CARTA DE BRAGA – “da realidade e da circunstância” por António Oliveira

A única verdade é a realidade’, garantiu Aristóteles. Talvez por ter os pés bem assentes no chão, e não olhar a realidade com as ‘costas largas’ do idealismo de Platão, onde cabia tudo, tentou explicar o editor e cronista Daniel Fernández. 

Só que pertencemos a esta humanidade, não a qualquer outra, neste planeta que alguns ainda consideram tão direitinho como um campo de futebol, não a um qualquer outro sistema solar (ou iluminado a gaz), num outro universo –talvez paralelo– como já se começa a discutir, passados que estão os Hawking, Asimov, Bradbury, Heilein, Clark, Dick e tantos outros que nos puseram a imaginar futuros distintos, longe dos 15 segundos autorizados pelos cérebros do TikTok.

E se nos dermos ao cuidado de olhar a quem temos ao lado, num qualquer sítio onde se vá, da igreja ao cinema, da praia ao tal campo, da escola à fábrica e a tantos outros lugares que poderia acrescentar, ou tão só olhar para a gente com quem nos cruzamos, e até damos conta de como, entre todas as amostras do milagre que é a vida –a de todos nós– sempre encontramos imperfeições, mas talvez não os outros, porque, como na arte, também podemos ver como a vida pode ter tanta beleza como a imperfeição, uma das máximas cantadas, musicadas e desenhadas por muitos autores. 

E é tão bonito olhar o brilho de uns olhos entre pálpebras caídas e ‘pés de galinha’, aquelas rugas que são um dos primeiros sinais que a lentidão do tempo, vai largando no encarquilhar da pele, para mostrar ao mundo a alegria dos encontros e a desolação das partidas, aquela apoquentação natural a apelar ao carinho e à aproximação.

Aprendi a disfrutar do meu eu interior, a entender que a única coisa milagrosa para cada um de nós, é ter nascido, de viver esta aventura da vida. E o senhor também dá conta de não haver nada maior que a oportunidade de viver?’ Afirma e pergunta nos últimos dias de Março, em Montevideo, o ex-presidente do Uruguai José Mujica, com 85 anos, ao jornalista e cronista John Carlin.

Mas, voltando ao princípio, não podemos esquecer que a realidade tem também os seus riscos, quando se analisa sem se conhecer e, muito mais, quando se olha e não se sabe ver, ou chegar a qualquer lado sem saber para onde olhar. Os acontecimentos são sempre condicionados pelo lugar e pelo tempo, por quem os descreve e como o faz, pois palavra dá forma ao pensamento, recria-o, molda-o e modula-o, aliás o que nos distingue entre todos os que dão existência a este universo.

Ortega Y Gasset, no ensaio ‘Adão no Paraíso’, emprega o termo vida, para referir a vida humana, a biográfica, a vida humana na história, mas em que a realidade que tem em volta, ‘forma a outra parte da minha pessoa’, pelo que esse ensaio ‘Adão no Paraíso’, talvez seja apenas a razão da sua tão citada sentença, ‘Eu no mundo, eu na minha circunstância’, em que a ideia de como se olha, bem como a da perspectiva, torna incompreensível esta outra sentença, ‘A realidade vista de um qualquer lado ou por uma qualquer pessoa será sempre idêntica’. 

Basta pensar que nunca é olhada da mesma maneira, a não ser em regimes de pensamento único, ditado e imposto por uma única entidade, como aqueles que vemos estarem a ser alimentados malevolamente, um pouco por todos os continentes!

E faz amanhã cinquenta anos que este país se livrou desse mal…, mas eles andam por aí (com ou sem cabelo), e querem os lugares de volta!! 

Já nem é essa a nossa circunstância!!!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

 

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