
Dizia-me hoje Praxedes:
― Quando eu era solteiro e namorava a pomba que, por mal dos meus pecados, veio a ser a serpente que hoje me envenena às vezes a existência, estou lembrado de ter ido à Trindade ver um entremez, em que, se bem me recordo, um príncipe ― tenho ideia que era Portugal , ― se apaixonava por uma campónia, ― a Ana Pereira, por tal sinal. ― Havia um rei, pai do príncipe e um seu escudeiro, que tratavam de se opor… ― eram o Leone e o Isidoro ― mas tudo acabava em bem. O príncipe casava com a campónia e todos bailavam o fandango. Depois disso, tendo-me obsequiado há tempos um camarada de repartição com um camarote para o Avenida, tive ocasião de ver que, nas peças modernas, os príncipes continuavam a casar com floristas e que, mais valsa menos valsa, é ainda na opereta que se encontra a verdadeira democracia e os poderosos da terra têm ensejo de dar o seu coração e outros pertences a quem muito bem lhes apetece.
― Tudo isso vem a propósito de…
― Do infante de Espanha, cunhado de Afonso XIII. Não tem lido? O rapaz, que é viúvo, quer casar com uma menina muito prendada, filha de boas famílias. O pai dela creio que é daqueles que podem estar sempre de chapéu na cabeça, o que é de uma vantagem para os carecas e os malcriados. O Afonso XIII parece que não se importava; mas a corte acha esquisito e lavra grande intriga. Isto é sendo a pequena filha de um sujeito bem colocado. Imagine agora que o tal infante passava pela rua de S. João dos Bemcasados, via a Fifi e lhe apetecia casar com ela! Calcule que reboliço! Até os quatro litros de água do Manzanares começavam a ferver. Pois olhe que, nesta altura, dava-me muito a conta casar a minha filha com um príncipe, só para ver a cara que fazia o meu tendeiro…
9 de Maio de 1914

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