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Atualizado em 16/01/2024, às 15:33
Nota prévia
Carta aos leitores do Blog A Viagem dos Argonautas é o primeiro texto de uma série de três dedicados à crise na Universidade. Trata-se de uma reflexão desencadeada a partir do meu corte umbilical com a FEUC feito em 28 de dezembro, dia de em que Joaquim Feio faria anos se estivesse entre nós.
Peço aos nossos leitores que vejam estes textos apenas como uma crítica ao sistema de ensino universitário em Portugal e nunca, mas nunca mesmo, como uma crítica pessoal contra alguém.
São textos que me foram muito difíceis de escrever, de reviver enquanto os escrevia, são textos que refletem uma realidade com a qual teremos que nos habituar a conviver, dada a incapacidade de a podermos esquecer. E fazer como o poeta Jacques Brel:
On n’oublie rien de rien
On n’oublie rien du tout
On n’oublie rien de rien
On s’habitue c’est tout
Como nota final devo agradecer aos meus revisores António Manuel Martins, Fernando Ribeiro, António Gomes Marques, Francisco Tavares, a enorme paciência havida em lerem e relerem mais do que uma vez os textos que agora editamos e a quem agradecemos as sugestões feitas.
JM
***
Em 28 de Dezembro, dia em que o Joaquim Feio faria anos encerrei definitivamente as minhas relações com a Universidade em geral e com a FEUC em particular, assinalando este facto com o envio de uma carta e uma exposição ao diretor da FEUC dizendo-lhe que mais tarde esta última seria editada em jeito de carta aberta ao diretor da FEUC.
Tenho pena que a comemoração dos meus 50 anos de início da minha carreira como docente universitário seja encerrada desta maneira. Já o devia esperar desde o momento em que comecei a ler as declarações de Álvaro Garrido aos jornais regionais quanto à dinâmica que ele queria imprimir à renovação da Faculdade, mas deveria também esperá-lo, sobretudo, e até mais por me ter apercebido que com a afetação de serviço em vigor no presente ano letivo. organizada por Tiago Sequeira, o boss das Economias, e por Luís Peres, meu antigo assistente de décadas, era afinal possível colocar os docentes a dançar de disciplina em disciplina, ano após ano, o que nunca aconteceu em afetações de serviço que eu tenha organizado, e foram muitos anos em que era eu, como coordenador do núcleo de Economia, a organizá-las. Protestei junto do Diretor sobre o que este tipo de afetação representava, até porque assim se minimizava a dignidade da atividade docente enquanto tal, a de formar pessoas, e a de quem a exercia e fui simplesmente por ele apelidado de conspiracionista. Conhece-se o método: quando alguém se opõe ao poder, deprecia-se a pessoa, rotula-se a pessoa, e, depois, esquece-se a pessoa. É da História.
Com tudo isto, seria de esperar que a minha rutura com a Faculdade era incontornável: estava inscrita nos ventos da revolta quanto ao que se faz hoje nas Universidades, mas não, quis admitir que o bom-senso haveria de reinar, o que não aconteceu, pois foi exatamente o bom-senso que foi varrido pelos ventos do neoliberalismo agora reinante nas nossas instituições universitárias.
O que aqui vos deixo é uma exposição que, no que que diz respeito especificamente à dinâmica da FEUC e à renovação total dos seus curricula académicos, deveria ter sido escrita há dois anos. Não o foi e aqui deixo o meu pedido de desculpas pela minha incapacidade de perspetivar o futuro próximo, o nosso presente de agora.
É esta carta e a longa exposição que a acompanha que agora aqui vos deixo. E poderíamos ficar por aqui na apresentação destes dois textos, mas a carta enviada ao Diretor da FEUC, Álvaro Garrido, termina com um post scriptum em que se diz o seguinte:
“No texto verá que minimizei a questão da Capela e da Biblioteca do Joaquim Feio, apresentando uma hipótese de explicação, para mim a única, mas para deixar de ser hipótese e passar a ser uma certeza como explicação é necessário que algo seja dito à filha, que bem o merece, ela e todos nós, inclusive o Álvaro”.
E este post-scriptum merece uma explicação adicional, mesmo que curta, ao que é largamente explicado na exposição que aqui vos deixo.
Na cerimónia fúnebre do Joaquim Feio que decorreu na Capela da Universidade, o Diretor da FEUC, no seu discurso de improviso, fez uma declaração que no mínimo pode ser apelidada de bombástica, ou seja, que o Joaquim Feio tinha doado a sua Biblioteca à Faculdade, o que incomodou todos aqueles que tinham acompanhado de perto a longa agonia do Joaquim Feio.
Aquela afirmação não era verdadeira: trata-se de uma biblioteca valiosa, o Joaquim Feio era um homem que vivia para a cultura e, ao contrário de muitos, não vivia dela. Trata-se de uma biblioteca com cerca de 15 mil volumes, para além de um espólio valioso em livros raros, livros de cotação no mercado que, como o Joaquim sucessivamente dizia, era o investimento que deixava à filha.
Em jeito de explicação para esta afirmação do Diretor só vejo uma: a de que esta declaração é o resultado de alguém que está extremamente fatigado e que em tensão terá confundido ou sobreposto o seu desejo e o seu amor pelos livros, à própria realidade, a de que a biblioteca tinha um dono, a filha. Mas é uma afirmação grave, proferida num momento não menos grave e solene.
Trata-se, pois, de uma afirmação que mereceria e precisaria de ser corrigida pelo seu autor para serenidade de todos nós. Relembrando Hegel, um ato não pode ser desligado do que lhe é consequente, os seus efeitos, ou antes, ele é exatamente o que lhe é consequente. Anular os seus efeitos é anular o próprio ato. É neste sentido que se insere o meu post-scriptum, desejando que o Álvaro Garrido tivesse a humildade de pedir desculpa à filha por aquela infeliz declaração. É também neste sentido que retive o meu texto em carteira, à espera de que o Diretor Álvaro Garrido levasse em conta o meu pedido, refletisse sobre o mesmo e se pronunciasse junto da filha do Joaquim Feio e assim anulasse a referida declaração bombástica, o que me levaria, e com muita alegria, a reformular o meu próprio texto. Esperança vã [1]. Três semanas depois nenhum passo foi dado no sentido de retificação da dita afirmação bombástica e sinto que tenho o direito de não esperar mais. Assim, aqui temos a última carta que enviei em 28 de dezembro ao Diretor da FEUC acompanhada do texto de reflexão intitulado Algumas reflexões ainda: em torno do Joaquim Feio e da NOVA FEUC .
Relembro aqui De Gaulle quando nos anos sessenta do século passado disse no Camboja que um sistema só pode ser considerado democrático quando neste se é capaz de reconhecer e retificar os seus erros (o erro a que se refere aqui de Gaulle é a guerra no Vietname conduzida pelos americanos).
Um outro exemplo se passou comigo no tempo do governo Sócrates. Era ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues. Com a sua política de ensino, o sistema entrou rapidamente em decomposição. A questão foi a debate na Assembleia da Républica. Um amigo da ministra e também ele ministro, telefona-me a falar de um assunto pessoal e, naturalmente, veio à baila o tema da ministra e a pergunta que me foi feita foi a seguinte: deve o governo deixar cair ou não a ministra Maria de Lurdes Rodrigues? Respondi-lhe com a posição de De Gaulle: se acham a política dela correta devem apoiá-la, se acham que por aí não se chega a bom porto, devem deixá-la cair. Terei acrescentado: nunca vi uma reforma vingar quando imposta e a ser aplicada por e para aqueles que a recusam. E o governo decidiu manter a ministra, não quis sentir-se desautorizado nas suas escolhas, o governo não quis assumir o erro da política seguida.
Mas é isto muito diferente da afirmação que é atribuída a Cavaco Silva: “Raramente me engano e nunca tenho dúvidas”?
Não, claramente, não é. As consequências desse erro governamental ainda hoje as pagamos. Foram milhares os professores que abandonaram o ensino com penalizações e a maioria deles eram professores do 10º ao 12º ano. Entre eles está a minha mulher que saiu com uma penalização de 16% na sua reforma e foram milhões de euros que saíram do orçamento. Era o custo imediato (para além dos pesados custos a prazo para quem se reforma antecipadamente) a pagar para ter direito ao seu equilíbrio físico e mental.
Nos exemplos referidos houve custos pesados, pesadíssimos, a pagar. No caso presente, há a incomodidade gerada em todos aqueles que viveram mais de perto a longa agonia do Joaquim Feio e que prezam os altos valores da Democracia, entre os quais está o respeito pelos outros e pelo que é dos outros.
Em conversa com uma colega minha do ISEG esta minimizava a importância da questão da Biblioteca do Joaquim Feio por uma outra razão que para mim é a menos relevante: por direito, os livros são da filha e, portanto, não vale a pena falar disso. Adicionalmente, sublinho, há direitos para lá do próprio direito, direitos universais, e isso sabemo-lo desde os tempos de Sófocles e da sua Antígona.
O que para mim é menos relevante aqui, é, pois, a questão do direito instituído, e este, de facto, até agora não foi posto em causa por ninguém. Não se trata aqui de uma questão de direito, mas sim de dever pessoal, como seu amigo de há décadas, de protestar contra o que foi dito e que sei não ser verdade. Relembro Giancarlo De Vivo quando a propósito da biblioteca de Piero Sraffa nos lembra Marguerite Yourcenar e nos diz: Marguerite Yourcenar escreveu que “uma das melhores maneiras de reconstruir o pensamento de um homem é reconstruir a sua biblioteca”.
Por analogia, a melhor forma de destruir a imagem de um homem é desconfigurar o que representa a sua biblioteca. Note-se que esta era assumida pelo Joaquim como O investimento feito ao longo de muitas décadas e com muito esforço, sublinhe-se, para a filha.
Pensar agora que a sua biblioteca poderia ter sido doada à FEUC, ou mesmo cedida por um valor simbólico, uma forma encapotada de doação, era menosprezar o sentido humanista cristão que havia no Joaquim Feio, por vezes até em excesso, era considerar que na ponta final da sua viagem definitiva se teria portado como um mau pai, como um mau avô, é pura e simplesmente desfigurar a imagem do homem que ele foi como cidadão, como pai, como avô.
Esta seria então uma imagem criada do Joaquim Feio que me recusaria a aceitar. Inversamente, se posta a questão da doação por um lado e a sua recusa pelo outro, pela filha, seria então a filha a poder ser acusada na praça pública de egoísmo, por não estar disposta a respeitar a suposta última vontade do pai. Estamos a lidar com sentimentos muito profundos, sentimentos estes que merecem e devem ser rigorosamente respeitados, daí a tensão que tudo isto me criou, daí a minha insistência em abordar esta questão, em esperar que a palavra doação desaparecesse deste contexto, o que só o diretor poderia fazer e até agora não fez.
Aqui é a descrição de Marguerite Yourcenar que ganha força de lei para lá da força do direito. A minha amiga que pense nisso.
Mas há uma conclusão a tirar deste triste acontecimento, deste tipo de comportamento e, sobretudo, na ausência da sua retificação:
Quando os d’ en haut não são capazes ou se recusam a reconhecer os seus erros face aos d’ en bas que pelos primeiros são atingidos, é então o sentido da Democracia que está a ser degradado, minado. E quando assim é, o poder democrático está a ser substituído pelo poder discricionário, pelo mando, distinção esta que o Joaquim Feio muito gostava de utilizar.
E o resultado dessa degradação ao nível nacional são os Chega e os Iniciativa Liberal deste mundo que basicamente se limitam a esperar a recolha dos dividendos desse processo de autodestruição da Democracia. E as correntes para agrilhoar a Democracia estarão já a ser feitas secretamente numa qualquer forja moderna, secreta sim, mas à vista de toda a gente que a não quer ver e onde se produzem os Moloch deste nosso terrível mundo.
Criticar percursos ou comportamentos deste tipo não pode ser entendido como ataque pessoal seja a quem for, não, deve apenas ser visto como obrigação de quem não abdica do respeito por si-próprio, do respeito pelos outros, do respeito pela vivência em Democracia no presente e no futuro, que será o tempo dos nossos filhos e netos, e é nesse sentido que deve ser entendida a longa exposição intitulada Algumas reflexões ainda: em torno do Joaquim Feio e da NOVA FEUC .
Devo aqui acrescentar que com estes textos encerro também as minhas comemorações dos 50 anos de início da minha carreira como docente universitário e esta exposição reflete também um pouco disso, ao descrever, em pinceladas rápidas, não sou nem pintor nem escritor, alguns retalhos da vida do professor que eu fui e em que assumi sempre como meu objetivo principal, e no quadro do que entendo como espírito de missão da Universidade, ser um dos elementos catalisadores da transformação dos nossos alunos da fase de jovens adultos à fase de adultos em corpo inteiro, isto é, embebidos do espirito de cidadania e equipados com competências técnicas apreendidas e à altura de poderem servir a sociedades que os criou e formou.
A este nível relembro duas situações.
a) Nas eleições do ano de 76, creio eu, funcionei na FEUC como elemento aglutinador entre as diversas correntes de esquerda, para a criação de uma lista única de estudantes. Na FEUC de então estávamos longe dos desmandos de um certo radicalismo de esquerda maoísta que arrasaram outras faculdades. Quanto à constituição de lista única, relembro as discussões entre a calma do José Reis, o rigor ou rigidez do Pedro Ramos e a alma da Graça Leão, mais tarde professora no ISEG. Era um contraponto à organização à direita, também ela com um professor pelo meio, e onde se salientava Álvaro Amaro, entre outros. Mas aquele não era o meu lugar e não o repeti mais. Preferi utilizar como máxima, dita aos estudantes e sucessivamente repetida: não me importa o que politicamente os estudantes sejam, importa-me é que politicamente sejam [alguma coisa].
b) Nos anos 90, uma das obrigações dos alunos que escolhiam o método de avaliação mais evoluído de avaliação contínua era a de lerem obrigatoriamente um livro de cultura geral em economia, livro esse escolhido por nós e que variava anualmente [2]. Como era livro obrigatório, havia um exemplar na Biblioteca, mas este exemplar não poderia sair da biblioteca dado que tinha de estar sempre disponível para consulta no local, daí ser marcado com um círculo a vermelho.
Duas alunas chegam ao meu gabinete para se estabelecer um plano de trabalho para a avaliação contínua. Uma das alunas era de cor e a outra não. Pego no dito livro de cultural geral em economia. Vejo a lombada, vejo o círculo a vermelho e pergunto: mas este livro não pode estar aqui. Como é?
E a estudante que não era de cor, diz-me: mas eu não tenho que me sujeitar à sua noção de cultura – e isto dito com a sua colega bem caladinha.
Tem razão, não tem de se submeter à minha ideia de cultura, mas não tem o direito de tentar subvertê-la, querendo enganar-me e enganar-se a si-mesma. Pela minha parte, tenho o direito de recusar a sua ideia noção de cultura (ou incultura), que é ter o direito de ler apenas o que lhe apetecer, e de lhe dizer: se é isso que quer, não tem de fingir e querer viciar a nossa ideia (de equipa de docentes) de avaliação contínua. Neste caso, saia então do meu gabinete e vá a exame final. Para ver um exame escrito não preciso de a conhecer, preciso apenas de saber o seu nome para colocar a sua nota na pauta e esse fica registado na sua prova escrita.
Escolham…então.
A estudante de cor, que não tinha dinheiro para comprar o livro, reage e diz: eu quero estar em avaliação contínua e a outra… timidamente diz: eu também.
O diferendo morreu aí e mais tarde fui eu que ofereci o livro à estudante de cor, como se fez na equipa de Internacional e de Finanças Internacionais com muitos outros alunos (os livros obrigatórios eram variáveis anualmente e eram diferentes de disciplina para disciplina). O livro tinha sido levado até ao meu gabinete por favor de uma funcionária da Biblioteca que deve ter percebido as dificuldades financeiras da aluna de cor. A partir daí, esta aluna não precisaria de pedir por favor a ninguém para dispor do livro fora da biblioteca.
Esta foi a prática seguida durante anos por mim e por todos aqueles que comigo trabalharam.
A luta contra a incultura ou iliteracia económica também se passava a este nível, durante décadas e assumimo-la com orgulho, mas esta luta não faz nenhuma linha em nenhum curriculum e, por isso, no mundo dos ratings de agora, é uma luta que desapareceu da prática docente e diríamos até que, à luz da ideologia de hoje, é uma luta que nunca existiu. Nem é por acaso que não há uma linha que seja escrita em Ata do Conselho Científico que a isto se refira.
O exemplo mais caricato deste branquear [3] da história da FEUC aparece com o Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios, uma Iniciativa realizada ao longo de vários anos e do qual também em Conselho Científico não há uma única linha sobre a mesma. Relembro aqui e como contraponto, por exemplo, a posição de Pezarat Correia aquando da projeção do filme Kisangani Diary que considerou todo o trabalho realizado em torno daquela sessão como digno de registo e qualificável como trabalho científico. Acrescente-se, de resto, que todas as sessões eram inseridas na avaliação dos alunos de Economia Internacional e/ou Finanças Internacionais.
Mas esta é uma Iniciativa que o Diretor não pode ignorar: participou num debate em que me recusei a participar sobre essa Iniciativa, debate esse feito a partir de um texto escrito por Luís Lopes e Margarida Antunes e publicado no boletim Mil Folhas. Depois vieram as iniciativas diversas relativas aos 50 anos da FEUC. No âmbito dos 50 anos da FEUC houve várias sessões de cinema numa versão pobre relativamente àquelas que foram organizadas pela equipa com quem trabalhei até dez anos antes, mas isso é aqui irrelevante. O mínimo seria perguntar a estes dois docentes que instalaram a prática de cinema/documentário nas salas de aulas se estariam dispostos a participar nas ditas sessões. Mas o reconhecimento quanto a estes dois docentes foi… simplesmente nulo. Não foram convidados para participar em nenhuma das sessões. Diria que foram substituídos pelos recém-chegados Tiago Sequeira e mulher, para a análise de um filme e comentário de um livro, respetivamente. Deste ponto de vista não tenho nada contra a escolha feita, tenho é contra a opção de não incluir nenhum dos nomes citados.
Compreende-se, pois, que eu sinta a necessidade de descrever algumas das práticas pedagógicas seguidas, mesmo que de forma sucinta, práticas realizadas ao longo do tempo e adaptadas às características pessoais de cada um dos estudantes quando se utilizavam os diferentes métodos de avaliação contínua de que nos servíamos. Exemplificámos ao longo do texto essas práticas, esqueçamos aqui o custo pessoal que elas implicavam, com exemplos concretos, tomando como referência alguns dos mais brilhantes alunos que tive pela frente. O leitor menos atento pode pensar que os alunos aí citados foram os alunos brilhantes que tive, mas isso não é verdade. São apenas alguns deles. É certo que na licenciatura em Gestão adicionaria apenas mais um aluno aos nomes referidos, o do guineense Brener ou Brenner (com um ou dois n é coisa que não sei) mas em Economia a lista é longa.
Evitando continuar a citar pessoas que ainda hoje pertencem à FEUC, relembro aqui como alunos igualmente inesquecíveis meia dúzia daqueles que imediatamente me saltam à frente dos olhos: Francisco Bandeira, João Paulo Moura, Júlio Gomes, Margarida Mano, Daniel Ribeiro, Fernando Ribeiro e a lista poderia continuar. Assim como nunca é demais também relembrar aqui, enquanto alunos de exceção, os saudosos Francisco Tenreiro, Pedro Ramos e Miguel Morgado, alunos de exceção aos quais na altura própria não deixei de prestar a minha homenagem.
E tudo isto vem a propósito de um esclarecimento que não foi dado, e duvido que venha a ser dado sobre o património cultural de mais um dos que participou nessa história vivida, a da FEUC, e que definitivamente nos deixou. E relembro aqui uma das últimas frases que lhe ouvi no final de julho: e dediquei eu toda a minha a vida a esta Escola para assistir a isto, mas a este a isto há ainda que somar a confusão lamentavelmente criada pelo Diretor da FEUC, envolvendo o seu espólio cultural, confusão esta que se prolonga para além da sua viagem definitiva, feita sem riso nem sorriso.
E é tudo.
Notas
[1] Direi hoje que se trata de expectativa patética da minha parte, pois, soube na missa do 30º dia que uma posição avisada de uma amiga comum e na mesma linha da que agora exponho foi transmitida em meados de setembro ao Diretor da FEUC, sem que se tenha visto da sua parte o mínimo sinal para a retificação da sua posição. Diremos pois já teve meses e meses para refletir e corrigir a sua declaração e não o fez. Mesmo assim, como a esperança é a última coisa a cair, ainda aguardei mais 3 semanas, entre o dia 28 de dezembro e agora.
[2] Veja-se o trabalho que isto implicava. A mais de um ano de antecedência, teria de comprar, e pagar do meu bolso, entre 3 a 5 livros de cultura geral em economia editados em francês e acessível aos alunos, lê-los, escolher um, arranjar um editor, assegurar a qualidade da tradução, acompanhar a edição, e garantir a oferta de alguns exemplares que eram depois oferecidos a alunos que sentíamos de menos posses. Destes livros só utilizámos um já traduzido em português, Dinheiro Tóxico de Kevin Philips.
Visto à luz dos cânones de hoje, da rentabilidade pessoal máxima, dos ratings oficiais, esta prática pedagógica seria uma perda de tempo, uma falta de bom senso e significaria que eu andei a viver fora da realidade. Aos meus críticos direi que não me arrependo de ter vivido assim enquanto professor. Foi isso o que escrevi, há já muito tempo.
[3] Fico com a ideia de que o livro 50 anos FEUC é um branquear da história vivida da própria FEUC. Digo fico com a ideia pois não consigo ler decentemente o livro, pelo tamanho reduzido dos caracteres utilizados e muito menos as notas. Além do mais, não percebo como é que se faz uma edição de luxo e a poupar na tinta. A digitalização utilizada é de uma extrema má qualidade, o que impede pessoas de idade como eu de serem capazes de o ler sem terem de fazer um grande esforço. Mas quanto ao apagar da história vivida dou um exemplo: na página 43 diz-se: No âmbito do programa de desenvolvimento do Centro Informático que foi desenhado, a FEUC comprou material Apple e a IBM ofereceu material para partilha de impressoras com a possibilidade de uma das máquinas mais potentes funcionar como servidor de forma a não sobrecarregar os outros computadores” Fim de citação.
Apenas isto quanto ao desencadear da informatização da FEUC! É pouco, é mesmo muito pouco. Este detalhe daria uma história bem mais interessante se contada pelo Pedro Ferreira e pela Rosário Pericão e a começar pela resposta a uma pergunta muito simples: como é que a IBM aparece nesta história. Caída do céu? Sublinho que é a partir daqui que se inicia a informatização das bibliotecas da Universidade de Coimbra. Teria igualmente interesse perceber como é que se introduziram os primeiros cursos gratuitos de Windows-Word-Excel, etc. E porque não retomar esta ideia em vez de simulacros de disciplinas como é o caso da recém criada disciplina dita Soft Skills. Tanta coisa que nessa história vivida se teria interesse em saber que aconteceu e perceber por que aconteceu. Mas esta não é uma história de contextos externos ou futuros, ao contrário do livro editado, mas sim uma história viva das pessoas e dos seus contextos internos, é uma outra história.
O livro penso ser uma descrição leve do passado da FEUC e será sobretudo uma perspetiva sobre o futuro exposta possivelmente a partir das supostas grandezas do presente. Mas como tenho muita dificuldade em ler o livro, desisto de o fazer e falo apenas em possivelmente. Falo da história vivida porque ela também nos mostraria como é que a História começou mal, penso que se fala um pouco disso, e manteve-se mal durante muito tempo, mesmo em democracia com o Cardia como ministro e o Romero de Magalhães como secretário de Estado. Perceber toda essa história vivida é perceber como é que não se deve criar uma Faculdade, perceber essa história vivida seria também perceber os bloqueios institucionais que foram criados e os seus porquês, perceber essa história vivida seria perceber a engenhosidade e a dedicação de muita gente para ultrapassar todas essas dificuldades. E falo de muita gente, não de a ou de b. Um problema semelhante se passou com a criação da Universidade da Beira Interior, na Covilhã. Metia pena perceber a falta de recursos que na Covilhã se sentia em tudo o que nela se fazia, a que adicionavam, ainda por cima, os custos pesadíssimos da sua interioridade, o que não se fez sentir em Coimbra.
