(continuação do texto do sábado passado,13/07)
A magia da poesia é algo de encantatório e que pode não corresponder à realidade, é verdade que quando uma pedra bate num vidro, o vidro parte-se. O poeta cria uma nova realidade e o vidro não se parte…
A vida não é feita só do que é real. O desejo secreto do poeta, recorrendo-se da sua memória de coisas reais, e que desde criança quer mudar para uma realidade outra, feita de palavras que não são escravas do evidente e do real.
Para tal, a criança tem o engenho e a arte de criar rimas, lengas-lengas, com situações absurdas e desafiadoras.
A Criança gosta de subverter o que escreveram e leram para ela que se encanta com o canto suave ou ruidoso das palavras e dos silêncios.
Mas o poeta quer sonhar com o que já sabe, com aquilo que questiona e com o que gostaria que fosse a realidade.
Estes meninos e estas meninas que receberam Nuno Júdice sentiram que todos podemos escrever poemas com as palavras que já conhecemos criando novas palavras e realidades.
As meninas e os meninos perguntaram à professora se seriam capazes de escrever também uma poesia. Mas nós não somos poetas… Eu tenho vergonha… E se depois ninguém nos perceber? A professora vai mostrar ao poeta Nuno…Nuno quê? Nuno Júdice. Se vocês quiserem podemos mostrar.
Para ficarem mais seguros do que iam mostrar começaram por perguntar:
O que é um poeta? – Mauro
A estátua fala mesmo? – André
Os bêbados vão todos para o cais das colunas? – João
Porque é que o poeta nunca responde ao amigo? – Igor
Gosta da cidade de Lisboa? – Xico
Como é que se lembrou de fazer este livro? Ia na rua, via alguma coisa e apontava? – Cristina
Escreveu a história no cais das colunas ou em casa? – David
Falou com o poeta e com o amigo ou estava só a vê-los? – Tiago
O livro que ouviram ler, ou que leram, foi Lisboa às Cores, com ilustração de António Jorge Gonçalves, editado pela CONTEXTO 1993 para o Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa para ser distribuído pelas escolas do 1º ciclo. António Jorge Gonçalves fez a ilustração em deambulações por Lisboa nos anos 80, acompanhado por um conto de Nuno Júdice.
As meninas e os meninos, que tinham idades compreendidas entre os 10_15 anos, fizeram das palavras pausadas de Nuno Júdice o desejo de criarem.
A pedido deles, o que iam escrever tinha que ter a palavra Lisboa.
Mas o silêncio foi mais forte do que as suas emoções e nada disseram, até que: Oh, professora escreva, no quadro, a palavra Lisboa, mas de outra maneira para escrevermos os nossos poemas. Não vamos fazer um texto, pois não?
E as emoções deixaram voar os sentimentos para realizarem um sonho, um desejo, uma certeza, uma dúvida e uma alegria, sem par, por terem escrito:
E agora o que vai dizer o nosso Poeta Nuno Júdice? Quando é que ele volta?
O meu amigo Nuno Júdice soube motivar estes alunos, não, estes meninos e meninas rotulados de alunos com muitas dificuldades de aprendizagem, em meninas e meninos para o prazer da escrita e da criação. Não tinham dificuldades de aprendizagem, tinham as emoções tolhidas por sentimentos que lhes magoavam a existência.
Mas a luz de uma estrela, chamada Poeta, levou alguns a querem ir para a biblioteca ver livros e saber se havia mais poetas como aquele senhor.






