
Encontrei hoje Praxedes na rua, com seis ou oito volumes debaixo do braço. De longe parecia o Sr. Teófilo Braga.
― Viva, seu Praxedes. Tem gozado boa saúde?
― Não, mas tenho o guarda-chuva da minha sogra.
― Você está doido?
― Não estou; o que estou é, apesar de velho, a aprender línguas. Não vê?
E mostrou-me os volumes que levava e que eram o Francês sem Mestre, o Inglês sem Mestre, o Calão sem Mestre, etc.
― Para que diabo é tudo isso?
― Para quê? Para poder entender os meus patrícios. Hoje quem em Portugal não puder manejar seis línguas, além da que tem na boca, é um homem tramado.
― Como?
― Pois você não repara? Já ninguém fala português. As tabuletas por exemplo; um café é uma brasserie; uma modista, ainda que seja no Regueirão dos Anjos, é Modes et confections; os barbeiros já não se contentam em ser coiffeurs, também são hair dressers. Pois se até as engomadeiras são planchadoras… Nas casas ― perdão, nos restaurants ― já não se sabe o que se come. O bacalhau com batatas é morue aux pommes, sauce vinaigrette, o rabo de boi é oxtail, o queijo é fromage, a conta é em centavos e o troco superavit. Nos animatógrafos, os dísticos das fitas são escritos em espanhol, em galego ou em bundo. Agora, para mais ajuda, até os jornais são escritos em estrangeiro.
― Os jornais?
― Sim senhor. Há dias vi numa crónica de sport a notícia dos matchs de foot-ball ― vá ouvindo ― dos nossos players no Rio de Janeiro. ― Vamos lá a ver ― disse eu comigo ― que tal se portou a rapaziada lá fora. Pois, meu amigo, li o seguinte: A saída foi do team alvi-negro, cujos forwards, valentemente ajudados pelos halves, schootaram ao goal sem êxito, porque o refere notando um focel ordenou um frickrick. A seguir, os players adversos organizaram um belo rusk, que o keeper schoota ficando um dos jogadores offside. O center-half ocasiona um corner, não aproveitando um passe do out-sideright. O back dribla todo o scrath, aumentando consideravelmente o seu score…
― Oh homem! Pare lá com isso que eu já estou agoniado…
― E diga-me você como há de uma pessoa contar o que se passou à família com uma algaravia destas? É o que lhe digo: já ninguém fala português. Em casa os meus rapazes não falam senão calão. O Alfredo, o mais velho, acha que isto do presidente estar melhor é canja. O pequeno, o Chico, não quer ir para o liceu e diz que não vai nesse bote. Que há de fazer um homem de cinquenta anos numa situação destas? Estudar. Eu ando na Escola Académica. Para amanhã tenho o verbo acoucher e o plural dos substantivos chineses terminados em tchim. Veja você a minha vida…
8 de Agosto de 1913
