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Algumas reflexões sobre as eleições presidenciais nos EUA
Coimbra, 8 de Novembro de 2024
O resultado das eleições nos EUA aí está e com ele somos assaltados por múltiplas interrogações sobre como chegámos aqui. Que chegámos aqui não é de espantar, só um milagre nos podia dar um outro resultado, apenas um pouco menos mau do que aquele que nos foi dado, mas pelo menos seria uma governação mais previsível e um pouco mais séria do que a que será com Trump.
O importante agora é saber como é que chegámos aqui, e é muito importante que as pessoas de esquerda, ou até mesmo as de direita moderada, levantem essa questão para que, na linha de Hegel, não se venha a ratificar nas próximas eleições a vitória de Trump, seja com Vance (atual vice-Presidente) ou com Desantis (atual governador da Flórida) ou qualquer outro do mesmo calibre.
Desde a publicação da série de textos As Democracias Minadas aqui na Viagem dos Argonautas que nos temos vindo a questionar sobre a política do partido Democrata, sobre o seu deslizar constante para a direita, uma tendência que vem desde Clinton, passando por Obama e talvez menos por Biden, dada a sua aliança com o socialismo democrático representado por Bernie Sanders. Como assinala o Le Monde,
Bernie Sanders, mais recentemente, trabalhou em estreita colaboração com o governo Biden para elaborar as suas metas de política interna sobre saúde, educação, cuidados infantis e direitos dos trabalhadores.
No dia 5 de novembro publicámos um texto sobre o candidato democrata Sherrod Brown ao lugar de Senador onde se considerava que só por milagre ele conseguiria o lugar. Perdeu, a favor do trumpismo e esta derrota é significativa porque se trata de alguém que tem uma longa carreira e ao contrário da maioria dos outros candidatos Democratas esteve sempre ao lado das classes mais desfavorecidos. O autor do artigo que anunciava este resultado, a derrota de Brown, considerava que esta era o resultado não da rejeição de Brown, mas da marca do Partido Democrata junto das populações, que é sentido como um partido que virou as costas à classe trabalhadora em geral e, por isso, rejeitada.
Sobre a derrota de Brown vejamos o que nos diz o canal CBS:
“Brown, de 71 anos, é o único democrata que ocupa um cargo estadual no Ohio e tem estado entre os principais alvos dos republicanos nas eleições de 2024, enquanto procuram construir uma maioria no Senado.
Como um dos dois democratas que enfrentam a reeleição este ano em estados que o ex-presidente Donald Trump venceu em 2020, o titular de três mandatos e os seus colegas do Senado despenderam esforços significativos para reforçar a sua campanha numa corrida que se tornou a mais cara do ciclo.
(…)
Brown atacou Moreno sobre o aborto durante toda a campanha, destacando a sua abertura a restrições, apesar do Estado aprovar uma medida salvaguardando o acesso ao aborto em 2023. E apesar da política progressista de Brown, ele trabalhou para destacar áreas onde ele e os líderes republicanos se sobrepõem — como na repressão ao fentanil.
Brown, que preside ao Committee on Banking, Housing and Urban Affairs no Senado, manteve uma forte marca de classe trabalhadora no estado e historicamente apelou aos que votam em candidatos de diferentes partidos [n.t. por exemplo, Republicano para presidente, e Democrata para a Câmara de Representantes ou o Senado, ou vice-versa]. Semanas antes do dia da eleição, até mesmo o ex-governador de Ohio Bob Taft, um republicano, deu o seu apoio a Brown, chamando-o de “defensor eficaz e experiente no Senado dos EUA”.
“O senador Brown ocupou cargos estaduais em representação dos habitantes do Ohio durante 25 anos”, acrescentou Taft. “Conhece bem o Estado de Ohio e compreende as preocupações e os desafios das pessoas em todo o nosso estado.”
Mas o democrata enfrentou ventos contrários no dia das eleições no estado em que Trump venceu por 8 pontos em 2020. E em 2022, o senador JD Vance – agora companheiro de Trump – venceu a corrida contra o deputado democrata Tim Ryan para se tornar o senador mais jovem do Ohio.”
Na Wikipédia também se pode ler:
“Apesar de Ohio ter se tornado um estado republicano de primeiro plano nos últimos anos, Brown continuou popular entre os seus eleitores. Por causa disso, a corrida é considerada como sendo extremamente serrada; inicialmente, as sondagens indicavam Brown como o favorito para vencer, embora Moreno tenha ganhado uma vantagem desde então”.
Esta eleição mostra-nos alguns dados curiosos: Vejamos algumas estimativas apresentadas em 6 de novembro pela CBS:
Os eleitores por sexo:
Os eleitores por faixa etária:
A marca do partido Democrata (negativa) suplantou a marca de qualidade do Senador Brown (positiva), é também o que se pode inferir do texto da CBS. Curiosamente esta foi a campanha mais cara do ciclo eleitoral, o que não deve ter acontecido por acaso.
Significativamente Robert Reich numa lúcida análise sobre a lição destas eleições diz-nos em conclusão da sua análise:
O Partido Democrata deveria usar este ponto de inflexão para mudar de posição — de partido de universitários abastados, de grandes empresas, de “nunca-Tumpers” [1] como Dick Cheney e “centrismo” vazio — para um partido anti-establishment pronto para abalar o sistema em nome da vasta maioria dos americanos.
Esta é, e deve ser a lição da eleição de 2024.”
Vejamos o que se pode ler sobre estas eleições em Nova Iorque – e Nova Iorque não é o mundo rural, é um círculo eleitoral azul, desde longa data. Sobre este círculo eleitoral veja-se o que nos diz um dos mais reputados analistas em sondagens, Nate Silver. Este escreveu em 6 de novembro:
“quando me perguntavam [sobre quem iria ganhar] eu dizia que não tinha qualquer intuição. Na medida em que havia alguma coisa que se assemelhava a uma perceção real, e isso era o facto de ser muito mais fácil fazer uma lista de razões para Trump ganhar – inflação, imigração, Joe Biden querer ser presidente até aos 86 anos, a reação iliberal em todo o mundo – do que fazer a mesma lista para Kamala Harris. Tentei e consegui talvez arranjar 6 ou 7 pontos positivos para ela, mas não 24. Portanto, isso pode ter pesado no meu “modelo mental” da corrida.
Mas, sobretudo, foram as cicatrizes emocionais de 2016. Foi a trumpificação do ambiente mediático, em particular do Twitter. E foi o facto de viver em Nova Iorque.
Porque, apesar de todos os perfis de eleitores de Trump como criaturas exóticas em restaurantes de Youngstown, Ohio, quase nenhum lugar viu um aumento maior no apoio a Trump do que os cinco bairros abaixo.
As contagens de votos de 2024 são preliminares e provavelmente tornar-se-ão ligeiramente mais democratas à medida que mais votos forem contados. Mas mesmo assim. Em 2012, Mitt Romney obteve 19,9 por cento dos votos em Queens. Apesar de ser o bairro onde cresceu, Trump só melhorou ligeiramente essa percentagem em 2016, obtendo 21,8%. Mas ontem, obteve 38%!
E no Bronx! Trump obteve 27% dos votos no Bronx ontem, cerca de três vezes mais do que os seus 10% em 2016 ou os 8% de Romney em 2012. O Bronx, que tem apenas 8,6% de brancos não-hispânicos. O Bronx, que costumava quebrar os meus modelos de Congresso por ser tão democrata.
Mesmo com o declínio dos brancos em termos de percentagem da população, a Maioria Democrática Emergente não está a emergir nem é uma maioria. Em vez disso, é quase certo que Trump vai dar aos republicanos o voto popular e talvez uma maioria absoluta pela segunda vez desde 1988. E ganhou o maior apoio entre os grupos étnicos que mais crescem – em particular, os eleitores hispânicos, de acordo com as sondagens à boca de urna e as provas ecológicas.”
Ainda sobre estes bairros de Nova Iorque vejamos o que nos diz hoje, 8 de novembro, o canal CBS:
Em Nova York, Trump estava atrás de Harris por mais de 900.000 votos — uma margem de vitória menor do que Biden teve sobre Trump em 2020.
De acordo com a CBS Ness Data Team, os democratas estão a perder terreno no Bronx, Brooklyn, Manhattan e Queens desde 2016.
Embora Harris tenha derrotado Trump na cidade de Nova York, ela fê-lo com uma margem de vitória de 37 pontos, em comparação com a margem de 53 pontos de Biden em 2020 e a margem de 62 pontos de Hillary Clinton em 2016.”
Confirmam-se as análises de Nate Silver.
Relativamente a Biden houve aqui uma perda de 16 pontos percentuais (53-37) e não estamos no mundo rural dos Estados Unidos, estamos a falar de uma das cidades mais cosmopolitas do mundo, se é que não é mesmo a mais cosmopolita de todas elas.
Mas há ainda que perceber como, por efeito de mais de 3 décadas de neoliberalismo, quais são as perspetivas boas ou más que as pessoas têm quanto ao futuro. Há muitas mudanças no ar, o ar dos tempos, que levam emocionalmente muita gente a estar agora situada à direita e contra muitas coisas que são causas da esquerda. Este estado emocional não tem efetivamente nada a ver com a política de Biden que no plano interno e fruto de acordos com a ala de Bernie Sanders [2],terá sido o mais eficiente presidente democrata das últimas décadas por chocante que pareça ser dizer isto [3]. No plano externo foi igual a todos os outros, calçaram as botas do Presidente James Monroe, puseram-lhe meias-solas de outro material mais resistente e seguiram em frente, fale-se de Bush filho, de Clinton, de Obama, de Trump 1.0 ou de Biden. E agora penso que vai ser pior com Trump 2.0.
Quanto ao ar dos tempos diz-nos Meyerson no seu texto intitulado Uma longa noite, uma longa viagem ao inferno o seguinte:
“Mas olhando para as votações de ontem à noite, não se pode ignorar um movimento geral para a direita nalgumas questões sociais. A rejeição de procuradores distritais reformistas em cidades de esquerda, bem como a adoção pelos liberais de algumas medidas eleitorais mais tradicionais de lei e ordem, aponta para uma preocupação geral com o aumento da desordem social visível. Em muitas cidades liberais, a persistência dos sem-abrigo é vista como uma confirmação dessa desordem social, mesmo quando as pessoas também compreendem a sua correlação com um mercado imobiliário incomportável.
Isto explica algumas votações não habitualmente conservadoras na Califórnia, onde os eleitores não só revogaram por esmagadora maioria uma lei que tinham promulgado anteriormente e que reduzia as penas para crimes menores, como também se recusaram a aprovar uma medida que teria aumentado gradualmente o salário mínimo do estado. (Uma medida para aumentar o salário dos trabalhadores que recebem gorjetas também falhou no igualmente liberal Massachusetts). No espírito atual, o espetro dos pobres que não merecem ser apoiados atinge mesmo as jurisdições historicamente liberais.” Fim de citação
Vejamos algumas das medidas que foram agora rejeitadas na Califórnia:
Deixamos aqui alguns pequenos textos que pretendem ir para lá dos números e darem-nos algumas pistas para a compreensão dos números que estão à vista de todos nós. São eles:
- Uma longa noite, uma longa viagem ao inferno, por Harold Meyerson
- A recessão que não houve e as eleições de 2024, por Harold Meyerson
- Está a acontecer, novamente. Por Matt Karp
- A lição, por Robert Reich
- Espero estar enganado, por John Ganz
Penso que estes textos vos deixam a mesma certeza que me deixaram a mim: para além do muito trabalho de investigação que a esquerda americana tem de fazer para perceber como se chegou aqui, há também muito trabalho a fazer para perceber como é que estas pessoas, os eleitores, estão aqui nesta posição, emocional e culturalmente. Só assim se poderá conseguir que na próxima vez possamos vencer a extrema-direita, tenha ela a cara de Vance, de Desantis ou outro.
Notas
[1] Nota do tradutor: never-trumper é um movimento conservador que se opõe ao trumpismo e ao presidente eleito dos EUA, Donald Trump.
[2]Devo dizer que aqui me refiro à política de Biden seguida desde a sua tomada de posse até meados de 2023 pois a partir desta data eram já claras as falhas cognitivas de Biden, como assinalam Bob Woodward e Nate Silver, entre outros. A partir daí não sei quem é que governava a América.
[3] Sobre este tema, a Bidenomics, estamos a preparar dois longos textos que estão para além do presente objetivo, que é a leitura dos resultados eleitorais de agora.











