Aqui há uns poucos de dias, passavam alguns minutos das quatro da manhã, como o sono já tinha ido embora, coloquei o auscultador no ouvido e liguei para a emissora que me acompanha, praticamente, o dia todo. Tinha memorizado para não ouvir nessa madrugada, por àquela hora estar no ar um programa que rejeito completamente, mas a força do hábito saltou por cima da memorização.
Ouvi então o que parecia um mosquito motorizado a andar em volta da cabeça, até com variações no ruído do motor, a dar mesmo a ideia de um looping, ou um voo picado para bombardeamento, exactamente como se vê nos filmes de guerra, e deixei-me ficar até começar a ouvir o motor a engasgar, como se lhe faltasse combustível, ou uma qualquer avaria lhe diminuísse as rotações.
Nessa altura entram em acção (seriam talvez quatro e meia), uns motores mais pesados, como se fossem os pais da criatura, e resolvi apagar aparelho e tentar dormir de novo; mas depois de me ter virado duas vezes, voltei a ligar o radiozito, e a criatura ainda por lá andava, agora na companhia de, pelo menos, outras duas criaturas semelhantes, por se ouvir muito bem o silvo dos motores eléctricos ou híbridos que elas teriam e, a espaços, o barulho dos motores dos pais da criatura, agora mais suaves a denotar tranquilidade, e desliguei o aparelho outra vez.
Mas intrigado pela sequência, voltei a ligá-lo (seriam umas cinco e meia), para saber se a criatura já teria ido fazer barulho para outro lado. Então o meu ouvido direito foi invadido por o que parecia ser um concerto de buzinas de todo o tipo, com o ritmo apropriado para cada uma delas e, descobri que, definitivamente, tenho de evitar tal programa, para não imaginar estórias estrambóticas, com origem nuns raros e esquisitos passadores de músicas, que até devem estar à espera de apreciações como esta, para melhorarem as suas performances.
Aliás, e por não ter sido a primeira vez a penar uma emissão deste tipo, (razão por agora ver sempre a programação para todas as noites, normalmente demasiado longas), lembro-me de, há já algum tempo, ter ligado o radiozito e logo de lá ter saído um conjunto de ruídos, (os tipos devem ter partido alguma coisa!) pensei eu e, ainda mal refeito do choque, ouço um trompete a parecer um lamento, uma trompa mais grossa a debitar tristeza para outro lado, mais uns instrumentos de sopro a tentar ver se o som também soava como lamúria, mais um piano a tentar acalmar a coisa, até ter entrado um baterista tranquilo com um uma batida que se deverá chamar “um-dois”, e uma voz feminina a dizer qualquer coisa num inglês macio, para acabar toda aquela confusão, ‘sons contemporâneos’, diziam os passadores de tal música!
Tenho alguma (enorme) preocupação em escrever sobre música, por não saber absolutamente nada da coisa, além das emoções que levanta em mim que, não poucas vezes, me comovem até aos limites do normalmente aceitável, mas que, absolutamente, não desdenho; e não esqueço também o meu professor de Português no antigo quinto ano dos liceus, já lá vão umas dezenas de anos, Domingos Romão Pechincha, por usar uma expressão que voltei depois, a ler muitas e muitas vezes, ‘A ignorância é sempre atrevida!’
Depois os tais passadores daquela música, acabaram o tempo que lhes restava, a fazer uma revisão do assunto, mas tudo deve ter terminado tranquilamente, mesmo com cada um continuar a tocar para seu lado (menos o baterista tranquilo) pois não ouvi ninguém a bater com as portas, ou a ‘arrepiar’ o quadro preto da escola com um pau de giz, (também são sons meus contemporâneos!), nem voltei a ouvir a tal voz do inglês macio, a explicar mais alguma coisa lá para a gente dela.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor