“Quando a primavera chegar” – Poesia ucraniana traduzida por poetas portugueses, poemas, escritos nos primeiros meses da guerra.
(filho / deveres de eloquência):
«mãe, donde vem a guerra?» — pergunta ele baixinho e logo a seguir, sem pausa: «a guerra é um desastre, certo? por alguma razão rebentou? como por exemplo, sabes, a malvadez…»
ela sente-se como se a cabeça tivesse levado uma bordoada desferida por uma barra de ferro tiraram-lhe o tapete, arrancaram-lhe o cérebro para forra do crânio. «onde foste tu buscar isso, filho?»
«talvez tenhamos jogado à palha curta, mãe, talvez tenhamos puxado a palhinha errada no fardo de Deus? talvez quiséssemos subir até tocar o céu, quando isso era pecado como fizeram os homens da Babilónia, sabes, e a torre desabou, sabes, contaram-me isso na escola…»
ela retém as lágrimas, com todo o fel que elas contêm, cala-se e respira a custo o ar das palavras não ditas. «mãe, diz-me uma coisa, as guerras também se pagam? — ele embacia expirando para um naco de janela e desenha uma forma no vidro baço. aqui fica a Crimeia, aqui Donetsk — inviolados, não é? territórios intactos intocADOS e nossos — é assim, não é, mãe?»
respirando a custo as palavras ditas desta vez, «intocÁVEIS» — sugere ela então. ele cola a bandeira bicolor no meio do desenho na janela. — «e onde, onde raio foste tu buscar essas palavras tão pouco infantis?»
Kateryna Mikhalitsyna (Mlyniv, 1982) Traduzido por Regina Guimarães a partir da tradução de Ksenyslava Krapka
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A poesia e a Guerra Colonial
“Nambuangongo meu amor”
Em Nambuangongo tu não viste nada
não viste nada nesse dia longo longo
a cabeça cortada
e a flor bombardeada
não tu não viste nada em Nambuangongo.
Falavas de Hiroxima tu que nunca viste
em cada homem um morto que não morre.
Sim nós sabemos Hiroxima é triste
mas ouve em Nambuangongo existe
em cada homem um rio que não corre.
Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto
em Nambuangongo a gente lembra a gente esquece
em Nambuangongo olhei a morte e fiquei nu. Tu
não sabes mas eu digo-te: dói muito.
Em Nambuangongo há gente que apodrece.
Em Nambuangongo a gente pensa que não volta
cada carta é um adeus em cada carta se morre
cada carta é um silêncio e uma revolta.
Em Lisboa na mesma isto é a vida corre.
E em Nambuangongo a gente pensa que não volta.
É justo que me fales de Hiroxima.
Porém tu nada sabes deste tempo longo longo
tempo exactamente em cima
do nosso tempo. Ai tempo onde a palavra vida rima
com a palavra morte em Nambuangongo.
Manuel Alegre
Praça da Canção, 1965
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(Sem título)
ao meu amor que não veio à guerra
nem saberá da violência dos poentes africanos
nem do cansaço que vertem os imbondeiros:
tu não provarás esta agonia dos rios moribundos
vomitando tédio nas nossas horas magoadas
nem este nosso arrastar pelas bolanhas
na madrugada com a lama a lamber-nos
os testículos adormecidos.
mesmo que as cartas digam do resistir
e rasguem caminhos na nossa solidão
áfrica será sempre para ti a virgem
do sonho e do temor
ninguém te falará na mulher magra negra
em cujo ventre o sol foi emboscado.
Bettencourt, Urbano (1980), Marinheiro com residência fixa, Lisboa, Edição G.I.C.A., p. 34.
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Há um fogo enorme no jardim da guerra
Há um fogo enorme no jardim da guerra
E os homens semeiam fagulhas na terra
Os homens passeiam co’os pés no carvão
que os Deuses acendem luzindo um tição
Pra apagar o fogo vêm embaixadores
trazendo no peito água e extintores
Extinguem as vidas dos que caiem na rede
e dão água aos mortos que já não têm sede
Ao circo da guerra chegam piromagos
abrem grande a boca quando são bem pagos
soltam labaredas pela boca cariada
fogo que não arde nem queima nem nada
Senhores importantes fazem piqueniques
churrascam o frango no ardor dos despiques
Engolem sangria dos sangues fanados
E enxugam os beiços na pele dos queimados
É guerra de trapos no pulmão que cessa
do óleo cansado que arde depressa
Os homens maciços cavam-se por dentro
e o fogo penetra, vai directo ao centro
Sérgio Godinho
A guerra é a guerra…tudo o que se escreve sobre ela é com o sangue dos mortos e feridos, é com os distúrbios emocionais do pós guerra.
Por cada morto que cai e se faz em pedaços, mil negócios prosperam…

