Espuma dos dias — Quatro democracias em crise: ainda a França — Nomeação de Barnier: façam reentrar os intumescidos Por Régis de Castelnau

Nota prévia:

Não obstante terminada a série “Quatro democracias em crise profunda” no que diz respeito à França e à Alemanha, publicamos novos textos sobre estes países que consideramos de interesse, por um lado, na sequência das recentes eleições regionais em duas das regiões orientais da Alemanha, a Saxónia e a Turíngia e por outro, quanto aos desenvolvimentos que se registam quanto à formação de um novo governo em França.

Eleições na Europa, regionais na Alemanha, gerais em França. Na Alemanha ganhou a extrema-direita e na França, supostamente ganhou a esquerda, sendo certo que esta última ressuscitou um moribundo, Macron. Como resultado deste ressuscitar aguarda-se para se saber quem de facto ganhou, ou, dito de outra forma, aguarda-se pelo resultado das manobras políticas do dito ressuscitado. Será isto Democracia? Claro que não.

Numa Europa social e politicamente em decomposição e estamos a falar do eixo Paris-Berlim, a base em que assenta a União Europeia, é logico que se pergunte: para onde vais, Europa?

Na mesma linha de decomposição social, em Portugal assiste-se ao trabalho da ceifa, de se ceifar tudo o que possa fazer lembrar a ideia , enganadora, acrescente-se, de governo socialista. Rolam as cabeças dos dirigentes dos cargos supostamente técnicos, nomeados pela anterior Administração, mas que pelos vistos, técnicos são apenas os dirigentes ligados à AD: o resto é escória administrativa, daí a ceifa que está a ser levada a cabo por Montenegro e para bem dos portugueses! .

Salva-se nesta ceifa António Vitorino, e não será por acaso. Por dom de Deus, talvez seja isso, é um homem para todos os cargos, para todas as nobres missões, para todas as compensações, de prestígio ou outras, desde que valham a pena, até mesmo a possibilidade de um cargo como o de secretário-geral da NATO. Seria bom lembrar uma famosa página de várias questões apresentada pelo jornal Público em que a primeira delas o terá levado a demitir-se . Não há melhor maneira de olharmos para o futuro do que ter bem presente o que foi o passado, para evitar que este se repita.

E o passado talvez se esteja a repetir com Maria Luís Albuquerque que, como o jornal Público bem lembrava muito recentemente, acumulava o cargo de deputada como o de alto quadro de um fundo abutre que operava sobre títulos da dívida pública e ela tinha sido ministra das Finanças. E os fundos abutres voltaram agora a Portugal e contra o Estado Português e contra o seu povo pela mão de Paul Elliot Singer.

Aqui vos deixo quatro pequenos textos (os primeiros três já publicados – aqui, aqui, e aqui -, o último publicado agora) como explicação da afirmação que fiz acima relativamente à decomposição social e política na Europa:

– “A AfD destruiu a corrente política dominante alemã”, por Thomas Fazi;

– “Como termina a revolução da AfD”, por Gregor Baszak;

– “Governo demissionário: usurpação por uma quadrilha organizada”, por Régis de Castelnau.

 – “Nomeação de Garnier: façam reentrar os intumescidos”, por Régis de Castelnau.

 

Júlio Mota


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

3 min de leitura

Nomeação de Barnier: façam reentrar os intumescidos

Por Régis de Castelnau

Publicado por  em 7 de Setembro de 2024 (original aqui)

por Régis de Castelnau

Publicado por em 1 de Setembro de 2024 (original aqui)

 

 

Bem, um pequeno resumo para tentar entender o ruído táctico de Jean-Luc Mélenchon desde o passado dia 9 de junho:

  • 9 de junho resultado das eleições europeias. O RN está bem na liderança, tndo duas vezes mais votos do que o segundo. Macron saca do morteiro e dá um tiro no próprio pé. Dissolução!
  • Mélenchon tem uma ideia, as NUPES [Nova União popular ecológica e social fundada em 2022] que, contrariamente às suas esperanças, não lhe permitiram ser primeiro-ministro em 2022, estão em coma. Muito rapidamente arranja-se uma aliança eleitoral, um casamento de carpas e coelhos que não hesitamos em chamar de “Nova Frente Popular”, não incomodados com a captura da herança.
  • Em 30 de junho, o RN está novamente na liderança, com os seus 11 milhões de votos e, desta vez, uma importante mobilização. A NFP está em grande parte para trás. Os Macronistas estão completamente esgotados, na melhor das hipóteses voltarão à assembleia com 70 Deputados todos curvados.
  • Uulala, não cheira bem, com o efeito acelerado da eleição uninominal em duas voltas, os neonazis que comem as criancinhas estão às portas do poder. E aqui Mélenchon tem uma ideia, genial desta vez. Depois do NFP, vamos fazer uma” frente Republicana”, vamos optar pelo mais podre de Macron, pedindo aos nossos eleitores que votem neles. Bem, a LFI perderá deputados, o PS será colocado de volta na sela e os Macronistas salvarão uma centena de assentos parlamentares. Mas, uma vez que lhes dizemos que a ideia é genial.
  • E funciona, digamos assim! O RN tem certamente o primeiro grupo na Assembleia Nacional, é também o primeiro partido em França, mas somando as couves e cenouras a “esquerda”, com os seus 180 deputados de 577 pretende ter ganho. E, ao pôr-se de acordo com os Macronistas, impede o primeiro grupo parlamentar de obter qualquer posição representativa nas instituições da Assembleia. Por conseguinte, a esquerda considera que deve obter Matignon [lugar de primeiro-ministro]. Para fazer isso, ela apresenta um Macron improvável numa anágua que irrita a todos com o seu narcisismo doentio.
  • Macron manda-os dar uma volta e, depois de uma comédia grotesca, instala na rue de Varennes um fóssil recuperado dos glaciares da Sabóia. Não sem especificar que obteve de Marine Le Pen que o seu grupo não votaria imediatamente para censurar o novo governo. Magnífico! A operação levada a cabo conjuntamente por Mélenchon, Faure e Roussel funcionou maravilhosamente bem. O resultado é um primeiro-ministro de direita cuja longevidade dependerá da benevolência dos neonazis que comem criancinhas. Quem deve obter algumas contrapartes políticas, numa nova configuração política: “apoio com a corda do enforcado sem participação”.
  • Ninguém pode afirmar que o trio de choque (Tondelier não conta) não previu este cenário. Falar do “golpe de força” de Macron é inepto. É a “frente republicana” que inevitavelmente devia produzir esta câmara de três blocos. A legitimidade institucional e política de Michel Barnier não dependerá da nomeação do Presidente da república, mas da ausência de derrube do seu governo. E é o RN quem segura a corda que aciona o cutelo da guilhotina. Desta forma, poderão esperar tranquilamente pelas próximas etapas, obtendo contrapartidas sem sujar as mãos no exercício directo do poder.

 

Parabéns à Equipa dos Sonhos da “esquerda” por esta operação de grande estilo.

“Ding, dong!

  • Sim, bom dia, o que é?
  • É o entregador, tenho uma palete de pipocas [intumescidos] para si.
  • Sim, é verdade. Entra e ponha isso aí.
  • Então, digamos que você vai ter algum estoque.
  • Não se preocupe. O espectáculo vai durar algum tempo.»

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O autor: Régis de Castelnau [1950 – ], advogado francês nascido em Rabat (Marrocos), de uma antiga família da nobreza de Rouergué, é licenciado pela Universidade de Paris Pantheón Assas, especializado em direito social e económico. Advogado empenhado, tornou-se próximo do movimento operário francês e nos anos 70 tornou-se um dos advogados do Partido Comunista Francês (PCF) e da CGT. Em especial, liderou a defesa dos trabalhadores da indústria siderúrgica entre 1978 e 1982. A partir desta experiência, escreveu um livro, La Provocation2, escrito com o escritor François Salvaing. Como membro do gabinete da Comissão de Política Externa da PCF (La Polex), desenvolveu uma actividade internacional significativa e reuniu-se, nomeadamente, com Indira Gandhi em 1982 e Mikhail Gorbachev em 1987. Os seus compromissos valeram-lhe no Eliseu a alcunha de “Barão Vermelho. A partir dos anos 90, ao analisar a importância crescente das questões jurídicas no processo iniciado em França pelas leis de descentralização de 1982 e 1983, reorientou as suas actividades para o direito público local. É também Presidente do Instituto de Direito e Gestão Local desde 1997. Ensinou direito urbanístico na Universidade de Borgonha e direito da responsabilidade pessoal dos decisores públicos locais na Universidade de Paris II Panthéon Assas. Publicações e escritos: paralelamente a uma forte atividade doutrinal que assistiu à publicação de vários trabalhos,

Desde 2012, tem uma coluna regular na revista Causeur e, desde Setembro de 2015, a secção “À qui profite la loi” na Internet para o Le Figaro. Apresenta o seu parecer jurídico sobre questões actuais. Dirige o site Vu du droit, onde publica artigos sobre acontecimentos actuais do ponto de vista jurídico. Em 2019, aderiu ao Partido da República Soberana de Djordje Kuzmanovic, uma cisão de La France insoumise.

 

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