Ainda os vou ouvindo, principalmente às primeiras horas do dia, juntamente com o canto aflautado dalgumas rolas, quando a luz lhes permite andar a saltitar entre as árvores e os canteiros dos jardins, por aqui ainda haver casas que os mantêm, afastado que estou do centro da cidade. Mas há mais alguns pássaros que continuam, os rouxinóis do final do dia e, há dias até ouvi o piar da coruja; mas há outros que praticamente desapareceram, como as cotovias, e muitos mais de que até nem sei nome.
O professor José Ricardo Costa, autor e mantenedor do blogue ‘Ponteiros parados’, também os referia assim num lamento do final de Maio, ‘Todas as estações são merecedoras da sua alegoria, cada uma com as suas matérias primas para alimentar os sentidos e que, à excepção do permanente som dos carros que passam no alcatrão, que é também permanente ao longo do ano, vão chegando e partindo com os movimentos da Terra, como os pássaros cuja música fica assim impedida de constar na minha alegoria, sendo relegada para os confins da memória’.
Um estudo de uma equipa internacional de cientistas, coordenada pela Universidade de Montpellier e divulgado em Maio passado, concluiu que, na Europa, desapareceram 25% das aves nos últimos quarenta anos, mormente pela intensificação e expansão da exploração agrária, pela expansão das monoculturas e uso massivo de pesticidas e fertilizantes, que eliminaram insectos e plantas, a base da sua alimentação e do refúgio, especialmente nas épocas da cria. As monoculturas dão origem a paisagens homogéneas, normalizadas e estão a acabar com a diversidade da vegetação, por lhes acabar também com a alimentação de sementes e frutos variados e dificultar encontrar refúgio e abrigo.
E já lá vão muitos desde a última vez que vi os bailados dos estorninhos que Saramago cantou tão bem, ‘Se um bando de estorninhos acompanha um homem em seu passeio matinal, se espera por ele o tempo de dar volta a uma lagoa, pássaros não têm razões, mas instintos, tantas vezes vagos e involuntários…. Quando ele parava, os estorninhos ficavam a voar em círculo, ou desciam fragorosamente sobre uma árvore, desapareciam entre os ramos e a folhagem estremecia, a copa ressoava de sons ásperos, violentos, parecia que dentro de ela se travava ferocíssima batalha’.
Também a naturalista, ecofilósofa e ornitóloga Lyanda Haupt, refere o estorninho numa frase que me espantou, ‘Quando lhe morreu o estorninho, Mozart compôs-lhe uma elegia’ explicando depois tal afirmação, ‘Marcado por três anos de convivência com um pequeno louco que apreciava, por ser travesso e alegre; é também a personagem de Papageno na “Flauta mágica” e uma outra no sexteto musical “Uma brincadeira musical”, com notas inesperadamente agudas como o canto dos estorninhos’.
O biólogo e filósofo alemão Andreas Weber, estuda o relacionamento do homem com a natureza na base a crença de que, até há poucos anos, a ciência afirmar que só os humanos eram capazes de sentir emoções, mas a biologia está a estudar e decifrar a sensibilidade em todo o ser vivo e ‘Qualquer organismo tem sentimentos e desejo de viver; o mundo está cheio de vitalidade e fazemos parte de um processo que emerge continuamente’.
Talvez este senhor venha assim dar razão a Darwin quando afirmava que os mais inteligentes são os que melhor se adaptam e, até terminava a evocação daquele naturalista britânico citando alguém não nomeado, ‘De certeza que não se referia aos tolos convertidos em churrascos praieiros, nas horas mais quentes do dia’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor