As palavras estão cada vez mais doentes. Retomo uma frase usada na Carta de 27 de Julho passado ‘Alguém afirmou um dia, -escritor seria– por só eles saberem quando as palavras ficam doentes’, porque a também escritora e jornalista Rosa Montero, escreveu há dias, no jornal onde colabora, ‘Os meios de comunicação estão desesperados com a crise de modelo de mercado provocada pelas novas tecnologias, que os deixou na travessia do inferno’.
A escritora vai mais longe ‘Cada vez mais sensacionalista (como existiu e foi sempre) mas agora com a voragem e a facilidade com se difundem as mentiras, o pior é o algoritmo, que converte as pessoas nuns ignorantes, sectários e enfurecidos. Cada um de nós acaba por se encerrar no seu pequeno mundo, por crermos que o universo, só aí, é bem claro .
Outro jornalista e ainda guionista, Paco Tomás, afirma no ‘Publico.es’, ‘As direitas roubam-nos as palavras’, por terem a suficiente e bem treinada aptidão da identidade ultra, e acrescenta, ‘Uma mutação daqueles valores rançosos da antiga extrema-direita, com o abuso isento e chique, de jovens executivos neoliberais’.
E o melhor exemplo para se entender isto, diz Tomás, ‘É o que estão a fazer à palavra “liberdade”; só a usam quando, na realidade, estão a falar de ultraliberalismo, a desculpa para justificar o individualismo, o egoísmo, “o eu primeiro e os outros que se desemerdem”. Em nome da liberdade de proceder, assim se justificam as más práticas’.
Creio ser necessário e urgente recuperar a confiança nas ideologias. A afirmação não é minha, é de Fernández Barbudo, catedrático de Teoria Política em Madrid, que explica a explica desta maneira, ‘O facto de termos tão má imprensa, é uma derrota de que nos devemos recuperar, por só assim podermos ter rotas de viagem para nos guiarem com clareza, nos momentos de angústia em que vivemos’.
E se repararem bem, não foi só a ‘liberdade’ a adoecer. Olhem em volta e pensem bem no que vêm todos os dias, nos caminhos de casa ou do trabalho, nas filas de carros, onde ninguém usa o pisca, onde se passa à frente por cima das linhas contínuas, nos autocarros onde o utente mais velho tem um drama para arranjar assento, vejam as salas de espera de qualquer centro de saúde, consultório ou escritório, olhem e pensem na forma como se trata quem está do outro lado de um balcão, e também reconhecerão a doença da palavra ‘respeito’.
E uma outra, agora muito em voga, do desporto à política (prologando-se assim a embrulhada entre os dois), para se nomearem práticas, atitudes individuais ou colectivas, preços de aquisição de um marcador de golos ou de um craque em qualquer outra posição, ou então os jogos das plataformas digitais que até arrastam atitudes dramáticas, bem como das plataformas, e barcos quase podres ou meras jangadas, que trazem para um continente com deficit de nascimentos, centenas de crianças para morrer no mar antes de aqui chegarem, ou, se o conseguirem, aprender como a palavra ‘radical’ inclui todas estas coisas; alguém se vai encarregar de lha lembrar.
Algo terá de ser feito, mas não no TikTok e semelhantes, nunca através de influencers e quejandos, mas a começar na família, depois na escola, porque, se deixarmos que valores rançosos nos tirem o valor das palavras, também perderemos a importância dos princípios, mormente o de que todo o homem nasce nu, mas igual nos deveres e nos direitos, e há muita gente que já o esqueceu, ou nunca o aprendeu!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor