‘Aquele que deseja continuamente “elevar-se” deve esperar um dia pela vertigem. Vertigem não é medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio debaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados’.
Uma afirmação possivelmente ditada pela interiorização da experiência própria ou de outras alheias, que apareceu escrita em ‘A insustentável leveza do ser’, do escritor checo Milan Kundera, abalado há umas semanas, mas que merece ser bem meditada nos tempos que vivemos ou, melhor talvez, que “mal vivemos”.
E como comecei esta Carta a citar um romancista, por ter pensado discorrer um pouco sobre o medo, a única coisa que julgo unir agora e realmente a humanidade –medo da guerra, medo da fome, medo das migrações, medo da alteração climática, medo dos “covids”, medo da precariedade e parcos salários, mais outras crises aparentemente “desenhadas”, para se seguirem diversas, mas continuadas–, recorro ao irlandês George Bernard Shaw, para quem o medo pode levar ao homem a qualquer extremo pois ‘O homem sensato adapta-se ao mundo. O homem insensato insiste em tentar adaptar o mundo a si’.
Alguém me disse em conversa –ou li algures– que os aqueles CEOS de todas as empresas que fomentam o medo, tanto pela precariedade e exploração salarial, como por serem colaboradores e fornecedores de guerras e de tal negócio, deveriam estar na primeiras fila abandeirados em formação suicida, com aqueles outros que simulam bombardeamentos abrindo garrafas de champagne, por também fazerem “pum”, mas que não vão além de provocar cirrose, e só a longo prazo!
E no sábado passado um outro jornal europeu garantia, ‘A maioria dos projecteis, drones, veículos e artilharia que Moscovo usa na Ucrânia, depende de componentes electrónicos de empresas estrangeiras’. Coincidências?
Estamos a viver um período esquisito, da sociedade líquida pós-moderna, também da pós-verdade, de uma coisa que se está a montar de um passarinhos a ser trocado por um X sem jeito, tudo ajudado por uma artificial inteligência, que também pode ser comprada/trocada por criptomoedas, seja qual for o significado de tal negócio! Só uma confusão assim, permite que continue a poder perorar gente como um trumpa ou um boçalnaro, onde uma mentira é respondida e continuada com outra muito maior, beneficiando da cobertura dada pelas redes ditas sociais, por me parecer também que a verdade só já interessar a pouca gente.
Mas é mal muito antigo, a ver pelo paradoxo de Epiménides, poeta e filósofo cretense do século VI a.C., ao afirmar ‘Todos os cretenses são mentirosos’; mas se tivermos em atenção que Epiménides era cretense, teria já ele uma rede social?
Tudo isto a propósito de um apontamento do escritor Eric Vuillard, vencedor do Prémio Goncourt de 2017, com o livro ‘A ordem do dia’, onde reconstrói passos significativos da ascenção de Hitler, depois da reunião dos nazis com o empresariado alemão da altura. Vuillard salienta numa entrevista a um jornal europeu, ‘Há desde o princípio da guerra da Ucrânia, grandes dirigentes ocidentais nos conselhos de administração de grandes empresas russas: François Fillon, ex-primeiro ministro francês, Matteo Renzi, ex-primeiro ministro italiano, Gerard Schröder, ex-chanceler da Alemanha, um ex-primeiro ministro finlandês, três ex-chanceleres austríacos; hoje, de um modo ou de outro, trabalham todos para a Gazprom’.
E que terá tudo isto a ver com a fome a grassar por esse mundo fora, principalmente no continente africano, que dependiam do grão proveniente da Ucrânia, provocando um enorme aumento de preços, a beneficiar os cofres da Rússia, a grande rival da Ucrânia, como potência exportadora da produtos agrícolas.
Talvez a resposta já tenha sido dada por um outro escritor, Albert Camus, para quem ‘Nada é mais desprezível que o respeito baseado no medo’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor