ADÃO CRUZ – MAI – MOVIMENTO ARTÍSTICO INTERNACIONAL (II ) ( CONTINUAÇÃO )

 

A Arte pela Arte era o nosso horizonte, essencialmente uma luta contra velhos e novos processos de desidentificação, contra a imediatez da moderna informação, a instantaneidade de certos produtos culturais e todos os espelhos do nosso vazio. O MAI era um caminho, um movimento de análise, recriação e desconstrução dos nossos próprios conceitos.

Recusávamos considerar a esquematicidade e as técnicas artísticas como dimensão imprescindível e fundamental da Arte. A Arte começava, a nosso ver, na intersecção dos factores técnicos com os factores culturais e humanos, isto é, na estruturação e na formação daquele ser humano em quem assenta a verdadeira expressão da vida, uma espécie de rampa de lançamento para as planuras da essência. A Arte era para nós uma atitude quase intemporal e projectiva, e não uma habilidade ou tecnologia. Nuclearmente dinâmica e “individuista”, não individualista, poderia ser tanto mais de cada um quanto mais livremente fosse de todos.

Para nós, a Arte não assinalava os passos nem se media a metro ou a baldes de tinta. Os passos e as medidas pertenciam ao mundo da moda, e a moda, como mistificação dialéctica, era a morte da Arte.

De qualquer forma, a Arte, autoconhecimento do Homem, nada perde com a elaboração de planos de reflexão e metodologia artísticos que permitam, sem medo nem constrangimento, manter uma certa configuração e concatenação social e histórica. O sentido histórico do nosso passado e presente, em todos os campos, é sempre uma dolorosa resultante na senda dos vencedores e vencidos.

Não pretendíamos descobrir novos mundos, mas tão simplesmente a origem natural e pura dos nossos gestos. A Arte é um misterioso caminho dos nossos sentidos em direcção ao gesto, e as mãos do artista são a chave que lhe vai abrindo as portas. Isto não significa que estivéssemos alheios a todas as vertentes conceptuais da modernidade como projecto de avanço, mas sempre dentro de uma actividade conflictiva, saudavelmente construtora de cada um de nós.

A Arte é universal como a natureza humana, mas não pode confundir-se com a vida. A Arte é uma aventura de vida dentro da própria vida, podendo ser mais interessante do que a vida, porque vive plenamente a procura do inequívoco.

Ninguém é obrigado a desempenhar o papel de artista para criar. A Arte reside na criação do encanto, e o encanto pode emergir do mais simples, do complexo, do sublime, do belo, do cómico, do trágico, do delicado ou do grotesco. Como dizia Kandinsky, o mundo está repleto de ressonâncias, ressonâncias do interior de cada um de nós, e toda a forma de expressão pode ser boa se for capaz de exprimir a força interior. Esta força pode ser a única capaz de criar a forma exacta. O espírito reflecte-se nessa forma e dá-lhe a personalidade. A personalidade acontece no tempo e no espaço e este elemento temporo-espacial pode criar o estilo.

Muita gente pinta ou tenta qualquer outra forma de expressão artística, parecendo-nos muito frágil a pretensa visão elitista dos ângulos necessários à distinção do que é bom e do que é mau, quando a única coisa válida é a atitude de quem procura a Arte na vida ou a vida na arte, numa sublime necessidade de infinito.

Como a Arte não tem classes nem limites, nós empenhámo-nos sempre a aprender o ofício de ser livres.

(continua)

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