As sílabas marginais/uma vez, disseram-lhe que as suas horas já não estavam iguais /de Nelson Ferraz

 

 

uma vez, disseram-lhe que as suas horas já não estavam

iguais.

— que horas são?, perguntou

os ponteiros não falaram e mais ninguém lhe tornou a

falar sobre as horas

agora, já não iguais.

a partir de então, viam-no, pela manhã, de bengala

encostada ao chão, um ar distante nos olhos húmidos e

um sorriso quase infantil nas mãos e na fala.

às vezes,

— hum… que horas são?

— ainda é cedo, avô.

e o medo ia-se embora.

 


In “pois”, Versbrava Editora, 2015.

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