

Esta é uma Carta um pouco (muito) diferente, por estarmos a viver tempos complexos, em que a sensação do efémero está sempre presente, apesar de um segundo continuar a ser um segundo, como uma hora continuar a ser uma hora, mas a percepção de tal duração cada vez mais depender das situações, dando justificação à máxima de Ortega Y Gasset, ‘Um homem é o homem a sua circunstância’.
E também é cada vez mais é visível a lentidão do tempo sempre que temos pressa, bem como voa tão rápido quando o queremos esticar; e de acordo Marc Augé, autor da ideia do ‘não lugar’, compreensível pela importância da tecnologia na nossa vida a levar-nos à ‘ausência’ do espaço físico, também o ‘não tempo’ poderá ser entendido como aquele período em que nos afastamos da realidade e queremos esquecer tudo aquilo que nos preocupa, sabendo que a vida continua, mesmo sem lhe ouvir o tic tac do contador das horas.
Mas eles, os ecrãs e os mass media estão aí, para nos dizer, bem à maneira do filósofo Gianni Vattimo, ‘A possível capacidade de libertação, do verdadeiro desgaste da realidade no mundo dos mass media, consiste mais no desenraizamento, que é também a libertação das diferenças, daquilo que poderíamos chamar, o dialecto’, quando já nem querermos pensar, porque agora, até as imagens já nos estarem a ocupar o lugar dos pensamentos.
Este tema tem vindo a preencher um local de discussão cada vez maior no mundo da cultura e do ensino, porque os jovens, talvez os com melhor formação desta sociedade, aqui e num outro qualquer país deste mundo ocidental, com licenciaturas, mestrados e especializações, a falar mais do que uma língua, estarem a olhar o futuro com preocupação, mesmo com pessimismo; o acesso a um trabalho digno e a corresponder à formação, a massa salarial disponível e a relação de tudo isto com o custo de vida, leva-os a pensar que esta sociedade também não conta com eles, e há muitos estudos que os mostram a manifestar o desejo de procurar outras latitudes.
Ao mesmo tempo, também vemos e lemos outros trabalhos sobre o avanço dos movimentos populistas, chauvinistas e de extrema direita no espaço europeu, bem como o reforço dos regimes autoritários, e até ‘Custa aceitar a enorme diferença de percepção da realidade em relação com a minha, quando tinha a idade deles’, diz um doutor em Ciências da Comunicação, num artigo com o título ‘Que lhes digo, aos meus filhos?’. Mais acrescenta ‘Também os ouço dizer que nem é preciso ler tanto, uma espécie de aviso, mas já perdemos a capacidade de os escutar’. E termina com um estranho ‘Depois nos arrependeremos’.
Robert Waldinger, professor em Harvard e responsável dos estudos sobre o tema felicidade, diz a mesma coisa de outra maneira, ‘Quando era garoto confiava no governo, nos vizinhos. Agora não há confiança nem na comunidade e isso arrasta intranquilidade. Ninguém tem vidas tão perfeitas como as editadas no Instagram’. Por isso mesmo, também eu creio, que o mito da felicidade completa e sem defeito, não parece mais do que um engano.
Mas, paradoxalmente, também tenho lido como se nota estar a aumentar o interesse pela leitura porque, ‘As palavras ganham vida, a leitura acompanha e transforma-nos. Uma sociedade que não lê, não sabe o que fazer com as palavras e, sem palavras não se vence a realidade nem se voa o cometa dos sonhos’ acentua num jornal cultural o escritor Andrés Barba.
Mas não podemos esquecer, como disse a escritora Ursula K. Le Guin, na homenagem que lhe foi prestada no National Book Award, ‘Vivemos no capitalismo, seu poder parece inevitável, tanto como o direito divino dos reis. Qualquer poder humano pode ser combatido e mudado pelos seres humanos. Resistência e mudança muitas vezes começam na arte. E muitas vezes na nossa arte, a arte das palavras’.
Tudo porque ‘O maior bem é a vida. A literatura é só essa minúscula luzinha com a qual se pode ver alguma coisa dessa vida, para a poder contar e celebrar’, afirmou também o escritor daqui ao lado, Manuel Vilas.
Uma afirmação que José Saramago explicou no seu discurso de aceitação do Prémio Nobel, ‘Em certo sentido poder-se-á mesmo dizer que, letra a letra, palavra a palavra, página a página, livro a livro, tenho vindo, sucessivamente, a implantar no homem que fui, as personagens que criei. Creio que, sem elas, não seria a pessoa que hoje sou, sem elas talvez a minha vida não tivesse logrado ser mais do que um esboço impreciso, uma promessa como tantas outras, que de promessa não conseguiram passar, a existência de alguém que talvez pudesse ter sido, e afinal não tinha chegado a ser’.
Na verdade, um homem é o homem e também a luzinha que lhe pode mostrar o mundo da gente!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor
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