CARTA DE BRAGA – “da seca, de brioches e da cidadania” por António Oliveira

Dos jornais que costumo ler e de onde vou tirando alguns apontamentos para estas Cartas, recolhi este notícia num dia deste mês, ‘A Galp, que no primeiro semestre arrecadou lucros de 508 milhões de euros, anunciou que vai aumentar os preços do gás natural em 4% (média), a partir de 1 de Outubro’. 

Uma outra notícia adiantava também, ‘Um estudo garante que Poluição atmosférica é primeira ameaça mundial para saúde humana e estima que, se o limiar da Organização Mundial da Saúde para a exposição a partículas finas fosse respeitado em todas as circunstâncias, a esperança de vida global aumentaria 2,3 anos’.

Tal estudo indica que a poluição atmosférica representa um risco para a saúde global, maior que o tabagismo ou o consumo de álcool, perigo exacerbado em regiões como Ásia e África. A poluição por partículas finas, emitidas por veículos a motor, indústria e incêndios, representa ‘a maior ameaça à saúde pública’ a nível mundial. 

Curiosamente, um outro estudo divulgado no blogue ‘Ciencia Critica’ publicado aqui ao lado, garante, ‘Analizando aqui los informes anuales de 2022 de seis compañías internacionales y de seis compañías europeas, se señala que no existe absolutamente ninguna estrategia real de reducción de emisiones a cero para el 2050’, mantendo eu a linguagem original, para não alterar as eventuais sensações que este facto poderá provocar. 

E o estudo particulariza, na Europa os gases de efeito inverneiro provocado pela queima de carvão, petróleo e gaz natural são os responsáveis pelos fenómenos extremos que estamos a penar, bem como de se reduzirem as produções de cereais e azeite entre cinquenta e noventa por cento, com os preços a disparar ao mesmo tempo e, termina o parágrafo desta maneira ‘A Europa seca e sofre, a sobremortalidade humana mostra como se acelerou o aquecimento, especialmente na zona mediterrânica, enquanto os responsáveis reais, as grandes companhias energéticas, gozam de total impunidade’.

Mas o estudo particulariza ainda como as seis principais companhias petrolíferas decidiram rebaixar os compromissos climáticos, aumentar a produção de gaz e petróleo, apesar de terem aumentado os seus benefícios em 58% só no primeiro semestre de 2023, e o CEO da Shell, Wahel Sawan, justifica tal atitude assim, ‘Se não podemos alcançar um lucro de dois dígitos num negócio, necessitamos perguntar-nos se devemos continuar esse mesmo negócio’. 

São muitas as vozes a pronunciar-se contra esta situação, e o estudo cita o economista David Lizoain, autor do livro ‘Crime climático’, a afirmar recentemente, ‘Não ponho de parte uns julgamentos de Nuremberga climáticos; o filósofo francês Bruno Latour, falecido em Outubro passado, deixou escrita a possibilidade de um futuro esperançoso, com o surgimento de uma classe ecológica, capaz de criar as instituições democráticas de ‘um novo regime climático mundial’ pós-extractivista. 

O também filósofo e professor Viriato Soromenho Marques, resume bem esta situação numa crónica no DN, logo no princípio de Julho, destacando como as décadas de globalização neoliberal, colocaram o capital financeiro no comando, transformaram os Estados em servis leviatãs de negócios e bilionários, levando à degradação da saúde ecológica do planeta e, ‘economia que mata, recordando a sábia expressão do Papa Francisco, desencadeou a sexta extinção da biodiversidade na história da Terra, alterou radicalmente a atmosfera e o clima, está a destruir a criosfera, alterou todos os grandes ciclos biogeoquímicos, do carbono ao enxofre, do azoto ao fósforo, dilatou e acidificou os oceanos, poluindo a hidrosfera com novos continentes de resíduos de plástico. A desmedida farra da globalização vem agora cobrar-nos o seu crédito. Sem descontos e com juros crescentes’.

A terminar e evocando uma expressão atribuída a Maria Antonieta durante a sua coroação em 1774, (Não há pão? Que comam briches!), apareceu no leito seco de um rio no sul de França, um texto que a adaptava a estes tempos, ‘Não há água? Bebam petróleo!’, dando início a uma enorme campanha de mobilização, por simbolizar a seca dramática que afecta toda a Europa, devido aos níveis desenfreados de produção e consumo de combustíveis fósseis. 

Voltando ao artigo do blogue ‘Ciencia Critica’, devo assinalar que ele termina com um aforismo para relembrar, aqui transcrito também na linguagem original, ‘No podremos tampoco salir de los combustibles fósiles, sin la plena participación de toda la sociedad, y sin que la ciudadanía y sus colectivos, se conviertan en actores centrales de una nueva democracia por el clima’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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