Seleção e tradução de Francisco Tavares
8 min de leitura
“Há duas opções: ou é guerra, guerra, guerra. Ou trata-se de avançar para a paz. E esta última é do interesse de Israel !”
Entrevista a Dominique De Villepin, realizada por Apolline de Malherbe (AM) de
(ver aqui)
Transcrição e tradução para inglês de Arnaud Bertrand (ver aqui)
Entrevista absolutamente magistral sobre Gaza de Dominique de Villepin (DdV), o ex-Primeiro-Ministro da França, que liderou a famosa oposição da França à guerra do Iraque e é um dos melhores diplomatas que o Ocidente produziu.
DdV: O Hamas criou uma armadilha para nós, e esta armadilha é de horror máximo, de crueldade máxima. E, portanto, há o risco de uma escalada no militarismo, de mais intervenções militares, como se pudéssemos, com exércitos, resolver um problema tão grave como a questão Palestiniana.
Há também uma segunda grande armadilha, que é a do Ocidentalismo. Encontramo-nos presos, com Israel, neste bloco ocidental que hoje está a ser desafiado pela maior parte da comunidade internacional.
AM: O que é o Ocidentalismo?
DdV: O Ocidentalismo é a ideia de que o Ocidente, que durante 5 séculos administrou os assuntos do mundo, poderá continuar a fazê-lo tranquilamente. E podemos ver claramente, mesmo nos debates da classe política francesa, que existe a ideia de que, perante o que está a acontecer actualmente no Médio Oriente, devemos continuar ainda mais a luta, para o que pode parecer uma guerra religiosa ou civilizacional. Ou seja, isolar-nos ainda mais na cena internacional.
Este não é o caminho, especialmente porque há uma terceira armadilha, que é a do moralismo. E aqui temos, de certa forma, a prova, através do que está a acontecer na Ucrânia e do que está a acontecer no Médio Oriente, deste duplo padrão que é denunciado em todo o mundo, inclusive nas últimas semanas, quando viajo para África, para o Médio Oriente ou para a América Latina. A crítica é sempre a mesma: vejam como as populações civis são tratadas em Gaza, denunciam o que aconteceu na Ucrânia e são muito tímidos perante a tragédia que se desenrola em Gaza.
Considere o direito internacional, a segunda crítica que é feita pelo sul global. Nós sancionamos a Rússia quando ela agride a Ucrânia, sancionamos a Rússia quando ela não respeita as resoluções das Nações Unidas, e faz 70 anos que as resoluções das Nações Unidas foram votadas em vão e que Israel não as respeita.
AM: Pensa que os ocidentais são actualmente culpados de arrogância?
DdV: Os ocidentais devem abrir os olhos para a extensão do drama histórico que se desenrola diante de nós para encontrar as respostas certas.
AM: Qual é o drama histórico? Quero dizer, estamos a falar da tragédia de 7 de outubro, em primeiro lugar, certo?
DdV: É claro que estes horrores estão a acontecer, mas a forma de responder a eles é crucial. Vamos matar o futuro encontrando as respostas erradas…
AM: Matar o futuro?
DdV: Matar o futuro, sim! Porquê?
AM: Mas quem está a matar quem?
DdV: Você está perante um jogo de causas e efeitos. Perante a tragédia da história, não se pode tomar este quadro analítico da ‘cadeia da causalidade’, simplesmente porque, se o fizermos, não podemos escapar dele. Quando compreendamos que existe uma armadilha, quando percebamos que por trás dessa armadilha também houve uma mudança no Médio Oriente em relação à questão palestiniana… a situação hoje é profundamente diferente [do que era no passado]. A causa palestina era uma causa política e secular. Hoje estamos perante uma causa islâmica, liderada pelo Hamas. Obviamente, este tipo de causa é absoluta e não permite qualquer forma de negociação. Do lado israelita, houve também um desenvolvimento. O sionismo era secular e político, defendido por Theodor Herzl no final do século 19. Tornou-se amplamente messiânico, bíblico hoje. Isto significa que também eles não querem comprometer-se, e tudo o que o governo israelita de extrema-direita faz, continuando a incentivar a colonização, obviamente piora as coisas, inclusive desde 7 de outubro. Portanto, neste contexto, compreendam que já estamos nesta região perante um problema que parece profundamente insolúvel.
Some-se a isso o endurecimento dos Estados. Diplomaticamente, olhem para as declarações do rei da Jordânia, que não são as mesmas de há seis meses. Vejam as declarações de Erdogan na Turquia.
AM: Precisamente, estas são declarações extremamente duras…
DdV: Extremamente preocupante. E porquê? Porque se a causa Palestiniana, a questão Palestiniana, não foi posta em primeiro plano, não foi posta em cena [durante algum tempo], e se a maioria dos jovens de hoje na Europa nunca ouviu falar dela, resta para os povos árabes a mãe de todas as batalhas. Todos os progressos realizados no sentido de uma tentativa de estabilização do Médio Oriente, onde se poderia acreditar…
AM: Sim, mas de quem é a culpa? Tenho dificuldade em segui-lo, é culpa do Hamas?
DdV: Mas Sra. Malherbe, eu sou diplomata. A questão da culpa será abordada por historiadores e filósofos.
AM: Mas o senhor não pode permanecer neutro, é difícil, é complicado, não é?
DdV: Não sou neutro, estou a agir. Estou simplesmente a dizer-vos que, a cada dia que passa, podemos garantir que este ciclo horrível cesse… é por isso que falo de uma armadilha e é por isso que é tão importante saber que resposta vamos dar. Estamos sozinhos perante a história de hoje. E não tratemos este novo mundo como o fazemos actualmente, sabendo que hoje já não estamos numa posição de força, não somos capazes de gerir sozinhos, como polícias do mundo.
AM: Então, o que fazemos?
DdV: Exactamente, o que devemos fazer? É aqui que é essencial não cortar ninguém na cena internacional.
AM: Inclusivé os russos?
DdV: Todos.
AM: Toda a gente? Devemos pedir ajuda aos russos?
DdV: Não estou a dizer que devamos pedir ajuda aos russos. Estou a dizer: se os russos puderem contribuir acalmando algumas facções nesta região, então será um passo na direcção certa.
AM: Como podemos responder proporcionalmente à barbárie? Já não é exército contra exército.
DdV: Mas ouça, Appolline de Malherbe, as populações civis que estão a morrer em Gaza, não existem? Então, porque o horror foi cometido de um lado, o horror deve ser cometido do outro?
AM: Será mesmo necessário equiparar os dois?
DdV: Não, é você quem está a fazer isso. Não estou a dizer que comparo os erros. Tento ter em conta o que pensa uma grande parte da humanidade. Há certamente um objectivo realista a perseguir, que é erradicar os líderes do Hamas que cometeram este horror. E não confundir os palestinianos com o Hamas, esse é um objectivo realista.
A segunda coisa é uma resposta direcionada. Vamos definir objectivos políticos realistas. E a terceira coisa é uma resposta combinada. Porque não existe uma utilização da força de forma efectiva sem uma estratégia política. Não estamos em 1973 nem em 1967. Há coisas que nenhum exército no mundo sabe fazer, que é vencer numa batalha assimétrica contra os terroristas. A guerra contra o terror nunca foi vencida em lugar nenhum. E, em vez disso, desencadeia crimes, ciclos e escalações extremamente dramáticos. Se a América perdeu no Afeganistão, se a América perdeu no Iraque, se perdemos no Sahel, é porque é uma batalha que não pode ser vencida simplesmente, não é como se você tivesse um martelo que golpeia um prego e o problema está resolvido. Por isso, temos de mobilizar a comunidade internacional, sair desta armadilha Ocidental em que nos encontramos.
AM: Mas quando Emmanuel Macron fala de uma coligação internacional…
DdV: Sim, e qual foi a resposta?
AM: Nenhuma.
DdV: Exactamente. Precisamos de uma perspectiva política, e isso é um desafio porque a solução de dois estados foi removida do programa político e diplomático israelita. Israel precisa entender que para um país com um território de 20.000 quilómetros quadrados, uma população de 9 milhões de habitantes, enfrentando 1,5 mil milhões de pessoas… os povos nunca esqueceram que a causa palestina e a injustiça feita aos palestinianos eram uma fonte significativa de mobilização. Temos de considerar esta situação, e creio que é essencial ajudar Israel, orientar… alguns dizem impor, mas penso que é melhor convencer, avançar nesta direcção. O desafio é que hoje não há interlocutor, nem do lado israelita nem do lado palestiniano. Temos de sacar interlocutores.
AM: Não nos cabe a nós escolher quem serão os líderes da Palestina.
DdV: A política israelita dos últimos anos não queria necessariamente cultivar uma liderança Palestiniana… muitos estão presos, e o interesse de Israel — porque repito: não estava no seu programa ou era do interesse de Israel na altura, ou assim pensavam — era, em vez disso, dividir os palestinianos e garantir que a questão Palestiniana desaparecesse. Esta questão Palestiniana não se desvanecerá. Por isso, temos de o abordar e encontrar uma resposta. É aqui que precisamos de coragem. O uso da força é um beco sem saída. A condenação moral do que o Hamas fez — e não há “mas” nas minhas palavras sobre a condenação moral deste horror — não deve impedir-nos de avançar política e diplomaticamente de forma esclarecida. A lei da retaliação é um ciclo interminável.
AM: O “olho por olho, dente por dente”.
DdV: Sim. É por isso que a resposta política deve ser defendida por nós. Israel tem direito à autodefesa, mas este direito não pode ser uma vingança indiscriminada. E não pode haver responsabilidade colectiva do povo palestiniano pelas acções de uma minoria terrorista do Hamas.
Quando você entra neste ciclo de encontrar culpas, as memórias de um lado chocam-se com as do outro. alguns vão justapor as memórias de Israel com as memórias da Nakba, a catástrofe de 1948, que é um desastre que os palestinianos ainda experimentam todos os dias. Portanto, não se pode quebrar estes ciclos. Temos, naturalmente, de ter forças para compreender e denunciar o que aconteceu e, nesta perspectiva, não há dúvidas quanto à nossa posição. Mas também temos de ter coragem, e é isso que a diplomacia é… diplomacia é poder acreditar que há luz no fim do túnel. E essa é a astúcia da história; quando você está no fundo, algo pode acontecer que dá esperança. Depois da guerra de 1973, quem pensaria que, antes do final da década, o Egipto assinaria um tratado de paz com Israel?
O debate não deve ser sobre retórica ou escolha de palavras. O debate de hoje é sobre acção; temos de actuar. E quando se pensa em acção, há duas opções. Ou é guerra, guerra, guerra. Ou trata-se de tentar avançar para a paz, e vou repeti-lo, é do interesse de Israel. É do interesse de Israel!
_____________
A entrevistadora:
Apolline de Malherbe [1980-] é uma jornalista francesa que trabalha no canal de notícias BFM TV e em RMC. Licenciada em Letras, é mestre em Sociologia Política pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris. Comprometida politicamente com a esquerda, apoiou a candidatura [presidencial] de Jean-Pierre Chevènement em 2002. Leciona Jornalismo Político no Instituto de Estudos Políticos de Paris. É autora do ensaio Politiques cherchent Audimat, désespérément (2007).
O entrevistado:
Dominique de Villepin [1953-] é um político e escritor francês, diplomata, foi ministro de várias pastas (Negócios Estrangeiros, Interior, Secretário Geral da presidência da República), além de ser primeiro-ministro de França entre 31 de maio de 2005 a 17 de maio de 2007. É licenciado em Direito e Letras, é diplomado pela ENA (École National d’Administration). Autor de diversas obras, a última das quais Le soleil noir de la puissance (2007). (mais detalhes aqui)


