Nota de editor:
Ver a nota prévia do texto de ontem “Macron dinamitou a Política Francesa – mesmo com Le Pen neutralizada, outras ameaças já estão à espreita” (aqui).
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
2 min de leitura
A aposta de Macron irá resultar ?
Publicado por
em 8 de Julho de 2024 (original aqui)
O presidente francês, Emmanuel Macron, esperava que as suas eleições antecipadas forçassem os cidadãos franceses a compreender os riscos da ascensão aparentemente implacável do Rassemblemnt National (RN) neofascista de Marine Le Pen. A ideia terá funcionado a meio-termo mas não da maneira que Macron pretendia.
O resultado mais importante foi que quatro partidos de esquerda se reuniram numa Nova Frente Popular. Primeiro, eles concordaram em concorrer um único candidato de esquerda em cada distrito. Então, na segunda volta, a esquerda e o centro concordaram em retirar os candidatos que ficaram em terceiro, para unificar o voto anti-RN.
O resultado surpreendente foi que a coligação de esquerda ficou em primeiro lugar com 182 assentos, o centro de Macron ficou em segundo com 163, e o RN, que ganhou mais votos na primeira volta, ficou em terceiro com 143. A aritmética simples dá à esquerda mais o partido de Macron 345 assentos, bem acima da maioria na Assembleia Nacional de 577 membros.
Mas a política não é assim tão simples. O maior vencedor à esquerda foi o partido de esquerda de Jean-Luc Mélenchon, La France Insoumise (France Unbowed), com 74 lugares. Mélenchon é um maximalista, e agora considera-se no papel de controle das nomeações para os postos de autoridade. Macron detesta-o. Além do núcleo duro de seus próprios lealistas, Mélenchon é amplamente considerado um idiota .
Quando as projeções foram anunciadas, Mélenchon exigiu que Macron nomeasse um primeiro-ministro da Frente Popular. “O presidente tem o poder, o presidente tem o dever de chamar a Nova Frente Popular para governar”, disse Mélenchon na noite de domingo.
O líder desse governo seria, presumivelmente, o próprio Mélenchon ou um aliado próximo, claramente uma impossibilidade para uma coligação de centro-esquerda. A questão prática é se Mélenchon direcionaria os seus deputados a votar contra a nomeação de um primeiro-ministro da esquerda moderada. Por enquanto, certamente parece que sim.
Assim, o sectarismo muito característico e a vaidade pessoal da esquerda poderiam negar um resultado notável que parecia inatingível enquanto Macron fosse presidente: uma coligação de governo de centro-esquerda liderada por um primeiro-ministro de esquerda em nome de um programa progressista.
Se o bloqueio de Mélenchon for bem sucedido, Macron é então levado a cozinhar uma qualquer espécie de maioria governante. Isso pode levar semanas. Poderia incluir outros componentes da Nova Frente Popular, a saber, os socialistas e os verdes, o próprio partido de Macron e os seus aliados, e elementos dos republicanos muito fragmentados, o antigo partido gaulista, que obteve 45 assentos.
Macron poderia chegar a uma simples maioria numérica dessa forma, mas ninguém sabe quem é que poderia ser o primeiro-ministro ou se a maioria iria segurar-se. O resultado seria um período de instabilidade que lembraria a Quarta República do pós-guerra, que ficou famosa pela mudança de coligações e governos de curta duração. Houve 21 governos nos 12 anos da República.
A Quarta República terminou em 1958, com o retorno de Charles de Gaulle, que criou uma nova constituição que foi aprovada esmagadoramente através de um referendo popular. Isto permitiu estabelecer um executivo forte. A única falha que de Gaulle não previu foi o que aconteceria quando os poderes executivo e legislativo fossem de diferentes partidos, a chamada coabitação. Isso aconteceu três vezes antes, em 1986-1988, 1993-1995 e 1997-2002, mas nunca no grau atual.
A direita francesa está em queda, mas não está fora. Se o centro-esquerda não conseguir governar, Le Pen provavelmente voltará em força.
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O autor: Robert Kuttner (1943-) é um jornalista americano e escritor cujos livros apresentam pontos de vista liberal/progressistas. É co-fundador e co-editor do The American Prospect criado em 1990 e professor na Brandeis University’s Heller School. Durante 20 anos foi colunista no Business Week e no The Boston Globe. Atualmente continua a escrever no Huffington Post. É também um dos cinco fundadores do Economic Policy Institute em 1986, integrando presentemente o seu comité executivo. Entre 2007 e 2014, Kuttner aderiu ao centro liberal de investigação e política Demos como ilustre membro senior. O seu último livro é Can democracy Survive Global Capitalism?


