INQUIETAÇÃO por Luísa Lobão Moniz

A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco pra chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Mas sei
Que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda

José Mário Branco.

Estamos sempre entre a esperança e o desalento e estamos sempre com a inquietação a bater-nos na consciência. Porquê não sei, mas sei que essa coisa é linda.

E foi assim que foi lançado o 9º Festival Literário Internacional de Óbidos.

A Inquietação é individual e coletiva e, assim, abraçada por escritores, poetas, ilustradores, músicos, banda desenhada, boémia, exposições, professores, alunos…gente que quer parar, escutar o silêncio, saber ouvir…porquê não sei, mas sei que essa coisa é linda.

Foram mesas, foram conversas, foram entrevistas, foram bibliotecas escolares cheias de alunos.

Alexandra Santos com Athanine onde se encontra um mundo de magia; Maria Inês Almeida com “Diário de uma miúda como tu”; Bernardo Sant’ Anna com “A ilha e o Urso”, Isabel Peixeiro com “Leituras, contos e cantilenas”; Daniel Kondo, ilustrador brasileiro, e Carol Naine, projeto literário-musical com “ os desembarcados”; José Luís Peixoto, Viagens para ler, com “Viagens e literatura”; Luísa Lobão Moniz, com “A Escola e os Cravos”.

Todos estes jovens e crianças foram postos perante questões e inquietações, “ oh professora, porque é que o marido tinha que assinar um papel a dizer que não deixava a mulher ir a Espanha?”… porque é que os rapazes e as raparigas não podiam estar na mesma escola…mas eles quando iam para casa iam juntos, não iam? E quando iam a festas?” No livro “A Escola e os Cravos” as crianças foram desvendando que os seus avós não podiam dizer tudo o que pensavam, que foram para a guerra, que houve homens e mulheres que foram presos, torturados ou até mortos porque queriam dizer não, porque não queriam ir para a guerra, que queriam viver em Liberdade.

Muitas crianças gostavam de ser “soldados de Abril”, “Porquê os Cravos?”.

Porquê não sei, mas sei que essa coisa é linda.

Até ao 10º Festival Literário de Óbidos.

 

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