Seleção e tradução de Francisco Tavares
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A propaganda que condenou a Ucrânia
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em 4 de Janeiro de 2024 (original aqui). O texto é um extracto editado de um discurso que Chas Freeman proferiu na organização East Bay Citizens for Peace.

Moscovo, Kiev e Washington estão presos numa névoa de erro de cálculo
A maneira como os meios de comunicação americanos lidaram com a Guerra da Ucrânia recorda uma observação creditada a Mark Twain: “as pesquisas de muitos comentadores já lançaram muita escuridão sobre este assunto, e é provável que, se continuarem, em breve não saberemos nada sobre o mesmo.”
É uma expressão mais palavrosa de uma máxima mais conhecida: na guerra, a verdade é a primeira vítima. É tipicamente acompanhada por um nevoeiro de mentiras oficiais. E nenhum nevoeiro desse tipo foi tão espesso como na Guerra da Ucrânia. Enquanto muitas centenas de milhares de pessoas lutaram e morreram na Ucrânia, as máquinas de propaganda em Bruxelas, Kiev, Londres, Moscovo e Washington trabalharam horas extras para garantir que tomemos partido apaixonado, acreditemos naquilo em que queremos acreditar e condenemos qualquer um que questione a narrativa que interiorizámos. As consequências para todos foram terríveis. Para a Ucrânia, foram catastróficas. À medida que entramos num novo ano, há muito que se espera uma reformulação radical da política por parte de todos os interessados.
Esta é uma consequência do facto de a guerra ter nascido e ter continuado devido a erros de cálculo de todas as partes. Os Estados Unidos calcularam que as ameaças russas de ir à guerra por causa da neutralidade ucraniana eram bluffs que poderiam ser dissuadidos descrevendo e denegrindo os planos russos. A Rússia assumiu que os Estados Unidos prefeririam as negociações à guerra e desejariam evitar a uma nova divisão da Europa em blocos hostis. Os ucranianos contavam com o Ocidente para proteger o seu país. Quando o desempenho da Rússia nos primeiros meses da guerra se mostrou sem brilho, o Ocidente concluiu que a Ucrânia poderia derrotá-la. Nenhum destes cálculos se revelou correcto.
No entanto, a propaganda oficial, amplificada por meios de comunicação sociais dominantes e subservientes, convenceu a maioria no Ocidente de que rejeitar um projecto de Tratado de paz antes da invasão e encorajar a Ucrânia a lutar contra a Rússia era de alguma forma ser “pró-Ucraniano”. A simpatia pelo esforço de guerra ucraniano é perfeitamente compreensível, mas, como a guerra do Vietname nos deveria ter ensinado, as democracias perdem quando a claque substitui a objectividade nos relatórios e os governos preferem a sua própria propaganda à verdade do que está a acontecer no campo de batalha. Então, o que está a acontecer no campo de batalha? E como estão os participantes na Guerra da Ucrânia em termos de alcançar os seus objectivos?
Comecemos pela Ucrânia. De 2014 a 2022, a guerra civil no Donbas levou quase 15.000 vidas. Não se sabe quantos foram mortos em combate desde que começou a guerra por procuração EUA/NATO – Rússia, em fevereiro de 2022, mas está certamente na casa das várias centenas de milhares. O número de vítimas foi ocultado por uma intensa guerra de informação sem precedentes. A única informação no Ocidente sobre os mortos e feridos tem sido a propaganda de Kiev que reivindica um grande número de mortos russos, revelando pouco sobre as baixas ucranianas. No entanto, mesmo no verão passado, sabia-se que 10% dos ucranianos estavam envolvidos com as forças armadas, enquanto 78% tinham parentes ou amigos mortos ou feridos. Estima-se que entre 20.000 e 50.000 ucranianos estejam agora amputados. (para contextualizar, 41.000 britânicos tiveram de ser amputados na Primeira Guerra Mundial, quando o procedimento era frequentemente o único disponível para prevenir a morte. Menos de 2.000 veteranos americanos das invasões do Afeganistão e do Iraque tiveram amputações.)
Quando a guerra começou, a Ucrânia tinha uma população de cerca de 31 milhões. Desde então, o país perdeu pelo menos um terço da sua população. Mais de seis milhões refugiaram-se no Ocidente. Mais dois milhões partiram para a Rússia. Outros oito milhões de ucranianos foram expulsos das suas casas, mas permanecem no país. A infra-estrutura, as indústrias e as cidades da Ucrânia foram devastadas e a sua economia destruída. Como é habitual nas guerras, a corrupção — há muito uma característica proeminente da política ucraniana — tem sido galopante. A democracia nascente da Ucrânia já não existe, com partidos de oposição, meios de comunicação descontrolados e dissidentes ilegalizados e proibidos. Por outro lado, a agressão russa uniu os ucranianos, incluindo muitos que falam russo, numa medida nunca antes vista. Moscovo reforçou assim inadvertidamente a identidade ucraniana separada que tanto a mitologia russa como o Presidente Putin procuraram negar. O que a Ucrânia perdeu em território ganhou na coesão patriótica baseada na oposição apaixonada a Moscovo.
O outro lado disto é que os separatistas de língua russa da Ucrânia também tiveram a sua identidade russa reforçada. Há agora pouca ou nenhuma possibilidade de os falantes de russo aceitarem um estatuto numa Ucrânia unida, como teria sido o caso nos termos dos Acordos de Minsk. E, com o fracasso da “contra-ofensiva” da Ucrânia, é muito improvável que o Donbas ou a Crimeia voltem à soberania Ucraniana. À medida que a guerra continua, a Ucrânia pode muito bem perder ainda mais território, nomeadamente o seu acesso ao Mar Negro. O que se perdeu no campo de batalha e no coração do povo não pode ser recuperado à mesa das negociações. A Ucrânia sairá desta guerra mutilada, incapacitada e muito reduzida, tanto em território como em população.
Além disso, não existe agora uma perspectiva realista de adesão da Ucrânia à NATO. Como disse o conselheiro do National Security Council, Jake Sullivan, todos “precisam de olhar diretamente para o facto” de que permitir que a Ucrânia adira à NATO neste momento “significa guerra com a Rússia”. Por seu lado, o Secretário-Geral da NATO, Jens Stoltenberg, afirmou que o pré-requisito para a adesão da Ucrânia à NATO é um tratado de paz entre a Ucrânia e a Rússia. Mas nenhum tratado desse tipo está à vista. Ao continuar a insistir em que a Ucrânia se tornará membro da NATO quando a guerra estiver concluída, o Ocidente está a incentivar perversamente a Rússia a não concordar em acabar com a guerra. No final, a Ucrânia terá de fazer as pazes com a Rússia, quase certamente em grande parte em termos russos.
Seja o que for que a guerra possa estar a conseguir, então, não tem sido bom para a Ucrânia. A sua posição de negociação em relação à Rússia foi fortemente enfraquecida. Mas, então, o destino de Kiev sempre foi uma reflexão tardia nos círculos políticos dos EUA. Em vez disso, Washington procurou explorar a coragem Ucraniana para derrotar a Rússia, revigorar a NATO e reforçar a primazia dos EUA na Europa. E não dispensou nenhum tempo a pensar em como restaurar a paz na Europa.
No entanto, nem a Rússia, de acordo com seus objetivos de guerra, conseguiu expulsar a influência americana da Ucrânia, forçou Kiev a declarar neutralidade ou restabeleceu os direitos dos falantes de russo na Ucrânia. Com efeito, seja qual for o resultado da guerra, a animosidade mútua apagou o mito russo da fraternidade russo-ucraniana, baseado numa origem comum em Kyivan Rus. A Rússia teve de abandonar três séculos de esforços para se identificar com a Europa e, em vez disso, centrar-se na China, na Índia, no mundo islâmico e em África. A reconciliação com uma União Europeia seriamente alienada não será fácil, se é que ocorrerá. A Rússia pode não ter perdido no campo de batalha ou sido enfraquecida ou estrategicamente isolada, mas incorreu em enormes custos de oportunidade.
Mas mesmo que a guerra tenha prejudicado a Rússia, está longe de ser claro que tenha beneficiado os Estados Unidos. Somente em 2022, os EUA aprovaram US $113 mil milhões em ajuda à Ucrânia. O orçamento de Defesa russo era então cerca de metade desse montante e, desde então, praticamente duplicou. As indústrias de defesa russas foram revitalizadas, ajudando o país a ultrapassar recentemente a Alemanha para se tornar a quinta economia mais rica do mundo e a maior da Europa em termos de paridade de poder de compra. Apesar das repetidas alegações ocidentais de que a Rússia estava a ficar sem munições e a perder a guerra de desgaste na Ucrânia, isso não aconteceu. Entretanto, a alegada ameaça russa ao Ocidente, outrora um poderoso argumento para a unidade da NATO, perdeu credibilidade. As forças armadas da Rússia provaram ser incapazes de conquistar a Ucrânia, muito menos o resto da Europa.
A guerra também expôs fissuras óbvias entre os membros da NATO. Como mostrou a cimeira do ano passado em Vilnius, os países membros divergem quanto à conveniência de admitir a Ucrânia. Esta frágil unidade actual parece pouco provável que sobreviva à guerra. Estas realidades também ajudam a explicar por que razão a maioria dos parceiros europeus da América quer acabar com a guerra o mais rapidamente possível. A Guerra da Ucrânia pôs claramente fim à era pós-soviética na Europa, mas não tornou a Europa mais segura. Não reforçou a reputação internacional dos EUA nem consolidou a primazia dos EUA. Em vez disso, a guerra acelerou o surgimento de uma ordem mundial multipolar pós-Americana. Uma característica disso é um eixo antiamericano entre a Rússia e a China.
Para enfraquecer a Rússia, os Estados Unidos têm bloqueado activamente o comércio entre países que não têm nada a ver com a Ucrânia ou a guerra ali, porque não vão entrar no comboio dos EUA. Este uso de pressão política e económica para obrigar outros países a conformar-se com as suas políticas anti-russas e anti-chinesas saiu-lhes pela culatra. Encorajou até os antigos estados clientes dos EUA a procurarem formas de evitar o enredamento em futuros conflitos americanos e guerras por procuração que não apoiam, como na Ucrânia. Longe de isolar a Rússia ou a China, a diplomacia coerciva dos Estados Unidos ajudou Moscovo e Pequim a melhorarem as relações na África, Ásia e América Latina que reduzem a influência dos EUA em favor da sua própria.
Em suma, a política dos EUA resultou em grande sofrimento na Ucrânia e na escalada dos orçamentos de defesa aqui e na Europa, mas não conseguiu enfraquecer ou isolar a Rússia. Mais do mesmo não irá realizar qualquer um destes objectivos americanos frequentemente declarados. A Rússia, entretanto, foi educada na forma de combater os sistemas de armas americanos e desenvolveu contra-armas eficazes para eles. Foi reforçada militarmente, não enfraquecida.
Se o objectivo da guerra é estabelecer uma paz melhor, esta guerra não o está a fazer. A Ucrânia está a ser eviscerada no altar da russofobia. Neste ponto, ninguém pode prever com confiança quanto da Ucrânia ou quantos ucranianos restarão quando os combates pararem ou quando e como pará-los. Kiev já está a lutar para cumprir os seus objectivos de recrutamento. Combater a Rússia até ao último ucraniano foi sempre uma estratégia odiosa. Mas quando a NATO está prestes a ficar sem ucranianos, não é apenas cínica; deixou de ser uma opção viável.
Este ano, é tempo de dar prioridade à poupança, tanto quanto possível, da Ucrânia, para quem esta guerra se tornou existencial. A Ucrânia precisa de apoio diplomático para construir uma paz com a Rússia, se os seus sacrifícios militares não foram em vão. Está a ser destruída. Tem de ser reconstruída. A chave para preservar o que resta é capacitar e apoiar Kiev para acabar com a Guerra nas melhores condições que pode obter, para facilitar o retorno dos seus refugiados e usar o processo de adesão à UE para avançar reformas liberais e instituir um governo limpo numa Ucrânia neutra.
Infelizmente, tal como as coisas estão, tanto Moscovo como Washington parecem determinados a persistir na destruição em curso da Ucrânia. Mas seja qual for o resultado da guerra, Kiev e Moscovo terão de encontrar uma base para a coexistência. Washington tem de apoiar Kiev a desafiar a Rússia a reconhecer tanto a sabedoria como a necessidade de respeitar a neutralidade e a integridade territorial ucranianas.
Por último, esta guerra deveria provocar um repensar sóbrio, tanto em Washington como em Moscovo, sobre as consequências de uma política externa militarizada e sem diplomacia. Se os Estados Unidos tivessem concordado em falar com Moscovo, mesmo que continuasse a rejeitar muito do que Moscovo exigia, a Rússia não teria invadido a Ucrânia como o fez. Se o Ocidente não tivesse intervindo para impedir a Ucrânia de ratificar o Tratado que outros ajudaram a fazer com a Rússia no início da guerra, a Ucrânia estaria agora intacta e em paz. Esta guerra não precisava de ter lugar. E cada lado perdeu muito mais do que ganhou.
O autor: Chas W. Freeman, Diplomata aposentado e funcionário público veterano dos EUA que serviu em muitos cargos superiores, incluindo como Secretário Adjunto da Defesa para os Assuntos de Segurança Internacional, Embaixador dos EUA na Arábia Saudita, Diretor para os Assuntos Chineses no Departamento de Estado dos EUA, e como principal intérprete dos EUA durante a visita histórica do Presidente Nixon à China em 1972.


