CARTA DE BRAGA – “do ódio e da violência” por António Oliveira

De acordo com uma hipótese posta há já uns três anos pelo filósofo Daniel Innerarity, a vaga de ódio que afecta as democracias ocidentais, desde a política ao futebol, muitas vezes misturados e ‘marchando’ juntos, talvez seja apenas o facto de o ódio estar a substituir a violência.

Diz Innerarity, ‘O ódio que se vê nas democracias ocidentais não conduz a novas guerras ou a mais violência, mas poderá estar a substituir a mesma violência’; e acrescenta o filósofo, ‘O perigo para as democracias viria desse ódio verbal, ou de um confronto sem fim, que pode levar a versões novas e mais “iliberais” da democracia ocidental’.

Lamentavelmente, no mundo das ideologias e da política, o ódio ao ‘outro’ parece ser o ‘modo de estar’, evitam-se críticas, conversas e debates, de tal maneira que se propaga e atinge duramente comunidades, povos e países, numa espécie de fogo lento, que vai aumentando tensões, agravadas por líderes que não têm tento na língua nem no ‘descaro’, ditando comportamentos onde os desvairos nunca estão longe.

No meio destas coisas e, analisando o que vai pelo mundo, de Gaza e Líbano, e Ucrânia, Iémen e Sudão, mais o discurso do ódio do trumpa mesmo antes de reentrar na Casa Branca, a ascensão da extrema direita na Europa, a trapalhada política da América do Sul, onde mais um despenteado teima em entregar a economia do país que governa, não poupando nas expressões que vertem ódio.

‘A ideologia, que teve um papel determinante na história durante a maior parte do século XX, tem um papel muito limitado, após o fim da Guerra Fria, da divisão ideológica para a divisão identitária. As pessoas entram em conflito porque são quem são, porque cada um tenta defender o seu território, o seu lugar no mundo ou a sua região, e o mundo se tornou muito mais complicado’ afirma Amin Maalouf, o escritor de origem libanesa, ao jornal ‘La Vanguardia’, numa entrevista recente.

Chapate, ‘Só espero que não seja contagioso’

‘Le Monde’, 18.12.24

Voltando ao artigo de Innerarity, resgatei esta afirmação, ‘Acredito que as democracias consolidadas têm um problema de negativismo, ineficiência, confronto estéril, visão de curto prazo, incapacidade de desenvolver políticas complexas de longo prazo… e todos estes são factores que não favorecem uma democracia de qualidade, mas que não são chamados a fazê-lo, mas a acabar com o sistema democrático’.

Essa é a principal razão do crescimento dos populismos no mundo ocidental, que Amin Maalouf, aliás partidário desta opinião, explica assim ‘No início, estes movimentos eram hostis à integração europeia, por o seu público ser essencialmente local, desconfiado de tudo o que vinha do exterior. Mas à medida que estes movimentos crescem, a sua visão da Europa está a mudar. Não tenho a certeza de que, se se tornassem a primeira força no Parlamento Europeu, o seu objectivo continuaria a ser a desintegração da Europa. Mas talvez se queiram apresentar como os únicos a defender a Europa, a sua civilização’.

Não quero ser dramático, mas os quatro ‘Cavaleiros do Apocalipse’, a Fome, a Peste, a Guerra e a Morte, já andam por aí, trotando entre as pessoas, também algo desatentas com os números que saem quase a diário, e ao alcance de toda a gente que se queira informar, dos milhares de crianças assassinadas todos os dias, dos bombardeamentos de escolas, hospitais e sistemas de apoio energéticos, da destruição das florestas e campos de cultivo, dos mais de oitocentos milhões de esfomeados, à beira da inanição total.

Só nos falta ver os cavalos em corrida desenfreada por cima da cabeça de todos nós, uma humanidade que, inconsciente, prefere todas as Taylor’s por muito Swift que sejam.

Ainda se fosse um cálice de Porto!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

2 Comments

  1. Concordo. Parece que uma nuvem de demência aterrou sobre os cérebros do dirigentes politicos actuais, os inibiu de todo de dialogar, da diplomacia, da capacidade de resolver os assuntos sem ser à porrada.

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