OS CONTOS TRADICIONAIS PERDURARÃO por Luísa Lobão Moniz

Era uma vez uma Criança… é uma vez uma Criança… ou será uma vez uma Criança… não sei, serão as circunstâncias sociais que o hão-de de determinar.

O menino…ou a menina…bem, a Criança corre com um sorriso nos lábios ou com lágrimas a lavarem-lhe a cara para o colo de quem?

Não sabemos, mas ela sabe.

Ela corre para quem a recebe de braços abertos e a abraça, para quem tem um colinho acolhedor e calmo que lhe transmite confiança, para quem lhe faz festinhas e ri com ela, para quem lhe dá beijinhos e lhe limpa as lágrimas. A Criança corre para quem fala com ela e lhe pergunta porquê, para quem a faz pensar no que lhe deu alegria ou tristeza, ou no que a fez sentir prazer ou medo.

A Criança gosta, precisa de se sentir segura para conseguir compreender o seu mundo e o mundo que está fora dela.

A Criança gosta que desliguem a televisão quando aparecem as imagens traumatizantes de outras crianças, as crianças sem infância, que morrem e sofrem nas guerras que não entendem.

Como há-te entender sentimentos que não nascem com ela, são aprendidos pelos exemplos de que são alvo?

Ninguém nasce com sentimentos de ódio, com desejo de poder violento ou repressivo. Nascemos, sim, para nos sentirmos desejados, compreendidos, com sentimento de pertença e para saber viver com a diversidade, seja ela qual for desde que não nos afronte.

Nem os animais gostam de ser rejeitados, de ser maltratados, despojados do seu território à força, os animais só matam para sobreviver.

A Criança com infância vive num mundo maravilhoso, em que tudo se acaba de resolver com justiça.

E quem faz crescer esse mundo de uma forma responsável, respeitadora da vida, sonhando com as soluções mais justas e equilibradas?

A casa, a família, a comunidade, o poder encantatório dos contos de fadas, das rimas, das lengas-lengas e dos jogos são o sustentáculo do desenvolvimento da Criança quando esta é respeitada nos seus estádios de desenvolvimento cognitivo, afetivo, físico, moral, de respeito mútuo, de justiça, de participação no seu projeto de vida…

Que contente fica a Criança quando, ao ouvir ler “A Menina do Capuchinho Vermelho”, sabe que o caçador atirou o lobo para o lago e ele morreu afogado, ou quando, noutra versão, é a menina que ultrapassou o obstáculo de o Lobo ter comido a avozinha e é ela que abre a barriga do lobo, tira a avozinha, e enche-a de pedras para o lobo se afundar no lago!

É uma grande conquista para a Criança perceber que ela também é capaz de resolver o mal que a rodeia.

O Capuchinho Vermelho saiu de casa para levar bolos à avó, como muitas crianças vão fazer recados às mães indo à padaria.

A Criança identifica-se com o Capuchinho Vermelho, vai fazer um recado à mãe, a mãe diz-lhe para ter cuidado com as pessoas, diz-lhe para não se atrasar. Ora, acontece tudo ao contrário, ela diz ao lobo que vai a casa da avó e onde fica a casa, distrai-se pelo caminho a colher flores até não ter mãos para as levar e a avozinha é comida pelo lobo.

No percurso até casa da avó, quando o lobo se aproxima do Capuchinho Vermelho aparece um caçador que inibe o lobo de fazer mal à menina, porque todos sabemos que não se maltrata uma criança.

É a sanção social que a protege.

As histórias tradicionais foram passando de geração em geração porque a Criança assim o tem desejado.

De geração em geração vão aparecendo outras histórias que pretendem (?) preencher o imaginário e o desenvolvimento da Criança, têm sido histórias que acompanham o desenvolvimento tecnológico das diferentes épocas e, muitas, tentam com técnicas sofisticadas acabar com o Mal usando a força, a agressividade e a violência. No entanto quando o Mal “perde” a Criança fica aliviada.

Será que estas histórias têm o condão de maravilhar e contribuir para um saudável desenvolvimento emocional, afetivo da Criança? Será que a Criança sente a sua ansiedade, o seu medo envolvidos numa história de monstros, de aparelhos que disparam contra os maus a todo o momento. Serão outros valores que se estão a transmitir com estas novas histórias? A Criança pode aprender a tolerância, o respeito mútuo, o direito à diferença através de robôs e homens e mulheres máquinas?

Não sei, será um tema a investigar.

As histórias tradicionais apresentam situações que falam das lutas internas próprias do desenvolvimento da Criança como o medo, a solidão, e a insegurança. A Criança aprende a pensar de forma crítica e compreender as consequências da sua atitude.

As histórias tradicionais e as contemporâneas são importantes para o desenvolvimento psicológico e social da Criança e para uma melhor compreensão do Mundo.

Por muitas novas tecnologias, que se adaptem a histórias para a Criança, não devemos esquecer que é do ser Humano que se quer feliz e reconhecido que se trata e não de monstros que só querem acabar com o Mal.

Oxalá os contos tradicionais perdurem.

 

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