CARTA DE BRAGA – “um reset urgente na democracia” por António Oliveira

A democracia precisa fazer um reset! Alguém deve pegar na placa do computador que lhe serve de base, por haver muitos ‘comandos’ individuais a tentar abrir o portão que a protege, e nem todos estarão em mãos apropriadas para o fazer!

David Torres, escritor e cronista, define esta situação com uma frase bem simples: ‘Nota-se como as ciências avançam de tal modo, que até parece impossível, mas a política prefere ficar como era antigamente. É fantástico comprovar que enquanto a medicina, a astronomia ou a informática, viajam no terceiro milénio à velocidade da luz, a democracia continua ancorada no século XIX, a passo de percebe’.

Para outro escritor e cronista, Juan Antonio Molina, ‘O sistema político está paralisado, não por ser um sistema representativo, mas porque não o ser suficientemente. Tudo isso nos leva aos dominadores de uma sociedade que favorece a distribuição hierárquica da escassez e do trabalho. Sem uma história de mudança social emancipatória, o conservadorismo mais radical encoraja a outra história que molda a consciência com uma realidade inexistente’.

Com efeito, estamos a assistir a um crescimento das autocracias em todos os continentes, uma espécie de ditadura sustentada pelas já provadas estratégias de manipulação e promoção de um qualquer líder, que contam com todos os tipos de comunicação, fundamentalmente dos ecrãs, bem como o desrespeito comunitário e social com todos os indivíduos diferentes, ou não interessados nas mensagens de tal líder. Pensando em quem manda nos órgãos de comunicação, será que as elites mundiais se dão melhor com as autocracias?

Olhe-se para esta Europa e para a Hungria e o seu primeiro ministro, (até por estarem mais perto!) para se ter a ideia do que é ‘democracia não liberal’ que Orban pratica, mesmo ocupando agora a presidência rotativa da União Europeia!

Mas há outras mais, a nascer ou a crescer, a ofender e a magoar, arregimentando seguidores em tudo quanto é sítio, por cá e demais países destas terras de um continente que começa numa ‘Jangada de Pedra’, a lembrar Saramago.

Repare-se ainda –podemos ver todos os dias, nos já referidos e diversos tipos de comunicação– que nas instituições mais representativas da democracia e nas suas grandes decisões, estar sempre um poder privado. Um ‘pormaior’ que acaba por promover um outro fenómeno conjuntural, com o caminho feito para passar a estrutural –o populismo de extrema direita– e os exemplos estão nos tais ecrãs e primeiras páginas, e até organiza manifestações de carácter geral, devidamente publicitadas.

No princípio de Setembro, um estudo do Pew Research Center, um laboratório de ideias em Washington, com base em pesquisas de opinião pública, demográficas e análise dos conteúdos dos media em todo o mundo, concluia que o problema não é da democracia, mas do seu funcionamento. E os números apresentados são de merecer toda a atenção: 74% dos inquiridos diz que os dirigentes não se importam com o que pensam as pessoas, 42% pensa que os partidos não os representam e 60% está descontente com o modo como funciona o seu país.

Este e outros estudos salientam que as causas deste ‘retrocesso democrático’ são a crescente desigualdade, a sensação de a política não resolver os problemas, nem sequer ilusionar com um futuro de esperança. A propósito deste conjunto de factos, o professor Bernardo Ivo Cruz, deixa um aviso bem sério, no DN de 9 de Setembro, ‘Se nada for feito, não nos espantemos quando acordarmos uma triste manhã, e percebermos que sacrificámos a liberdade que temos e a igualdade que desejamos, às propostas simplistas e infantis de “nós” e “eles”, em que os primeiros são puros e os segundos culpados de todos os problemas no nosso bairro, na nossa cidade, país ou no mundo’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

 

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