Roland Barthes deixou escrito em ‘Cultura e tragédia’, um dos seus primeiros textos, ‘Devemos definir cultura, não como o esforço de aquisição de um saber maior, nem sequer como a manutenção fervorosa de um património espiritual, mas como disse Nietzsche, como a “unidade do estilo artístico em todas as manifestações vitais de um povo”’, conceito que nos remete para a cultura como um factor humanizante por excelência.
Creio não ser aceitável e, nem sequer discutível a negação de tal aforismo, quando estamos a assistir à desclassificação permanente –ampliada pelas redes sociais e novos “truques” tecnológicos– de tudo o que ultrapasse a centena e pico de caracteres, para escrever e transmitir uma qualquer informação real, verdadeira ou falsa, mas relevante. Tudo porque os bons livros e os artigos fundamentais dos melhores órgãos de comunicação, de validade comprovada, foram substituídos por redes sociais e outros ‘canais’ –deixem-me chamar-lhes assim!– onde se transmitem ‘notícias à molhada’, mas só as que interessam aos proprietários das teclas.
Manuel Vicent, escritor, galerista de arte e jornalista, autor de uma coluna semanal no ‘El País’, escreveu recentemente ‘O que é um tweet? Pode ser um acorde de Bach se o solta um pintassilgo, ou um zurro que conspurca o ar, se o lança qualquer asno humano’. Na verdade, vivemos atolados numa sociedade de informação e atascados por milhões de apitos a anunciar novas mensagens, app’s e solicitações tão dispensáveis, que dificilmente conseguimos separar aquele piar de tal zurro, tal é a urgência da ‘novidade’, como da consulta.
Urgência determinada pelo uso de estudos de audiências, mercados e eficácia das mensagens, a marcar, a instituir e estatuir o uso de algoritmos, desenhados para fomentar a participação do ‘cliente’, amplificando os caminhos definidos pelos membros mais prestigiados e influentes de um qualquer grupo; desta maneira se promove a desinformação, a homogeneização e a polarização social, que hoje notamos em qualquer sociedade.
Aliás, são diversos os autores e críticos que apontam a necessidade de tanto as empresas tecnológicas, como os mediadores e usuários, precisarem defender e assegurar medidas para lhes menorizar os efeitos, incluindo até campanhas de educação junto dos utilizadores; um desses autores acrescenta mesmo uma reflexão de Shakespeare, para valorizar um estudo, ‘A aprendizagem é um simples apêndice de nós mesmos; onde quer que estejamos, está também a nossa aprendizagem’.
Custa-me muito, a ver pelo modo como as coisas andam, desde os movimentos populistas, saudosistas e retrógrados, que ganham cada vez mais espaço entre as gentes e entre os media, que venham a ser os seus donos quem os controla, aliás de acordo com a sentença do escritor e catedrático de Filosofia Parra Montero, ‘Estou preocupado por poderem vir a ser os media a fazer desparecer a “verdade”, para nos venderem “a verdade que eles quiserem”, fazendo-nos acreditar terem o maior interesse em podermos conhecer o mundo através dos seus ecrãs’.
São esses exactamente os mesmos em que nos atascamos, os dos algoritmos, os das ‘notícias’ escolhidas e ‘alinhadas’ de acordo com os seus interesses, os da cultura promovida e desviada para horários impossíveis, os da promoção de entreténs, socialites e ‘cromos’, tudo o que deveria ocupar outros espaços, mas os ecrãs é que decidem lá, nas mãos de todo o cliente.
Lembro-me de Cornelius Castoriadis, filósofo, economista e psicanalista francês, autor do livro ‘A ascensão da insignificância’, por cá editado em 1998, ‘O capitalismo não tem necessidade de autonomia, mas de conformismo. O seu actual triunfo reside no facto de vivermos numa época de conformismo generalizado, não só no que diz respeito ao consumo, mas também à política, às ideias, à cultura, etc.’
Deve ter-se em atenção que além dos ecrãs, o rápido desaparecimento do espaço público –fora do concertos dos cantores mais populares– e das infraestruras abandonadas ou quase, é a mesma sociedade de consumo a contribuir e a marcar a fragilidade dos vínculos sociais, entre os quais a tal “unidade do estilo artístico em todas as manifestações vitais de um povo”, como queria Nietzsche.
Unidade no estilo ou homogeneização das compras? (Entrem e olhem bem as catedrais do consumo)
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor