximos 40 anos.

Isto foi sempre literalmente incrível. Teria de se estar louco para acreditar nisso.

 

Como funciona a Grande Mentira

Na verdade, ensinou-me não só que estamos verdadeiramente no reino do totalitarismo e da Grande Mentira, mas aprendi algo muito importante sobre a forma como a Grande Mentira funciona.

O segredo não é que as pessoas acreditem genuinamente numa afirmação ultrajante. O segredo é que as pessoas acreditam genuinamente que estão numa batalha do bem contra o mal, e é necessário aceitar a narrativa que está a ser promovida, no interesse de combater o mal.

Não questione, apenas siga. Se questionar, está a promover o mal.

Tenho a certeza de que é assim que funciona.

Os jornalistas estenógrafos estatais e empresariais são, na realidade, indivíduos inteligentes. Se pensassem nisso, perceberiam que a narrativa de que a Rússia fez explodir o seu próprio gasoduto é um disparate óbvio.

Mas estão convencidos de que é moralmente errado pensar sobre isso.

Seymour Hersh a autografar livros na livraria London Review of Bookshop, Abril de 2016. (David Jones, Flickr, CC BY-NC-SA 2.0)

 

É por isso que nenhum deles desafiou as alegações igualmente loucas de que a Rússia estava repetidamente a bombardear as suas próprias forças que ocupavam a central nuclear de Zaporizhzhia. É também por isso que nenhum deles desafiou a versão oficial absolutamente risível da história de Skripal.

Contei anteriormente o episódio de quando trabalhei no Foreign and Commonwealth Office e perguntei a um bom amigo se ele acreditava realmente na desinformação sobre as armas iraquianas de destruição maciça (ADM) com que estava envolvido.

Ele respondeu referindo-se ao jogo de vídeo “Championship Manager” (agora rebaptizado “Football Manager”), que costumávamos jogar juntos. Ele disse que quando estava no jogo, era imersivo, era gerente do Liverpool e isso absorvia-o completamente.

Do mesmo modo, quando atravessava os portões FCO, o mundo dos relatórios de inteligência era imersivo e o Iraque tinha estas ADM dentro desse mundo. Ele trabalhava na “realidade” do FCO. Quando saía do FCO à noite, ele vivia numa realidade diferente, o nosso mundo no pub.

Conheço jornalistas suficientemente brilhantes para separar a sua produção profissional do que realmente pensam, de uma forma semelhante. (Tive uma vez uma conversa neste sentido com Jeremy Bowen em Tashkent).

A maioria, porém, não pensa desta forma. Pensam simplesmente que todas as pessoas de pensamento correcto apoiam a luta histórica contra os russos malvados, por isso deve ser correcto ler a propaganda sem pensar demasiado sobre ela.

Aqueles de nós que criticam a promoção agressiva da guerra na Europa, não estamos apenas excluídos de todos os principais meios de comunicação e confinados aos cantos da Internet. Mesmo aí somos fortemente reprimidos nas redes sociais (razão pela qual o artigo de Sy Hersh não tem as dezenas de milhões de leitores que merece).

Não conseguimos sequer ter a liberdade de reunião.

Dois locais de encontro de esquerda bem estabelecidos cancelaram a reunião “No-2-NATO” na qual eu participaria em Londres no dia 25 de Fevereiro. Os motivos de cancelamento da Conway Hall incluíram ameaças ao financiamento e receios quanto à segurança do pessoal.

Estamos agora reduzidos a uma reunião de guerrilha, cujo local no centro de Londres só será anunciado na noite anterior.

Uma ilustração da Janela de Overton, juntamente com os graus de aceitação do comentador político Joshua Treviño. (Hydrargyrum, CC BY-SA 2.0, Wikimedia Commons)

 

Será isto realmente uma democracia, onde não é possível aos que divergem realizarem uma reunião pública sem segredo, subterfúgios e esconderem-se dos apoiantes do Estado?

Exorto-o a vir ter connosco no dia, independentemente das suas opiniões sobre o assunto, para apoiar o direito à liberdade de expressão.

Tenho uma opinião diferente de talvez todos os outros oradores, sobre a legitimidade da invasão russa da Ucrânia, à qual me oponho.

Mas também me oponho à expansão da NATO, que é uma causa subjacente à guerra, e oponho-me, de facto, à existência da própria NATO.

A NATO é uma máquina de guerra que suga recursos aos trabalhadores para beneficiar o complexo industrial militar, e desencadeia uma destruição devastadora nos Estados em desenvolvimento que não disponibilizam os seus recursos naturais às elites bilionárias ocidentais.

É também um nó fundamental do aparelho de propaganda que manipula e controla a nossa sociedade, particularmente como contra-narrativa. O pensamento divergente é agora rigorosa e sistematicamente excluído.

Já não existe uma janela Overton de debate permitida. Reduziu-se e deve ser renomeada a caixa de correio Overton.

Uma daquelas pequenas e difíceis, mesmo no fundo da porta.  Com uma mola muito forte, e cães rosnantes a guardá-la.

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Nota

[1] N.T. Ver artigo publicado ontem em A Viagem dos Argonautas, Como os EUA Eliminaram o Gasoduto Nord Stream.


O autor: Craig Murray [1958 – ] é autor, radiodifusor e activista dos direitos humanos. Foi embaixador britânico no Uzbequistão de Agosto de 2002 a Outubro de 2004 e reitor da Universidade de Dundee de 2007 a 2010. As suas reportagens estão inteiramente dependentes do apoio dos leitores. As subscrições para manter este blogue em funcionamento são recebidas com gratidão.

 

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