Nota prévia
Nos tempos que correm, e face ao silêncio quase geral a que se assiste, este é um texto que se poderia constituir, depois de levemente modificado ou não, uma petição contra a guerra, porque além da barbaridade que esta é, muitos dos seus terríveis efeitos de arrastamento, só serão visíveis muito mais tarde como o texto curiosamente explica. Tudo isto somado, mostra o custo infinito que nos irá causar todo este silêncio sobre uma guerra contra a qual não podemos estar calados.
JM, 19/09/2024
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
6 min de leitura
Carta ao soldado israelita que assassinou Aysenur Ezgi Eygi
Reeditado por Regis Castelnau em
, em 17 de Setembro de 2024 (original aqui)
Chris Hedges é um jornalista e autor americano. Ex-correspondente de guerra, trabalhou para o New York Times, que deixou porque recusou o apoio desse jornal às guerras americanas. Ele é próximo do cartunista repórter de guerra Joe Sacco com quem trabalhou.
Desde 7 de outubro de 2023, este pastor presbiteriano intervém regularmente para protestar contra a guerra israelita na Palestina.
Após a morte da ativista turco-americana Aysenur Ezgi Eygi, que considera um assassinato, publicou uma carta dirigida “ao soldado israelita que assassinou Aysenur Ezgi Eygi”.
Decidimos reproduzi-la a seguir.
Régis de Castelnau
Eu conheço-te.
Encontrei-me contigo nas densas copas da guerra em El Salvador. Foi lá que ouvi pela primeira vez o estalo agudo da bala do atirador. Distinto. Sinistro. Um som que espalha terror. As unidades do exército com quem viajei, enfurecidas com a precisão mortal dos franco-atiradores rebeldes, instalaram metralhadoras de calibre pesado 50 e pulverizaram a folhagem sobre a cabeça de cada um dos rebeldes até que o seu corpo, uma polpa ensanguentada e mutilada, caia no chão.
Vi-te a trabalhar em Bassorá, no Iraque, e, claro, em Gaza, onde, numa tarde de outono, no cruzamento de Netzarim, mataste um jovem a poucos metros de mim. Carregámos o seu corpo mole na estrada.
Vivi contigo em Sarajevo durante a guerra. Estavas apenas a algumas centenas de metros de distância, empoleirado em altos arranha-céus que olhavam para a cidade. Testemunhei a tua carnificina diária. Ao anoitecer, vi-te disparar uma bala no escuro contra um velho e a sua mulher curvada sobre a sua pequena horta. Falhaste. Ela correu, hesitante, para se esconder. Ele não o fez. Atiraste outra vez. Admito que a luz estava a desvanecer-se. Era difícil de ver. Então, pela terceira vez, mataste-o. Esta é uma daquelas memórias de guerra que vejo na minha cabeça uma e outra vez e nunca falo sobre isso. Eu vi-te, a partir das traseiras do Holiday Inn, mas agora eu vi isso, ou as sombras disso, centenas de vezes.
Também me visaste. Disparaste sobre colegas e amigos. Eu estava na tua linha de visão viajando do Norte da Albânia para o Kosovo com 600 combatentes do exército de Libertação do Kosovo, cada insurgente carregando uma AK-47 extra para entregar a um camarada. Três tiros. Aquela rachadura estaladiça, muito familiar. Devias ter estado longe. Ou talvez tenhas sido um mau atirador, mesmo que tenhas chegado perto disso. Corri para me esconder atrás de uma pedra. Os meus dois guarda-costas estavam debruçados sobre mim, ofegantes, com os bolsos verdes presos ao peito cheios de granadas.
Sei como falas. Humor negro. “Pequenos terroristas”, dizes sobre as crianças que matas. Orgulhas-te das tuas capacidades. Dá-te carácter. Embalas a tua arma como se fosse uma extensão do teu corpo. Admiras a sua beleza desprezível. É isso que tu és. Um assassino.
Na vossa sociedade de assassinos, és respeitado, recompensado, promovido. És insensível ao sofrimento que infliges. Talvez aprecies isso. Talvez penses que estás a proteger-te a ti próprio, à tua identidade, aos teus camaradas, à tua nação. Talvez acredites que o assassínio é um mal necessário, uma forma de garantir que os palestinianos morram antes de poderem atacar. Talvez tenhas abandonado a tua moralidade à obediência cega do exército, absorvido que estás na máquina industrial da morte. Talvez tenhas medo de morrer. Talvez queiras provar a ti mesmo e aos outros que és duro, que podes matar. Talvez a tua mente esteja tão distorcida que te leve a acreditar que matar é coisa justa.
Estás intoxicado pelo poder divino de revogar a carta de outra pessoa para viver nesta terra. Deleitas-te com a intimidade disso. Vês nos mínimos pormenores através da mira telescópica, o nariz e a boca da tua vítima. O triângulo da morte. Susténs a respiração. Puxas o gatilho lentamente, suavemente. E depois o cosmético cor-de-rosa. Espinal medula cortada. Morto. Acabou.
Foste a última pessoa a ver a Aysenur viva. Foste a primeira pessoa a vê-la morta.
Agora és tu. E agora ninguém te pode contactar. És o anjo da morte. Estás entorpecido e frio. Mas, suspeito que isso não vai durar. Cobri a guerra durante muito tempo. Eu sei, mesmo que tu não saibas, o próximo capítulo da tua vida. Sei o que acontece quando saímos do abraço do exército, quando já não somos uma engrenagem nestas fábricas da morte. Sei em que inferno estás prestes a entrar.
Começa assim. Todas as habilidades que adquiriste como assassino no exterior são inúteis. Talvez voltes a isso. Talvez te tornes um mercenário. Mas isso só atrasará o inevitável. Tu podes correr, por um tempo, mas não podes correr eternamente. Haverá contas. E este é o cálculo sobre o qual vou falar.
Serás confrontado com uma escolha. Viver o resto da tua vida atrofiado, entorpecido, isolado de ti mesmo, isolado das pessoas ao teu redor. Mergulharás numa névoa psicopática, preso no absurdo e na interdependência das mentiras que justificam o assassinato em massa. Há assassinos, anos mais tarde, que se dizem orgulhosos do seu trabalho, que não reclamam um momento de arrependimento. Mas eu não estive dentro dos pesadelos deles. Se for assim contigo, então nunca mais vais voltar a viver verdadeiramente.
Claro, não falas sobre o que fizeste com as pessoas ao teu redor, certamente que não com a tua família. Eles pensam que és uma boa pessoa. Mas, sabes que isso é uma mentira. O torpor, geralmente, diminui. Olhas-te ao espelho, e se tens ainda um pingo de consciência, verás que o seu reflexo te incomoda. Mas reprimes a amargura. Estás a escapar pela toca do coelho dos opiáceos e do álcool. As tuas relações íntimas, porque não podes sentir, porque enterras o teu ódio em ti mesmo, desintegram-se totalmente. Esta evasão funciona. Por um tempo. Mas então entras numa tal escuridão que os estimulantes que usas para aliviar a tua dor começam a destruir-te. E talvez seja assim que vais morrer. Conheço muitos que morreram assim. E conheci aqueles que rapidamente lhe puseram termo. Uma arma para a própria têmpora.
Entre 1973 e 2024, foram 1.227 os soldados israelitas que se suicidaram de acordo com estatísticas oficiais, mas o número real seria muito maior. Nos EUA, em média, 16 combatentes veteranos cometem suicídio todos os dias.
Eu tenho um trauma de guerra. Mas o pior trauma, não tenho. O pior trauma da guerra não é o que tu viste. Não é o que o tu viveste. O pior trauma é o que fizeste. Eles têm nomes para isso. Dano moral. O agressor causou stress traumático. Mas isso parece tíbio, tendo em conta os carvões ardentes da raiva, os terrores noturnos, o desespero. Aqueles que te rodeiam sabem que algo está errado. Temem as tuas trevas. Mas tu não os deixas entrar no teu labirinto de dor.
E então, um dia, estás à procura de amor. O amor é o oposto da guerra. A guerra é carvão. Trata-se de pornografia. Trata-se de transformar outros seres humanos em objetos, talvez em objetos sexuais, mas digo-o também literalmente, porque a guerra transforma as pessoas em cadáveres. Os cadáveres são o produto final da guerra, o que sai da sua linha de montagem. Então, vais querer amor, mas o anjo da morte fez um contrato faustiano. É isto. É um inferno não poder amar. Irás carregar essa morte dentro de ti pelo resto da tua vida. Corrói a tua alma. Sim. Temos almas. Vendeste a tua. E o custo é muito, muito elevado. Isso significa que o que o tu queres, o que tu mais precisas desesperadamente na vida, tu não o podes alcançar.
Então, um dia, talvez sejas um pai, uma mãe, um tio ou uma tia, e que uma jovem a quem amas, ou a quem queres amar como uma menina, entra na tua vida. Tu vês nela, isso acontecerá, isso virá num flash, o rosto de Aysenur. A jovem que assassinaste. Volta à vida. Israelita agora. Fala hebraico. Inocente. Bom. Cheia de esperança. A força total do que fizeste, do que foste, do que és, atingir-te-á como uma avalanche.
Irás passar dias a querer chorar e sem saber por que razão. Serás consumido pela culpa. Irás pensar que, por causa do que fizeste, a vida desta outra jovem está em perigo. Castigo divino. Dirás a ti próprio que isto é absurdo, mas de qualquer modo acreditarás nisso. A tua vida começará a incluir pequenas ofertas de bondade para com os outros, como se essas ofertas apaziguassem um deus vingativo, como se essas ofertas te salvassem do mal, da morte. Mas nada pode apagar a mancha do homicídio.
Sim. Mataste Aysenur. Mataste outros. Palestinianos a quem desumanizaste e a quem ensinaste a odiar. Animais humanos. Terroristas. Bárbaros. Mas é mais difícil desumanizá-la. Sabes, viste através dos teus óculos, ela não era uma ameaça. Ela não atirou pedras, a insignificante justificação usada pelo exército israelita para disparar munições reais contra palestinianos, incluindo crianças.
Ficarás cheio de tristeza, ficará afundado nela. Arrependimento. Vergonha. Desgosto. Desespero. Alienação. Terás uma crise existencial. Saberás que todos os valores que te foram ensinados a honrar na escola, no culto, na tua casa, não são os valores que defendeste. Ir-te-ás odiar a ti próprio. Não vais dizer isso em voz alta. Podes, de uma maneira ou de outra, calares-te, apagares-te.
Há uma parte de mim que diz que mereces este tormento. Há uma parte de mim que quer que sofras pela perda que causaste à família e aos amigos de Aysenur, que deves pagar por teres tirado a vida desta mulher corajosa e talentosa.
Disparar sobre pessoas desarmadas não é bravura. Também não é coragem. Nem sequer é guerra. É crime. É assassinato. És um assassino. Tenho a certeza de que não recebeste ordens para matar Aysenur. Atiraste à cabeça de Aysenur porque podias, porque querias. Israel administra um campo de tiro ao ar livre em Gaza e na Cisjordânia. Impunidade total. O assassinato como desporto.
Um dia não serás mais o assassino que és agora. Tu cansar-te-ás em tentar afastar os demónios. Quererás desesperadamente ser humano. Vais querer amar e ser amado. Talvez o consigas. Voltar a seres humano. Mas isso significará uma vida de contrição. Significará tornar o teu crime público. Será pedir perdão, ajoelhar-te. Isso significa perdoares-te a ti mesmo. É muito difícil. Isso significará orientar todos os aspetos da tua vida para alimentar a vida, em vez de a extinguir. Essa será a tua única esperança de salvação.
Se não o aceitares, estás condenado.
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Chris Hedges é um jornalista vencedor do Prémio Pulitzer que foi correspondente estrangeiro durante 15 anos no The New York Times, onde serviu como chefe do gabinete do Médio Oriente e chefe do gabinete dos Balcãs para o jornal. Trabalhou anteriormente no estrangeiro para The Dallas Morning News, The Christian Science Monitor e NPR. Ele é o apresentador do programa “The Chris Hedges Report”.
Régis de Castelnau [1950 – ], advogado francês nascido em Rabat (Marrocos), dirige o site Vu du droit. É licenciado pela Universidade de Paris Pantheón Assas, especializado em direito social e económico. Nos anos 70 tornou-se um dos advogados do Partido Comunista Francês (PCF) e da CGT. Em especial, liderou a defesa dos trabalhadores da indústria siderúrgica entre 1978 e 1982. A partir desta experiência, escreveu um livro, La Provocation2, escrito com o escritor François Salvaing. Como membro do gabinete da Comissão de Política Externa da PCF (La Polex), desenvolveu uma actividade internacional significativa A partir dos anos 90 reorientou as suas actividades para o direito público local. Desde 2012, tem uma coluna regular na revista Causeur e, desde Setembro de 2015, a secção “À qui profite la loi” na Internet para o Le Figaro. Em 2019, aderiu ao Partido da República Soberana de Djordje Kuzmanovic, uma cisão de La France insoumise.




