
A ÚLTIMA UTOPIA URBANA?

O pensamento global, emanado de uma nova ordem, chegou até aqui, pertinho de nós, e promete expandir-se. E como deve ser, vamos começar devagarinho, para se notar pouco ou nada. Sabendo-se que uma “cidade quinze minutos” se compõe de vários “bairros cinco minutos”, depois de Lisboa e Vila Real, e outras cidades no nosso país, já estarem mais adiantados, aqui vai o “cinco minutitos” da Maia. Quarenta hectares de terreno, segundo o Presidente da Câmara Municipal da Maia. Melhor dizendo um quadrado com seiscentos metros de lado, onde tudo cabe.
Uma micro-cidade onde há tudo e de tudo. As pessoas não irão precisar de sair deste bairro, que implementará um modo de vida restritamente local e sedentário, e mais cedo ou mais tarde, nem dali sairão, por vontade própria ou imposta, a não ser até ao bairro mais próximo e pertencente à “cidade quarto de hora” a que pertença.
Naquela área, a autarquia pretende ver criadas ruas, empresas, habitação, restaurantes, hotéis, um pavilhão multiusos e ainda um museu de arte digital. Só lhe falta o hospital e a polícia, o sistema de vigilância com o respectivo controlador, o arvoredo e a cerca (esta ficará para quando outros bairros semelhantes se lhe juntarem e fizerem a tal “cidade quinze minutos”). E para que tudo seja mais célere e profissional e, acima de tudo, de molde a alijar as responsabilidades dos mentores do projecto, a autarquia vai abrir um concurso internacional para o desenho do plano gráfico e descritivo, sua construção e posterior gestão. Tudo bem pensado, seguindo o abecedário oriundo das novas ideias globais de controlo das populações.
Sendo a ideia interessante, à primeira vista, permitindo a reinvenção da urbe, potenciando o comércio e os serviços de qualidade e a sua proximidade aos habitantes, permitindo vários centros na cidade, criando mais emprego, diminuindo drasticamente o tempo gasto em deslocações e o uso de transporte privado, originando o fim dos Centros Comerciais e das suas marcas-âncora multinacionais, traz consigo a diminuição do livre arbítrio, a imposição de um modo de vida que alguém pode não querer mas não pode deixar de ter, e se puder não deve, e se não dever terá de o aceitar; traz também um acréscimo dos preços, uma necessidade de maior vigilância e supervisão à qualidade dos serviços propostos, que, até ver, no que seria necessário nos dias de hoje, é falha no poder de concretização e favorecedora de abusos e corrupção em grande escala.
E depois, gentes, como vai ser? Por todo o Mundo começam a surgir estratégias e investimentos para fazer a implementação deste conceito. Depois de tudo feito e posto em prática, embora me pareça que em Portugal só pontualmente isso poderá acontecer nos próximos (bastantes) anos, sem ao que se prevê, podermos ter a possibilidade de contestação ou não aceitação, vamo-nos queixar a quem? Conviria estarmos atentos ao que se vai fazendo.
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Caro Fenando Magalhães,
Boa tarde.
Quando fiz a cadeira de Urbanização este conceito pareceu-me bom. A cidade crescia em círculos concêntricos facilitando deslocações.
Evitava-se ao máximo a circulação de viaturas, andava-se a pé, o que era saudável, e nada impedia que se fossemos para onde quiséssemos.
Teríamos sempre a possibilidade de decidir o que nos convém e estar atentos ao que nos impõem.
Bairros com parques, serviços e comércio local à nossa medida não fazem mal a ninguém.
Quem quiser Centros Comerciais está à vontade. Não me sinto obrigado a ficar amarrado a uma zona.
Por aqui me fico em “discordância parcial”.
Abraço,
Amiel Bragança
Caro Amiel Bragança, bom dia.
Agradeço o seu comentário e a partilha da sua opinião sobre o conceito de urbanização.
É interessante notar a sua visão positiva em relação ao crescimento da cidade em círculos concêntricos, facilitando deslocações e promovendo a mobilidade a pé, o que traz benefícios para a saúde. Concordo que ter a liberdade de escolher onde queremos ir e estar atentos ao que nos é imposto é importante, e também concordo que bairros com parques, serviços e comércio local adaptados às nossas necessidades são benéficos para todos.
É válido mencionar que a existência de Centros Comerciais oferece opções para quem deseja utilizá-los, sem obrigar seja quem for a ficar preso a uma única zona.
Agradeço o expressar da sua discordância parcial.
Abraço,
Tudo é preferível a passar 45 minutos ou mais por dia em cada viagem para o trabalho. Um verdadeiro horror! Há 10 anos atrás gostava conduzir, agora detesto. Cada vez mais gosto de andar a pé…