Era eu pequeno, ia à missa pela mão de minha mãe que, depois de colocar o véu para poder entrar na igreja, como todas as senhoras que os meus olhos alcançavam, me voltava a agarrar na mão e lá seguia eu para o terceiro ou quarto banco da fila da direita, onde ainda cabiam mais algumas senhoras, grande parte delas na companhia dos meus companheiros de jogar ao berlinde ou ao pião, e esperávamos pela chegada do senhor padre na companhia do sacristão e de algum voluntário para carregar a bandeja com o cálice e o jarrinho que iriam servir na cerimónia.
Mas antes entravam, ou já lá estavam, as arranjadoras das flores que enfeitavam o altar principal e os outros mais pequenos, a que se seguiam uns senhores com uma opa e um ponteiro aceso na ponta, para acender as velas que tinham ao alcance, ritual sem o qual nem haveria cerimónia, pensava eu então.
Depois o senhor padre começava a falar, chamava ou aceitava espontâneos que se ofereciam para ler páginas de uns livros bem grandes e bem grossos, e a minha mãe apertava-me o pescoço ou a orelha que tinha mais à mão, para eu parar de fazer sinais aos meus amigos.
Mas aprendi então, como a linguagem era importante para que nos pudéssemos entender, porque o senhor padre, transformava tudo o aquilo que os outros liam, numa linguagem mais terra a terra, que até eu compreendia, apesar de ele usar às vezes, palavras do catano, que nem sabia o que queriam dizer, mas asneiras não deviam ser, porque a minha mãe nem mexia, a não ser que eu teimasse nos sinais para os outros garotos.
À saída também via como os tais senhores do ponteiro aceso na ponta, vinham agora com outros ponteiros com uma espécie de cone preto, também na ponta, e se entretinham a apagar as velas que ainda estavam acesas, quase todas e, um dia fora já da igreja, houve um dos meus companheiros que disse a rir, ‘Este é que era um bom emprego, se pagassem bem, o de apagador de velas!’. Até as mães riram, e nós desatámos a correr.
E percebi também como teria de ler muito, nem que fora para poder falar com os meus pais, com o professor Rabaça que tinha começado a dar-me a primeira classe da instrução primária, para poder escolher o que viria a ser quando fosse grande.
Vim também, muitos anos depois, a perceber o que Ludwig Wittgenstein escreveu uma vez, ‘Os limites da minha linguagem, significam também, os limites do meu mundo’, como aprendi ali, ao lado de senhoras embiocadas e garotos traquinas, mas ao alcance da mão materna, que logo ajeitava o pescoço ou a orelha de quem se portasse menos bem, depois do ritual das velas.
E como ele, sei agora que a palavra nos confronta, conta a sua própria história para nós a retermos, para dar sentido a este mundo de tão difícil entendimento, e para tentar dialogar com o ‘outro’, aquele que nem queremos encontrar nem ouvir, tal a pressa com que andamos pelos caminhos da vida.
Quando, cada manhã, me meto no carro para tomar uns cafés, para ir à fruta ou ao quiosque, reparo e deixo passar sempre aqueles que não respeitam os limites de velocidade, que apitam e gritam entre os vidros fechados dos três ou cinco portas, chamando nomes ao pacato e sereno cidadão que vai lento na faixa do meio, mesmo sabendo que ninguém os ouve, por talvez lhes chegar tal atitude, para aliviarem as pressões que não conseguem sacudir.
Há uns dias atrás, conversava com um amigo sobre estas coisas, quando ele disse tranquilo, ‘Não te incomodes com eles. Chegam a casa e vão descarregar tudo no X, a máquina de fazer dinheiro do Musk. Lá também não precisam de dizer quem são!’
Não se poderiam usar para tais sujeitos, aqueles antigos e modestos apagadores de velas?
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor