ADÃO CRUZ – REFLEXÃO SIMPLISTA SOBRE CULTURA

Para mim, a Cultura, a verdadeira Cultura é a cultura do percurso, a cultura do dia-a-dia, a capacidade que se tem de entender os fenómenos que nos rodeiam. Claro que este entender não é fácil de concretizar, mas pode considerar-se o único caminho da procura da verdade. A cultura não garante a verdade, mas abre o seu caminho. Ela é, aliás, a mais larga janela do conhecimento, o fermento do desenvolvimento e do progresso, entendendo-se como progresso tudo o que não seja a monstruosa epidemia consumista e monetarista.

Reconheço a minha ignorância em muitas matérias e sempre respeitei as pessoas incultas e ignorantes, sobretudo aquelas que, como eu, tudo fazem para aprender o que não sabem. Mas não respeito, de forma alguma, a ignorância e as sequelas da falsa cultura, da pseudocultura, da anticultura e da contracultura que a sociedade consagrou. Repugna-me, onde quer que exista e seja qual for o fim, a utilização e a exploração da ignorância. Considero tal exploração, ainda que travestida de perversos eufemismos, um comportamento profundamente ignóbil, quer no campo religioso, quer no campo económico, quer no campo político-social.

Na ausência de verdadeiros meios culturais na sociedade, um dos mais importantes e dos mais desprezados veículos da cultura é o livro. Ler um livro não significa folhear um livro nem absorver integralmente um livro. Ler um livro pode saldar-se apenas pelo descobrir de qualquer coisa que nos faltava, de cuja falta não nos dávamos conta, coisa que jamais encontraríamos se o não tivéssemos lido e que depois de o ler consideramos fundamental na construção da nossa verdade e autenticidade.

Ler um livro é ajudar a construir a nossa casa, podendo acontecer que essa leitura permaneça pela vida fora como uma das pedras basilares do edifício. O prazer de ler está para além do simples prazer da leitura, permitindo a liberdade de desmontar e questionar metodicamente aquilo que se lê.

Só dentro da cultura, seremos capazes de compreender a profunda contextualização da esfera de luzes, de sombras e reflexos que gira dentro de nós.

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