Nota de editor:
A parte III , Keynes versus Harry White, é constituída pelos seguintes textos:
Texto 1 – Porque é que foi White e não Keynes a inventar o sistema monetário internacional do pós-guerra, por James M. Boughton
Texto 2 – Bretton Woods – Declaração de John Maynard Keynes sobre o proposto Banco para a Reconstrução e Desenvolvimento
Texto 3 – Discurso de Henry Morgenthau, Jr., na Sessão Plenária Inaugural (1 de Julho de 1944) em Bretton Woods
Texto 4 – Discurso de Henry Morgenthau, Jr., na Sessão Plenária de Encerramento da Conferência de Bretton Woods (22 de Julho de 1944)
Texto 5 – Cooperação Financeira Global como um Legado de Bretton Woods, por Randal K. Quarles
Texto 6 – A Batalha de Bretton Woods, Introdução, por Benn Steil
Texto 7 – A história está feita, por Benn Steil
Texto 8 – Os fundamentos esquecidos de Bretton Woods, por Eric Helleiner
Nota de editor: dada a extensão do presente texto, apresentá-lo-emos em duas partes. Hoje é a primeira.
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
18 min de leitura
Parte III – Texto 1. Porque é que foi White e não Keynes a inventar o sistema monetário internacional do pós-guerra (1/2)
(*) A maior parte deste trabalho foi escrito enquanto eu estava no St. Antony’s College, Universidade de Oxford, de licença do FMI. Um esboço anterior foi apresentado numa conferência em Beersheba, Israel, em Junho de 2001. O artigo deverá ser publicado em The Open Economy Macromodel: Past, Present, and Future, editado por Arie Arnon e Warren Young (Kluwer Publishing). Estou grato a Don Moggridge, Jacques Polak, Roger Sandilands, e aos participantes da conferência por comentários sobre esse projecto. Os pontos de vista aqui expressos são pessoais e não devem ser atribuídos a nenhuma instituição.
Publicado por FMI –
, Departamento de Desenvolvimento e Análise de Políticas, março de 2002 (ver aqui)
As opiniões expressas neste documento de trabalho são as do seu autor e não representam necessariamente as do FMI ou as políticas do FMI. Os documentos de trabalho descrevem investigações em curso do autor e são publicados com o fim de suscitar comentários e futuro debate.
Resumo
O sistema monetário internacional é largamente o produto de negociações havidas durante a II Guerra Mundial entre responsáveis dos Estados Unidos e do Reino Unido, chefiados respetivamente por Harry Dexter White e John Maynard Keynes. O desenho do sistema, principalmente o Fundo Monetário internacional, reflete muito mais o plano estado-unidense do que o britânico. Esse produto resultou não apenas da posição económica superior dos Estados Unidos mas também das diferenças entre os pontos de vista de White e de Keynes sobre matérias chave. A análise dos documentos económicos de White mostra que ele era mais multilateral do que Keynes e colocava uma maior prioridade sobre a disciplina monetária.
Índice
I. Porquê White?
A. Antecedentes
B. White como keynesiano
C. White e as finanças internacionais
II. Porque não Keynes?
A. Keynes como defensor do Império
B. O papel secundário da prevenção da inflação
III. Reflexões finais
Referências
A. Arquivos
B. Documentos
C. Publicações
Na Grã-Bretanha [Harry White] é demasiadas vezes pensado como um escriba qualquer, uma espécie de robô, que escreveu… uma versão inferior do plano Keynes – principalmente para vexar os britânicos! Muito diferente foi o verdadeiro Harry White. Ele era uma figura notável, a quem deveria ser atribuído um lugar honroso nos anais britânicos.
Harrod (1951), pp. 537-38
O papel de Harry White nas negociações de empréstimos britânicos é, como em quase tudo o resto na sua carreira, uma mistificação.
Skidelsky (2000), p. 424
A conceção do FMI e o seu papel no atual sistema monetário internacional são em grande parte o produto de negociações em tempo de guerra entre os Estados Unidos e o Reino Unido no período que antecedeu a conferência de Bretton Woods de 1944. Os dois principais negociadores, John Maynard Keynes para os britânicos e Harry Dexter White para os americanos, cada um deles desenvolveu um plano independente para uma instituição multilateral que promoveria a estabilidade financeira e o crescimento do comércio internacional e ajudaria a evitar a repetição dos erros desastrosos cometidos após a primeira Guerra Mundial. Onde os dois planos diferiam, o resultado final era dominado pelo Plano de White, e não pelo de Keynes.
Deixando de lado as questões técnicas e estruturais, três diferenças entre os dois planos eram particularmente significativas. Primeiro, o FMI de White deveria ser mais pequeno do que o de Keynes e alocaria os seus escassos recursos de forma seletiva, em vez de os disponibilizar gratuitamente aos membros a pedido. Segundo, o FMI de White emprestaria moedas nacionais em vez de um ativo internacional criado de novo (o “bancor” de Keynes). Terceiro, o FMI de White seria uma instituição mais multilateral, em vez de uma concebida e dominada por dois “Estados fundadores”, tal como previsto por Keynes. Tanto o processo como o resultado em Bretton Woods representaram compromissos entre estas duas visões iniciais, mas os britânicos cederam muito mais do que os americanos. Porque é que Keynes foi tão mal sucedido?
Em Washington Lord Halifax
Sussurou um dia a Lord Keynes:
“É verdade que eles têm os sacos do dinheiro
Mas nós temos todos os cérebros” [1].
A ideia generalizada e convencional sobre Bretton Woods é que os britânicos, liderados pelo maior economista do século XX, tinham as ideias certas sobre como conceber as instituições que dariam forma ao sistema monetário internacional após a guerra. Os americanos, porém, tinham o poder económico, e usaram esse poder para controlar o resultado. Como todas as simplificações excessivas, esta tem uma certa credibilidade, mas está longe de transmitir toda a história.
Tanto o Plano Keynes como o Plano White continham muito de valor, e ambos continham falhas. O produto final – os Artigos de Acordo para o FMI redigidos em Bretton Woods – foi uma melhoria em relação a ambos os planos, mas também continha falhas. White, claro, estava a trabalhar para promover os interesses económicos e políticos dos EUA, tal como Keynes estava focalizado nos interesses britânicos. Que a conceção de White do sistema do pós-guerra tenha prevalecido essencialmente é atribuível apenas em parte à força económica superior dos Estados Unidos. Também importante foi o facto de White ter compreendido que a ascendência americana dependia de um regime multilateral e multinacional aberto de comércio e finanças. As aspirações britânicas, em contraste, dependiam da perpetuação do sistema de preferências do Império e – apesar da oposição americana a esse sistema – do desenvolvimento de uma parceria económica bilateral com os Estados Unidos. O desespero e a inconsistência dessa posição condenaram o Plano Keynes desde o início.
O presente documento começa por esboçar a importância de Harry Dexter White como economista do governo dos EUA e explicar os antecedentes do seu trabalho sobre o sistema monetário internacional. Analisa depois as semelhanças e contrastes entre as conceções de White e Keynes e extrai algumas lições para a nossa compreensão do sistema atual.
I. Porquê WHITE?
Em contraste total e absoluto com Keynes, White pode ser o grande economista menos compreendido da história. Na sua maior parte, o seu legado está na prática institucional e não nas publicações. Ao longo de grande parte da sua carreira, as suas ideias foram filtradas através da burocracia e diplomacia e raramente foram sujeitas a uma análise académica pelos seus pares. Para apresentar os seus pensamentos e contribuições, é necessário esquadrinhar uma quantidade imensa de memorandos internos do governo. Estes documentos cobrem uma grande variedade de questões de política económica, mas quase todos foram escritos em resposta a crises durante os anos de depressão e guerra da década de 1930 e início da década de 1940.
A. Antecedentes
Harry White era um americano de segunda geração, nascido em Boston em 1892 de pais imigrantes da Lituânia, Além de um período na Faculdade Agrícola de Massachusetts em Amherst, começou a sua educação universitária apenas aos 29 anos de idade, após passagens pela loja de ferragens do seu pai e pelo exército dos EUA durante a Primeira Guerra Mundial. Estudou em Columbia, depois em Stanford, onde concluiu a licenciatura e mestrado em economia, e finalmente em Harvard, onde concluiu o seu doutoramento sob orientação de Frank Taussig. A sua dissertação, sobre as contas internacionais francesas, ganhou o prémio David A. Wells e foi publicada pela Harvard University Press em 1933. Agora com 40 anos de idade, White ensinou por um curto período de tempo em Harvard e depois assumiu um cargo de professor no Lawrence College, no Wisconsin. Em Junho de 1934, aceitou um convite de Jacob Viner para passar o Verão no Tesouro dos Estados Unidos em Washington, numa investigação especial sobre práticas monetárias e bancárias. Isso levou-o a um trabalho permanente que culminou com a colocação de White como responsável por todas as análises internacionais em 1941, tornando-se oficialmente secretário adjunto (efetivamente o economista-chefe do Tesouro) em 1945, e finalmente o primeiro diretor executivo dos EUA no Fundo Monetário Internacional (efetivamente o funcionário número dois da instituição) [2]. A sua saúde deteriorou-se então, e morreu de ataque cardíaco em 1948.
O trabalho publicado por White, para além da sua dissertação, limita-se a curtas e intermitentes intervenções. Como estudante de pós-graduação, contribuiu para a terceira edição do trabalho empírico de Taussig sobre tarifas, avaliando a capacidade de várias indústrias norte-americanas de competir nos mercados mundiais sem proteção tarifária (Taussig, 1931, Parte V). Enquanto esteve em Wisconsin em 1933, escreveu um artigo para o Quarterly Journal of Economics a pedido de Taussig, sobre o Der Internationale Handel de Gottfried Haberler e o Interregional and International Trade de Bertil Ohlin (White, 1934). Passou depois a estar ocupado até 1943, quando apresentou um artigo sobre acordos financeiros do pós-guerra nas reuniões anuais da Associação Económica Americana (White, 1943). Após a conferência de Bretton Woods, escreveu pelo menos dois artigos sobre o FMI (White, 1945, 1947). Esses três últimos artigos, porém, foram exposições sobre o caso da criação do FMI e do Banco Mundial, e não trabalhos analíticos. Nenhum dos artigos publicados por White revela a sua opinião sobre a política monetária internacional em qualquer profundidade. Para isso, é necessário recorrer à extensa coleção dos seus escritos no Tesouro nas coleções de arquivos da Universidade de Princeton e dos Arquivos Nacionais dos EUA, especialmente para o período 1934-38, quando White era um analista económico e ainda não um burocrata com um pessoal subordinado para lhe redigir documentos [3].
Dada a inacessibilidade do trabalho de White, não é surpreendente que o seu papel tenha sido largamente negligenciado, exceto como arquiteto do FMI. Dois aspetos desta negligência justificam um exame: White como um dos primeiros Keynesianos, e como um economista monetário internacional.
B. White como Keynesiano
A maioria dos inquéritos sobre o desenvolvimento da política orçamental anticíclica nos Estados Unidos ignoraram totalmente White (Laidler, 1999) ou mencionaram-no apenas de passagem como tendo sido um influente New Dealer que, por sua vez, foi influenciado por Keynes. Roy Harrod (1951) observou que White “tinha uma qualidade intelectual muito sólida e era um ardente admirador do trabalho económico de Keynes” (p. 538). Robert Lekachman (1967) também notou a influência de Keynes sobre White, tanto na política orçamental como na política cambial (pp. 105-7). Herbert Stein (1969) incluiu White numa lista de economistas do governo dos EUA que apoiavam a utilização da política orçamental contra-cíclica para combater a recessão de 1937-38 (p. 102).
A principal exceção a esta minimização foi June Flanders (1990), que reconheceu a importância de White como contribuinte para o pensamento económico. Com base numa interpretação textual da sua dissertação de doutoramento (pp. 236-41), concluiu que ele era um economista “clássico tardio” (juntamente com os seus professores, Taussig e Viner) que “se aproxima mais da análise macro keynesiana do que qualquer dos outros do grupo” (p. 240). Ela observou em particular que a análise de White sobre os efeitos de um choque real exógeno nos fluxos comerciais prefigurava a abordagem de “rendimento” ou de absorção em contraste com a aceitação prevalecente da abordagem das elasticidades de preços.
Um artigo recente de David Laidler e Roger Sandilands (2002) ressuscitou um memorando de 1932 escrito em co-autoria por Lauchlin Currie, P. T. Ellsworth, e White, que estabelece claramente um esquema para combater a depressão através de políticas monetárias e orçamentais vigorosamente expansionistas, Laidler e Sandilands argumentam que este memorando ilustra as origens intelectuais em Harvard do pensamento sobre política macroeconómica contra-cíclica, e que o modelo implícito era mais monetário do que “keynesiano” (ou seja, o memorando sugere que a expansão orçamental estimularia a economia através do seu efeito sobre a oferta de dinheiro). Embora seja impossível determinar as contribuições separadas dos autores individuais, o memorando contradiz definitivamente a noção de que as opiniões de White sobre a política orçamental apenas refletiam as ideias de Keynes.
C. White e as Finanças Internacionais
As opiniões de White sobre economia monetária internacional também parecem ter-se desenvolvido independentemente das de Keynes e terem sido influenciadas particularmente por outro dos seus professores de Harvard, Allyn Young. Infelizmente, o pensamento de White sobre estas questões evoluiu erraticamente, e os seus escritos não revelam uma posição totalmente consistente. A sua visão fundamental era que a política monetária e cambial deveria ser sujeita a regras, mas ocasionalmente sugeriu que essas regras deveriam ser aplicadas com flexibilidade suficiente para permitir aos bancos centrais optarem por não participar quando necessário para responder a circunstâncias extremas.[4] Ele articulou pela primeira vez esta visão “fixa mas ajustável”, que prefigurava o recente desenvolvimento de regras de política monetária contingentes ao Estado (Flood and Isard, 1989), no seu relatório do Tesouro de 1934 sobre o papel do ouro. Viner tinha solicitado o relatório na sequência da indexação do dólar em Janeiro de 1934 à taxa desvalorizada de 35 dólares por onça. Num relatório de 400 páginas concluído em três meses, White concluiu que a adesão ao padrão-ouro era um dispositivo disciplinar útil para a política monetária desde que o banco central estivesse preparado para alterar a taxa de câmbio em “períodos de tensão” (“Seleção de um padrão monetário – …, “1934, p. 232)
Keynes articulou uma proposta semelhante para regras de políticas estatais contingentes no ano seguinte, num artigo publicado no Lloyd’s Bank Monthly Review. Ele argumentou que os bancos centrais deveriam tentar chegar a acordo sobre os níveis das taxas de câmbio e, consequentemente, sobre as paridades em relação ao ouro que equilibrem a balança de pagamentos; que deveriam manter essas paridades dentro de um intervalo limitado através da intervenção em mercados à vista e a prazo; e que deveriam estar atentos à necessidade de abandonar as paridades in extremis [5]. “As paridades rigidamente fixadas” poderiam ser abandonadas a favor da colaboração dos bancos centrais, sujeitos a uma “discrição individual última” para cada colaborador desvalorizar a moeda “para aliviar uma tensão súbita e severa ou uma tensão gradual e contínua”. Ao contrário de White, porém, Keynes excluiu explicitamente a utilização da política monetária como primeira linha de defesa para aliviar tal tensão. A taxa de juro, no seu esquema, foi atribuída ao objetivo do pleno emprego: ao equilíbrio interno e não externo (Keynes, Collected Writings XXI, pp. 360-69).
Depois de a colocação temporária de White se ter transformado em emprego permanente no Tesouro, ele desenvolveu ainda mais a sua argumentação. Uma moeda gerida, sem ouro ou outra âncora eficaz, era uma ideia perigosa, argumentou ele em Janeiro de 1935 (“Managed Currency and the Gold Standard”), porque poderia encorajar os países a utilizar a taxa de câmbio para obter uma vantagem comercial. Este perigo era precisamente o que muitos especialistas de outros países temiam ter sido a intenção de Roosevelt de aumentar o preço do ouro nos últimos meses de 1933. Embora White não criticasse explicitamente a política anterior, ele apoiou firmemente o regresso ao ouro em 1934. Mais importante, ele já estava a sugerir a necessidade de regras ou acordos internacionais sobre quando os ajustamentos nas taxas de câmbio eram apropriados e como deveriam ser ajustados [6]. No entanto, as suas opiniões ainda estavam por definir, uma vez que alguns meses mais tarde ele argumentou num longo memorando (“Recovery Program …,” 1935) que a recuperação da depressão exigiria a utilização ativa da política cambial, porque – embora White não utilizasse esta terminologia – os mercados cambiais não podiam ser utilizados para restaurar a paridade do poder de compra na sequência de choques reais específicos de grandes países.
As opiniões de White sobre o papel político da taxa de câmbio desenvolveram-se mais claramente no decurso de 1935. Num memorando de Agosto, ele argumentou contra a maioria das medidas para estimular as exportações, alegando que estas não eram nem necessárias nem suficientes para uma retoma do crescimento económico e que, de qualquer modo, era pouco provável que funcionassem. Apenas duas propostas para estimular as exportações tinham algum mérito: um acordo internacional para estabilizar as taxas de câmbio e uma expansão dos empréstimos oficiais a governos estrangeiros (“Why and how exports should be increased,”, 1935). Preocupava-se, contudo, com a “potencial ausência de autonomia nacional na determinação da política monetária” que seria um subproduto de um acordo monetário internacional (“Monetary Policy”, 1935, p. 15). Alguns meses mais tarde, notou, portanto, a importância de criar uma zona dólar para competir contra a área da libra esterlina e enfraquecer a influência da libra esterlina enquanto constrangimento à política dos EUA. A estabilidade da moeda, e não a dimensão relativa do mercado cambial, seria a pedra angular da sua estratégia para desenvolver o papel internacional do dólar:
Embora não seja muito relevante se é Nova Iorque ou Londres aquela que faz o maior número de negócios no estrangeiro, é importante ter o maior número possível de moedas ligadas ao dólar e não à libra esterlina, se a taxa entre dólares e libras esterlinas não for fixa. Quanto mais moedas estiverem ligadas ao dólar (ou seja, taxas de câmbio fixadas ao dólar), menor será o poder que as autoridades britânicas terão de influenciar a política monetária americana. Quanto mais negócios internacionais um país fizer, maior será a probabilidade de atrair outras moedas na sua órbita de influência, e quanto mais moedas atrair, maior será a sua atividade internacional (“The United Kingdom …,” 1935, p. 24).
A experiência de White com a fraqueza da economia dos EUA nos anos 30 tornou-o curiosamente inseguro quanto ao futuro papel do dólar na economia internacional. Ele não antecipou que o dólar se tornaria a principal moeda no mundo do pós-guerra e que em breve constituiria o grosso dos ativos de reserva internacionais detidos pelos bancos centrais em todo o mundo. Esse papel, acreditava ele, continuaria a ser desempenhado pelo ouro. Em 1940, começou a trabalhar num longo manuscrito sobre “O Futuro do Ouro”, que parece ter pretendido ser o ponto culminante do seu pensamento sobre a política cambial. Trabalhou nele esporadicamente durante pelo menos quatro anos, mas nunca o terá levado a um estádio publicável, e grande parte dele permaneceu sem ser revisto a partir de 1940.
Em “O Futuro do Ouro” argumentou que a única forma de qualquer país poder induzir os investidores a deter créditos líquidos sobre o mesmo durante longos períodos era criar total confiança de que a sua moeda não seria desvalorizada num futuro previsível. Uma vez que nenhum país importante estaria disposto a renunciar à sua soberania quanto à determinação do valor da sua moeda, a capacidade de criar tal confiança era limitada. Assim, os investidores tinham e continuariam a ter preferência pelo ouro em vez de moedas ou outros ativos líquidos, embora pudessem ser induzidos a deter moedas resgatáveis se o risco de desvalorização não fosse demasiado grande. “Muitas décadas, pelo menos, terão de passar antes que muitos países optem por manter as suas reservas sob a forma de alguma moeda estrangeira em papel nunca resgatável em ouro, em vez de ouro ou moeda resgatável em ouro” (Secção IV, p. 6). Além disso, rejeitou, por razões de inconsistência temporal, a ideia de que os países poderiam efetuar de forma credível um acordo cooperativo para fixar as taxas de câmbio sem uma âncora para o ouro. Confrontado com a possibilidade de desvalorizar (ou impor restrições cambiais) como o “mal menor”, em vez de contrair a economia, “o poder soberano optará normalmente por perseguir o mal menor” (Secção IV, p. 4).
Apesar do ceticismo ocasional de White sobre a viabilidade dos acordos monetários internacionais, ele geralmente favoreceu a cooperação multilateral. Aqui os seus instintos naturais foram reforçados pela sua experiência prática na tentativa de gerir a taxa de câmbio entre o dólar e a libra esterlina. Na Primavera de 1935, White fez a sua primeira viagem ao estrangeiro como quadro do Tesouro, onde conheceu Keynes e outros funcionários britânicos. Parece ter causado uma má impressão em muitos deles (Drummond, 1981, p. 192), e pode ter sido excessivamente encorajado pelo aparente desejo de Keynes de uma “estabilização de facto” da libra esterlina em relação ao dólar e, consequentemente, em relação ao ouro (ver “Personal Report …,” 1935, e “Summary of Conversations,” 1935). Um ano mais tarde, durante as negociações que levariam ao Acordo Tripartido entre os Estados Unidos, o Reino Unido e a França, a opinião considerada por White era que a taxa de câmbio entre o dólar e a libra (pairando então em torno da sua paridade histórica de 4,86 dólares) era apropriada, enquanto que o franco francês tinha de ser desvalorizado. Preocupava-o, contudo, que os britânicos pudessem não concordar e retaliar contra uma desvalorização do franco, depreciando a libra esterlina em relação ao dólar (“French Devaluation,” 1936). Os funcionários do Tesouro do Reino Unido reagiram amargamente mas impotentes face à posição dos EUA, argumentando que a 4,86 dólares a libra estava sobrevalorizada (embora reconhecendo que estava subavaliada em relação ao franco).
A dificuldade não era que as opiniões divergiam quanto à conveniência de estabilizar as taxas; era que elas divergiam quanto ao nível de equilíbrio. O Acordo Tripartido, embora fraco nos seus mecanismos de maior colaboração e aplicação, ajudou temporariamente a resolver a disputa anglo-americana, limitando a dimensão da desvalorização francesa e, consequentemente, a dimensão da revalorização efetiva da libra esterlina. Mais importante ainda, reforçou na mente de White os benefícios dos acordos multilaterais sobre as negociações bilaterais com os britânicos.
Outra questão sobre a qual White desenvolveu a sua opinião cedo e independentemente de Keynes, e que veio a ter grande importância mais tarde, foi o controlo dos fluxos internacionais de capital. A dissertação de doutoramento de White demonstrou que o equilíbrio dos efeitos das exportações de capital na economia francesa anterior à guerra não era inequivocamente positivo. Dada a possibilidade de danos decorrentes de fluxos desenfreados, White concluiu que “alguma medida do controlo inteligente do volume e direção dos investimentos estrangeiros é desejável” (White, 1933, pp. 311-12).
O “controlo inteligente” implicava canalizar em vez de parar tais fluxos, e era uma arma que White pensava que devia ser mantida em reserva e não aplicada indiscriminadamente. O seu relatório de 1934 a Viner defendia que os controlos de capital eram normalmente desnecessários, mas que deveria existir legislação que permitisse à Reserva Federal impor e aplicar controlos rapidamente quando estes fossem necessários para evitar uma fuga especulativa de capital. Ele estava plenamente consciente dos “muitos canais de evasão” que tornavam impossível um controlo completo, mas argumentou que a magnitude da fuga de capitais poderia ser reduzida o suficiente para proteger a posição de reserva do país (“Selection of a Monetary Standard”, 1934, Capítulo 17). Do mesmo modo, manifestou inicialmente dúvidas sobre a necessidade de controlar os fluxos massivos de ouro para os Estados Unidos, embora tais fluxos fossem potencialmente dispendiosos (“Gold Imports into the United States”, 1935).
O entusiasmo de White pelos controlos de capital aumentou na segunda metade da década de 1930. Como o capital continuou a afluir ao país em 1936, ele propôs um esquema elaborado para impor requisitos de reservas a 100% sobre os depósitos bancários de propriedade estrangeira, juntamente com um imposto de selo sobre as transferências de títulos para estrangeiros para limitar a evasão (“Aumento das Reservas …,” 1936). Mas a sua declaração mais clara da lógica dos controlos aparece em 1938, em resposta à contínua depreciação do franco francês, que White argumentou não ter ajudado a economia francesa. Das três opções em consideração para as políticas de reforço da balança de pagamentos francesa – mais depreciação, controlo das importações, ou controlo de capitais – White argumentou que “a imposição de controlos cambiais sobre transações não comerciais … parece-nos agora, como no passado, ser a melhor das más escolhas” (“What should our answer be …,” 1938). Este raciocínio da segunda melhor escolha acabou por ser transposto para o projeto de 1942 de White para um Fundo de Estabilização. Embora a eliminação das restrições cambiais fosse um objetivo primordial do Fundo, o plano reconheceu que “há situações em que muitos países se encontram frequentemente, e pela qual todos os países ocasionalmente podem passar, que tornam inevitável a adoção de controlos” (Horsefield, 1969, p. 63).
Neste domínio, o que era a segunda melhor escolha para White era a segunda natureza para Keynes. Em contraste com a aceitação de White de controlos como sendo ocasionalmente tolerados, Keynes considerava-os essenciais para a estabilidade financeira internacional [7]. O seu plano de 1942 para uma União de Compensação Internacional citou a facilitação dos controlos de capital como uma vantagem da proposta, uma vez que encorajaria a cooperação internacional em matéria de controlos, “que agora percorremos um longo caminho no sentido do aperfeiçoamento” na Grã-Bretanha. Para tal fim, seria “vital” distinguir “fundos flutuantes” e “movimentos especulativos ou fugas” de “novos investimentos genuínos” e fluxos que “ajudam a manter o equilíbrio” (Horsefield, 1969, p. 13).
Antes de deixar o tema das opiniões de White sobre os controlos, é necessário esclarecer um mal-entendido persistente sobre a sua opinião sobre o sistema económico soviético. O único apoio textual à recente afirmação de Robert Skidelsky de que White “admirava muito o planeamento soviético” (Skidelsky, 2000, p. 242) é uma carta de 1933 a Taussig, na qual White relatou que estava a estudar russo “na esperança de conseguir uma bolsa que me permitisse passar um ano principalmente na Rússia. Aí, gostaria de estudar intensivamente a técnica de planeamento no Instituto de Investigação Económica de Gosplan” (citado em Rees, 1973, p. 39). O contexto desta proposta, explicado na mesma carta, era a preocupação de White com um movimento crescente nos Estados Unidos pelo protecionismo e pela “autossuficiência económica potencial”. Como poderiam os Estados Unidos, perguntava-se ele, proteger-se dos choques externos “sem sacrificar as influências estabilizadoras das relações económicas internacionais ou os ganhos advindos com o comércio internacional. O caminho, suspeito, pode estar na direção de um controlo centralizado sobre as trocas e o comércio externo. Tenho lido e pensado sobre o problema, mas a minha opinião ainda não está definida” (ênfase acrescentada). Dentro de pouco tempo, como a discussão acima demonstrou, a sua opinião ficou assente numa combinação de estabilidade monetária e controlo de capital como solução para este problema. O Gosplan nunca voltou a ser uma influência, embora White tenha sido incansável na sua oposição ao protecionismo ao longo da década de 1930 [8].
Tal como o Presidente Franklin D. Roosevelt e o Secretário do Tesouro Henry Morgenthau, Jr., White não acreditava que a União Soviética estivesse interessada na expansão territorial. A Alemanha nazi era uma ameaça mais direta aos Estados Unidos e aos seus aliados. Num dos seus últimos escritos, ele admitiu que nem ele nem “qualquer funcionário responsável dos governos membros” [do FMI] tinham previsto em 1944 a divisão e tensões políticas do pós-guerra entre os Estados Unidos e a União Soviética” (“esboço de uma declaração …,” 1948, p. 4). No entanto, ele estava ciente dos perigos colocados pelo totalitarismo russo e pela sua “agressão ideológica”, que tornava os países pobres particularmente sensíveis ao apelo do comunismo internacional. Esta preocupação foi sem dúvida uma motivação para o seu interesse de longa data no apoio económico e financeiro dos EUA à América Latina, que datava de meados dos anos 30 e continuou até ao momento da sua morte em 1948 [9].
(continua)
Notas
[1] Gardner (1980), p. xiii; citado como “encontrado num pedaço de papel amarelado recuperado das primeiras discussões anglo-americanas … sobre acordos económicos do pós-guerra”. Gardner encontrou a nota entre os papéis pessoais de White em Princeton; a sua autoria não foi indicada, mas Dennis Robertson parece ser o candidato mais provável.
[2] Para biografias mais detalhadas ver Rees (1973) e Craig (1999).
[3] White foi nomeado director da Divisão de Investigação Monetária no Tesouro dos EUA em Março de 1938. A maioria dos memorandos após essa data foram redigidos inicialmente por economistas da Divisão.
[4] Para uma visão geral sobre a história do debate sobre regras versus discrição na política monetária até 1930, ver Laidler (2001). Esse debate dividiu-se de forma bastante clara entre aqueles que favorecem regras (incluindo Alfred Marshall e Irving Fisher, que formularam regras alternativas à norma de ouro) e aqueles que favorecem normas monetárias discricionárias (nomeadamente Knut Wicksell, Ralph Hawtrey, e Allyn Young, cujo pensamento influenciou claramente Keynes e White). As tentativas de Keynes e White de articular as regras de estado-contingente foram inovadoras.
[5] Keynes esboçou a essência deste esquema em 1933, na série de artigos de jornal que publicou como The Means to Prosperity. Aí ele ironicamente notou a estranheza do cunhador da “relíquia bárbara”, tornando-se um defensor de “um regresso qualificado ao padrão de ouro” e defendeu a sua mudança, sublinhando as qualificações de opt-out. Ver Keynes, Collected Writings IX, p.362.
[6] Para um antecedente e possível influência sobre as opiniões de White, ver Young (1929), pp. 370-71. Young, contudo, defendia a cooperação do banco central na política de intervenção, não explicitamente no ajustamento da taxa de câmbio. Currie expressou mais tarde opiniões semelhantes às de White; ver Currie (1936).
[7] Currie também via os controlos de capital como sendo necessários “para reduzir a magnitude dos movimentos de capital e para impedir o ajustamento do comércio a tais movimentos” (Currie, 1936, citado em Scandilands, 1990, p.55). A visão de Currie era pois mais próxima da de Keynes do que da de White.
[8] Em 1938, por exemplo, White preparou a resposta do Secretário Morgenthau a sugestões de um esquema “Buy American”. Tal proposta, argumentou ele, seria “muito desaconselhável porque a política dos Estados Unidos devia ser a promoção, não o desencorajamento, do comércio internacional. Um programa do tipo ‘Buy American’ fomenta o desenvolvimento do tipo de nacionalismo pouco inteligente e extremista que tanto está a fazer para ameaçar a paz mundial” (“General Hines’ suggestion … ,” 1938). O memorando também se opunha à estampagem de produtos fabricados nos EUA com “made in America”, com o argumento de que essa prática poderia desencorajar as importações.
[9] Antes da criação da Grande Aliança contra o Eixo em 1942, White considerava que tanto a Alemanha como a União Soviética eram estados totalitários igualmente perigosos. Ver ‘The Future of Gold,” Section IV, pp. 15-16; e o documento sem título que começa com “Should Germany succeed, … ” 1940.
O autor: James M. Boughton é investigador senior da CIGI desde 2013. Foi membro do departamento de investigação do FMI de 1981 a 2012, e desde então historiador emérito. De 2001 a 2010, serviu também como director assistente no Departamento de Estratégia, Política e Revisão do FMI. Ocupou vários cargos no Departamento de Investigação do FMI. Antes de entrar para o FMI, James foi economista na Divisão Monetária da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico em Paris.
Autor de dois volumes sobre a história do FMI: Revolução Silenciosa, abrangendo 1979-1989, e Tearing Down Walls, abrangendo 1990-1999. Outras publicações incluem um livro sobre dinheiro e banca, um livro sobre o mercado de fundos federais dos EUA, três livros sobre tópicos do FMI que ele co-editou, e artigos em revistas profissionais sobre finanças internacionais, teoria e política monetária, coordenação política internacional e a história do pensamento económico. O seu último livro é Harry Dexter White and the American Creed: How a Federal Bureaucrat Created the Modern Global Economy (e Failed to Get the Credit) (Yale University Press, 2021).
Licenciado e doutorado em Economia pela universidade de Duke.



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