Não sei será da alteração do clima, da História ou dos homens, mas estamos a viver tempos em que é difícil para qualquer pessoa poder falar de responsabilidade, de racionalidade, de autoridade democrática ou mesmo moral, sem alguém responder mostrando um meme, dar uma risada soturna e agoirenta, ou contar uma piada tipo caserna, por a crise que afecta todos esses campos ser bem evidente. São muitos os exemplos que se poderiam apresentar, aqui ou lá fora.
Mas fiquemo-nos por uns poucos, agora muito importantes: vejam a figura pindérica de um trumpa mau mentiroso e mau em tudo, num debate que correu mundo, chegando a parecer só uma cópia do boçalnaro, vejam o mau perder do Macron, nomeando um primeiro ministro de direita, onde ganhou a esquerda, vejam o Orban a tentar segurar-se com emigrantes do leste, traindo a União onde está ancorado, e vejam como há gente a pôr-se em bicos dos pés, para agitar os símbolos de pesada e horrenda ideologia, que deixou a Europa em ruínas, já lá vão mais de oitenta anos.
E o problema não está só neles, está numa juventude que, de acordo com um estudo divulgado pelo ‘El País’, são em maior número os jovens que consideram aceitável o autoritarismo, do que aqueles que defendem a democracia, e ‘Há cada vez menos medo em se dizer da direita’, enquanto os estudantes de humanidades se consideram mais progressistas que os de direito, economia ou engenharia.
Mas deixa escrito no ‘La Vanguardia’, o seu ex-director Carol, um apelo à tal falta de autoridade democrática e moral, ‘Por isto, temos de voltar ao princípio de tudo, é imprescindível regular as redes sociais, limitar o império do algoritmo nas mãos das quatro grandes, se não queremos que o mundo livre acabe convertido numa selva ou, ainda pior, que um dia salte tudo pelos ares’.
Convém não esquecer que a privacidade deixou de ser um direito para se converter num negócio, de tal maneira que o ‘Big Brother’ já nos parece hoje, uma lembrança encardida da Idade Média, daqueles tempos em que nem havia ecrãs, em que um tal Talleyrand, um príncipe francês, tal como Mbappé, que nem sabia o que era futebol, mas foi primeiro ministro depois da restauração em 1815, e escreveu então, ‘A vida privada deve ser como um recinto amuralhado’, muito longe de prever que iriam ser os próprios cidadãos a deitar tais muros abaixo.
Dessa ruína dos muros da privacidade se aproveita um tal Musk, pois e como escreve outro cronista, ‘Se os discursos de ódio já tinham contaminado o Twitter, a chegada deste sul-africano ao comando, confirmou não só a consolidação, mas directamente a promoção de tais discursos desde a plataforma e, aquilo que um dia foi um lugar enriquecedor, transformou-se num aterro sanitário, uma lixeira’.
Para o fundador da Microsoft, Bill Gates, é bem claro que a tecnologia evoluiu de tal maneira e muito mais rapidamente que a capacidade dos utentes, para saber e poder distinguir se uma informação é falsa ou verdadeira. Numa entrevista à CNBC, diz também que a tecnologia se vai converter no maior problema com que se enfrenta a juventude e as próximas gerações.
E Gates justifica assim estas palavras, ‘A desinformação não só é a mais comum, como a mais difícil de refrear’, considerando por isso, que se deveria estudar e reforçar uma lei que pudesse fazer frente a estes casos, ‘A liberdade de expressão deve estar assegurada, mas, se incitar à violência ou ao negacionismo da vacinação, onde estão esses limites?’ E explica melhor, dando realce ao poder das notícias falsas junto dos diversos públicos, ‘Mesmo que se descubra no dia seguinte, que uma notícia era falsa, o mal já está feito’.
O filósofo Norbert Bilbeny, encontra em Kant e no seu ensaio ‘Ideias sobre uma história universal de um ponto de vista cosmopolita’, que tende a negar a importância das divisões políticas e ver no homem, ou pelo menos no sábio, um ‘cidadão do mundo’; ali, o filósofo alemão salienta, pese embora todo o progresso da humanidade, ‘De uma madeira tão torta, como aquela com que é feito o homem, não se pode esculpir nada muito direito’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor